Cinco horas antes da chegada da família do meu marido, saí de casa em silêncio e fui para umas termas

Cinco horas antes da chegada da família do meu marido, saí de casa em silêncio e fui para umas termas. Depois, pelas câmaras de vigilância, vi o “fim de semana perfeito” deles acontecer sem a mulher que sempre o tornava possível.

— Sofia, ficas aí parada porquê? A tua tarefa é simples: a mesa tem de estar cheia. Os meus irmãos vêm de longe para comer comida caseira, não para te ver com essa cara. Não me envergonhes.

A frase de Miguel magoou-me pela naturalidade. Eu estava no meio da cozinha, apoiada à bancada fria de pedra. As pernas doíam, as costas ardiam depois de horas a limpar quartos, casas de banho, janelas, terraço. Na ilha da cozinha acumulavam-se sacos de carne, legumes, ervas, travessas e um cansaço que ninguém via.

— Miguel, — disse eu, tentando manter a voz firme, — não me sinto bem. Podemos encomendar comida. Há uma churrasqueira ótima aqui perto. Eu não consigo passar dois dias a cozinhar.

Ele olhou para mim com desprezo.

— Não digas disparates. A Teresa não come comida comprada. E o meu irmão vai gozar comigo o ano inteiro. Pega nas facas e trata da carne.

Saiu para a sala e aumentou o som do jogo.

Foi nesse instante que percebi: ele não queria uma esposa. Queria cenário. Queria a casa cheia, a família satisfeita, os irmãos a elogiarem a sua vida. E eu era a máquina que preparava tudo nos bastidores.

Durante vinte e oito anos, Miguel repetiu:

— A nossa casa está sempre aberta.

Sim. Aberta por mim. Eu fazia camas, lavava toalhas, cozinhava, punha a mesa, tirava a mesa, limpava pegadas, recolhia copos no jardim, preparava pequenos-almoços para gente que nem perguntava se eu tinha dormido.

Os irmãos dele vinham como quem chega a um alojamento pago por outro. Rui com a mulher Teresa, que se instalava na varanda e perguntava: “Sofia, tens aquele paté?” Paulo trazia o cão enorme, que corria pelo corredor e deixava pelo no sofá claro. Miguel recebia os abraços e os brindes. Eu recebia a loiça.

Nessa noite, ele adormeceu depressa. Eu não.

Tinha dinheiro guardado. Pequenos trabalhos de contabilidade feitos em casa, à noite, para duas lojas e um restaurante. Miguel achava que eu “brincava com folhas de cálculo”. Foi essa brincadeira que me comprou uma semana nas termas de Monchique.

Às quatro da manhã, levantei-me. A mala já estava pronta: roupa confortável, sapatilhas, documentos, um livro, creme para as mãos, medicamentos. Desci à cozinha. Tudo estava impecável. Os alimentos continuavam crus, à espera de mãos que não seriam as minhas.

Escrevi um bilhete:

“Miguel, este fim de semana a tua família fica aos teus cuidados. Eu fui descansar. Quando quiseres saber como estou, podes perguntar.”

Saí antes do nascer do sol.

Cheguei às termas perto da hora de almoço. O quarto era claro, com varanda para as árvores. Havia lençóis brancos e um silêncio que parecia luxo. Sentei-me na cama e fiquei ali, sem fazer nada. A princípio, senti culpa. Depois senti alívio.

Às dez, o telefone começou.

Miguel ligava. Depois escreveu.

“Onde estás?”
“Eles chegam daqui a nada.”
“Isto é ridículo.”
“O que digo ao Rui?”

Nenhuma mensagem perguntava se eu estava bem.

Abri a aplicação das câmaras de casa. Instalámo-las depois de assaltarem uma moradia na rua. Nunca pensei que um dia serviriam para eu ver a verdade do meu casamento.

Miguel corria pela cozinha de t-shirt velha. Abria o frigorífico, olhava para a carne, fechava, abria outra vez. Procurou uma frigideira. Não encontrou. Partiu ovos para um tacho fundo e derramou metade na placa. Depois ficou a olhar para aquilo, perdido.

Ao meio-dia chegaram Rui e Teresa. Depois Paulo com o cão.

— Onde está a Sofia? — perguntou Teresa. — E porque é que não cheira a comida? Nós viemos com fome.

Miguel mexeu muito as mãos, como se gesticular substituísse cozinhar.

Em menos de uma hora, a casa virou confusão. Rui tentou acender o grelhador e quase gastou todo o carvão. Paulo abriu embalagens de carne sem saber o que fazer. Teresa procurou entradas nos armários e encontrou feijão, massa e arroz. O cão apanhou um pano de cozinha e correu com ele pelo jardim.

As mensagens continuavam.

“Atende.”
“Estamos todos à espera.”
“Onde estão as travessas grandes?”
“Estás a humilhar-me.”

Respondi depois de uma massagem, com chá de cidreira na mão.

“As travessas grandes estão no mesmo sítio de sempre. Hoje és tu que procuras.”

Ele ligou. Atendi.

— Sofia, fizeste isto de propósito?

— Sim. Fiz de propósito descansar.

— Os meus irmãos estão aqui.

— Tu convidaste-os.

— Mas somos família.

— Então dividam o trabalho. Família não é sinónimo de uma mulher a servir todos calada.

À noite, encomendaram frango assado. Chegou tarde e quase frio. Teresa reclamou que “já não se recebia como antigamente”. Rui disse a Miguel que ele devia ter organizado melhor. Paulo zangou-se porque o cão estragara uma almofada. Eu desliguei a aplicação e fui caminhar no jardim das termas.

Fiquei uma semana.

Bebi água quente, caminhei devagar, dormi depois do almoço, comi sentada até ao fim. No terceiro dia, olhei para o espelho e vi uma mulher cansada, sim, mas ainda viva. Ainda minha.

Miguel telefonou no quarto dia.

— Sofia… estás bem?

Fechei os olhos.

— Agora estou.

Ele ficou calado.

— Desculpa, — disse. — Eu não fazia ideia.

— Fazias. Só não querias olhar.

Quando voltei, a casa estava limpa. Não perfeita, mas limpa por ele. A almofada tinha sido substituída, o tapete enviado para limpeza, a cozinha arrumada. Sobre a mesa havia uma folha.

“Ninguém é convidado sem combinarmos.
Quem vem traz comida.
Quem convida organiza.
Sofia não é empregada.”

Olhei para Miguel.

— Palavras são fáceis.

— Eu sei. Por isso liguei aos meus irmãos e disse isto.

A prova veio semanas depois, quando Rui sugeriu outro almoço. Miguel respondeu em alta voz, comigo na sala:

— Pode ser, mas cada um leva alguma coisa. Eu trato da carne. A Sofia descansa se quiser.

Do outro lado, Teresa resmungou.

Eu sorri.

Não porque tudo estivesse resolvido. Mas porque, pela primeira vez, o meu descanso entrou na conversa antes do menu.

Há mulheres que não precisam de abandonar a família. Precisam apenas de sair da cozinha tempo suficiente para que todos percebam que a festa nunca foi automática.

Era trabalho.

E tinha nome.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

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