— Acabou! Vou-me embora! — gritou Helena, atirando roupa para uma mala enorme. — Ainda bem que nunca me casei contigo.

— Acabou! Vou-me embora! — gritou Helena, atirando roupa para uma mala enorme. — Ainda bem que nunca me casei contigo.

— Nisso tens razão, — respondeu Rui, encostado à porta do quarto. — Teríamos agora muito mais problemas.

— Chama um táxi. E ajuda-me com as malas.

Rui chamou o táxi sem discutir. Calçou os ténis, pegou nas malas e desceu atrás dela pelas escadas do prédio, em Aveiro. Helena resmungou todo o caminho: que ele era frio, teimoso, incapaz de compromisso, e que ela ainda ia encontrar alguém que soubesse dar valor a uma mulher.

Quando o táxi arrancou, Rui ficou no passeio e acenou.

— Então? — perguntou o vizinho Manuel, aproximando-se. — Foi respirar uns dias ou foi de vez?

— De vez.

Manuel não fez perguntas inúteis.

— Sobe e descasca batatas. Eu vou ali à mercearia. Hoje contas tudo.

Rui voltou ao apartamento. O silêncio parecia estranho. Não era exatamente tristeza. Era uma espécie de espaço vazio que ainda não sabia se era alívio ou solidão.

Descascou batatas, cortou cebola, tirou do frigorífico duas febras do jantar anterior. Manuel voltou com vinho, queijo, azeitonas e um chouriço pequeno.

— Ao quê? — perguntou, erguendo o copo.

— Às batatas bem fritas.

— Finalmente uma causa nobre.

Comeram na cozinha. As batatas ficaram douradas, estaladiças, com cebola no ponto. Manuel só falou depois de limpar o prato.

— E desta vez foi porquê?

— Incompatibilidade de feitios.

Manuel olhou para ele.

— Rui, tens quarenta e sete anos. Tiveste uma mulher oficial, depois não sei quantas companheiras. E com todas foi incompatibilidade de feitios?

Rui encolheu os ombros.

— Talvez.

Mas a palavra saiu sem força.

Tinha emprego bom numa empresa de engenharia, casa própria, carro, saúde. A vida estava organizada. Demasiado organizada. Nas noites em que ficava sozinho, percebia que organização não é o mesmo que felicidade. A casa estava arrumada, mas ninguém a habitava com ele de verdade.

— O meu sobrinho trabalha numa empresa curiosa, — disse Manuel. — Fazem compatibilidade de casais. Mas sem fotografias, sem idade, sem aquelas parvoíces das aplicações. Só testes de personalidade.

— Uma agência matrimonial moderna?

— Chama-lhe o que quiseres. Eles analisam carácter, hábitos, maneira de discutir, capacidade de pedir desculpa. Dizem que resulta.

— E custa?

— Claro. Quinhentos o teste, quinhentos a marcação do encontro.

Rui riu.

— Mil euros para conhecer uma mulher sem saber sequer o nome?

— Já conheceste muitas sabendo o nome. Correu bem?

A pergunta ficou no ar.

Duas semanas depois, numa noite em que o apartamento parecia grande demais, Rui pegou no cartão que Manuel lhe deixara e ligou.

O escritório ficava no centro. Um rapaz chamado Tiago recebeu-o com um sorriso.

— É amigo do meu tio Manuel, certo?

— Ele insiste nisso.

Rui preencheu um questionário. Esperava perguntas banais. Mas não. “Como reage ao silêncio depois de uma discussão?” “Consegue admitir culpa sem se sentir humilhado?” “O que significa para si compromisso?” “Quando termina uma relação, foge ou decide?”

Respondeu com uma honestidade que o deixou desconfortável.

Uma semana depois, chamaram-no.

— Sábado às cinco, junto ao Teatro Aveirense. No banco perto das árvores. Leve o nosso folheto na mão. Ela terá outro igual.

No sábado, Rui preparou-se como se fosse uma entrevista importante. Camisa azul, casaco leve, sapatos limpos. Comprou uma rosa. Só uma. Um ramo parecia exagero; uma rosa parecia uma hipótese.

Chegou cedo. O banco estava vazio. Depois viu uma mulher com o mesmo folheto. Estava de costas, a olhar para a fachada do teatro. Havia algo familiar na forma como segurava a mala.

Rui aproximou-se devagar, estendeu a rosa e disse:

— A senhora está, por acaso, à minha espera?

Ela virou-se.

— Rui?

— Teresa?

Era a sua ex-mulher. A primeira e única com quem se casara. Tinham vivido juntos um ano e meio e divorciaram-se há vinte e cinco anos, quando ainda achavam que orgulho era sinal de força e sair a bater a porta era uma forma de vencer.

Teresa olhou para o folheto dele e depois para o seu.

— Disseram-me que tinham encontrado o homem ideal para mim.

Rui pegou nos dois folhetos e atirou-os para o caixote ao lado.

— A ciência tem sentido de humor.

Teresa riu. Aquele riso trouxe-lhe uma memória tão viva que por um instante ele voltou a ter vinte e dois anos.

— O que fazes aqui?

— Procuro alguém com quem finalmente dê certo.

— E encontraste-me outra vez. Coitado.

— Ou sortudo. Ainda estou a decidir.

Foram caminhar junto à ria. A rosa ficou na mão dela. Conversaram primeiro com leveza, depois com cuidado. Teresa contou que se voltara a casar, tivera uma filha e se divorciara alguns anos depois. Trabalhava numa escola e vivia sozinha, mas sem a pressa antiga de provar alguma coisa.

Rui falou das relações que teve, de como tudo começava bem e acabava com a mesma frase: “não combinamos”.

— E nós? — perguntou Teresa. — Também não combinávamos?

Rui parou.

— Acho que combinávamos demais para a idade que tínhamos. Assustámo-nos.

Ela olhou para ele.

— Eu queria que soubesses o que eu sentia sem ter de dizer.

— E eu queria que tu não precisasses de nada que me fizesse sentir insuficiente.

— Éramos novos.

— E orgulhosos.

— Tu mais.

— Aceito.

Acabaram num pequeno restaurante. Pediram espumante.

— Brindamos a quê? — perguntou Teresa.

— Ao encontro mais inesperado da nossa vida. Pela segunda vez.

Ela tocou no copo dele.

— E à promessa de não repetir os mesmos erros.

Não foram para casa juntos. Despediram-se devagar, com um abraço longo e estranho, cheio de passado e possibilidade.

Depois vieram outros encontros. Cafés. Almoços. Passeios. Telefonemas. A primeira discussão também veio, claro. Mas dessa vez Rui não desapareceu. Teresa não se fechou.

— Estou com vontade de fugir, — confessou ele.

— Então fica só mais dez minutos, — respondeu ela. — Fugir podes sempre depois.

Ele ficou.

Meses depois, Teresa disse:

— Se não nos tivéssemos divorciado, agora fazíamos bodas de prata.

Rui segurou-lhe a mão.

— Não recuperamos esses anos. Mas podemos não desperdiçar os próximos.

Casaram-se novamente um ano depois. Sem grande festa. A filha de Teresa, alguns amigos, Manuel orgulhoso como se fosse o autor de um milagre, e Tiago, o rapaz da agência, que foi cumprimentado como se tivesse descoberto a roda.

No fim da noite, Teresa perguntou:

— Achas que somos mesmo compatíveis?

Rui sorriu.

— Acho que agora somos adultos o suficiente para o ser.

E percebeu que, às vezes, o amor não aparece com um rosto novo.

Às vezes volta com o mesmo rosto de há vinte e cinco anos, só para ver se desta vez sabemos abrir a porta sem medo.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

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