— Olha como se arranjou, — murmurou dona Amélia quando Leonor saiu do prédio. — Vai certamente encontrar-se com algum namorado. Não tem preocupações.
— Vive como uma borboleta, — concordou a vizinha. — Maquilha-se e só volta à noite.
Leonor sorriu-lhes.
— Bom dia!
Depois correu para o autocarro.
Antes das aulas, limpava uma pequena loja de roupa. A proprietária deixou-a entrar.
— Desculpe o atraso. Antes de abrir estará tudo pronto.
— Eu confio em ti.
Leonor estudava educação social. Trabalhava de manhã, servia num café à noite e aceitava trabalhos escritos para ganhar algum dinheiro extra.
O telefone tocou.
— Leonor? Preciso de um trabalho de matemática para segunda-feira.
Ela pensou no pouco tempo disponível.
— Envie os materiais. Eu faço.
Depois das aulas, apanhou outro autocarro para uma instituição de acolhimento.
O segurança sorriu.
— A Matilde está à tua espera no jardim.
A menina estava sentada sozinha. Leonor cobriu-lhe os olhos.
— Adivinha quem sou.
— Leonor!
Matilde abraçou-a.
— Quando me levas para casa? Prometeste.
— Na segunda-feira há uma reunião. Tenho dois empregos, bolsa de estudo e apartamento. Assim que aprovarem a tutela, sais daqui comigo.
— Amanhã voltas?
— Sempre.
As duas tinham perdido os pais três anos antes. Leonor era ainda muito jovem e não tinha condições legais para cuidar da irmã de quatro anos.
Desde então, toda a sua vida tinha um objetivo.
Mudou-se para um apartamento mais pequeno perto da instituição, trabalhou sem descanso e reuniu documentos.
Nessa noite abriu o computador quase à meia-noite. O trabalho de matemática tinha de ficar pronto. Com o dinheiro compraria uma cama para Matilde.
Poucas semanas depois, as duas saíram juntas do prédio. Leonor ajeitou a roupa da irmã.
— Bom dia!
— Bom dia, — disse Matilde.
As vizinhas olharam para elas.
— De onde apareceu esta criança?
— Deve tê-la tido muito nova e deixado com os pais.
Não sabiam que Leonor levava a irmã para a escola depois da primeira noite em casa.
Passaram alguns meses. O apartamento encheu-se de lápis, brinquedos e risos. Havia pouco dinheiro e muito cansaço. Leonor continuava a adormecer diante do computador.
Mas Matilde já não esperava num banco de uma instituição.
Um dia, ao regressarem das compras, dona Amélia levantou-se.
— Leonor, queremos pedir desculpa. Dissemos muitas coisas sobre ti.
— Não conheciam a minha história.
— Não. Mas devíamos ter perguntado ou ficado caladas.
Matilde apertou a mão da irmã.
— A Leonor nunca desistiu de mim.
As mulheres ficaram envergonhadas.
Durante meses tinham visto uma jovem bonita, maquilhada e sempre com pressa.
Não tinham visto que ela corria entre trabalhos, aulas e uma criança que esperava por ela.
As aparências contam apenas a parte mais pequena da vida.
Por isso, antes de decidir quem alguém é, talvez seja melhor perguntar que peso essa pessoa está a carregar em silêncio.
