— Amanhã tiras esse gato de casa, — disse Rui com uma calma fria, como se falasse de uma lâmpada avariada e não de um ser vivo que há três anos dormia aos pés da cama.

— Amanhã tiras esse gato de casa, — disse Rui com uma calma fria, como se falasse de uma lâmpada avariada e não de um ser vivo que há três anos dormia aos pés da cama.

Helena estava a tirar batatas do forno quando ouviu a chave na porta. Rui chegara tarde, como sempre depois das reuniões de quinta-feira. Atirou as chaves para o móvel com força.

Em cima da mesa da cozinha estava Tico, um gato cinzento com uma mancha branca no peito, a lamber a pata com toda a tranquilidade.

— Outra vez em cima da mesa, — murmurou Rui.

Helena pegou no gato, apertou-o contra si por um segundo e pousou-o no chão. Tico saltou para o parapeito da janela e ficou a olhar para a noite de outubro.

— Amanhã não quero vê-lo aqui, — continuou Rui. — Leva-o para a tua mãe, para uma associação, dá-o a alguém. Tanto faz.

Helena olhou para ele.

— Tanto faz?

— Sim. Três anos de pelos, tigelas, cama no corredor. Chega. Ou o gato, ou eu.

A cozinha ficou em silêncio.

Helena fechou devagar o saco da ração. Depois disse:

— Está bem. Entendi.

Rui pensou que tinha vencido.

Nessa noite, dormiu mal. Tico ronronava aos pés de Helena, e aquele som irritava-o. Lembrou-se do dia em que ela trouxera o gato da rua. Estava molhado, magro, com uma orelha ferida. Rui dissera: só por esta noite. Depois: não no sofá. Depois: não no quarto.

Mas Tico ficou.

Porque Helena também precisava de alguém que ficasse sem exigir, sem mandar, sem trazer para casa o mau humor como se fosse lei.

De manhã, Rui encontrou duas malas no corredor.

As malas dele.

Ao lado estavam camisas, documentos, o computador e a máquina de barbear.

— O que é isto? — perguntou.

Helena estava junto à porta. Tico sentado ao lado.

— Tu disseste: ou o gato, ou eu.

Rui soltou uma gargalhada curta.

— E escolheste o gato?

— Não. Escolhi-me a mim. Escolhi paz.

— Vais acabar com um casamento por causa de um animal?

Helena respirou fundo.

— Não foi o gato que estragou o casamento. Foram as ordens. O desprezo. A forma como entras nesta casa e tudo tem de se curvar ao teu humor.

— Estás a exagerar.

— Dizes sempre isso quando eu finalmente falo.

Rui saiu, convencido de que ela o chamaria. Ela não chamou.

Ficou uns dias em casa de um amigo. No começo contou que a mulher o expulsara por causa de um gato. Depois começou a perceber o vazio. Ninguém lhe perguntava como tinha sido o dia. Ninguém aquecia o jantar. Ninguém cuidava dele em silêncio.

Uma semana depois voltou com flores.

Helena abriu com a corrente na porta.

— Quero voltar para casa.

— Então primeiro tens de aprender o que é uma casa.

Ele baixou os olhos.

— Desculpa.

— Pelo quê?

Rui demorou.

— Por ter achado que podia decidir por ti. Por ter tratado o que amas como um incómodo. Pelo Tico. E por ti.

Tico apareceu atrás dela.

— Tico fica, — disse Helena.

— Eu sei.

— E se um dia voltares, não será como dono da casa. Será como companheiro.

Rui assentiu.

Naquela noite, Helena não abriu a porta. Não por vingança. Por respeito ao silêncio que finalmente conseguira proteger.

Sentou-se no sofá. Tico saltou para o colo dela e começou a ronronar.

Helena chorou, mas não de fraqueza.

Às vezes uma mulher não escolhe um gato em vez do marido.

Escolhe apenas não abandonar mais aquilo que ainda a faz sentir amada.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: