Cláudia ficou junto ao antigo portão da casa onde crescera.
A pereira estava inclinada, o banco de madeira rachara e as janelas estavam escuras.
— Ainda não acredito que a mãe morreu, — murmurou.
O marido Rui pousou-lhe a mão no ombro.
— Fizeste tudo o que podias.
Cláudia sorriu com amargura.
— Fiz mesmo?
Dentro da casa ainda havia cheiro a medicamentos. Recordou as últimas visitas.
— Mãe, cheguei.
— Ficas quanto tempo?
— Até domingo. Depois tenho trabalho.
— Claro. O trabalho…
Naquela altura não percebia a mágoa escondida no silêncio.
— Ela esperava por ti, — disse o irmão Paulo.
— Eu vinha quando podia.
— Uma vez por mês. Eu estava aqui todos os dias.
— Tenho filhos e emprego.
— Eu também. Mas fui eu que a acompanhei aos médicos e que a ouvi chorar durante a noite.
— Nunca me contou.
— Porque não queria que te sentisses culpada.
Depois do funeral, Paulo revelou que a mãe lhe deixara a casa.
— Só a ti? — perguntou Cláudia.
— Sim. Porque fiquei ao lado dela.
À noite, Cláudia perguntou ao marido:
— Fui uma filha horrível?
— Não. Pensaste que ainda haveria tempo.
No dia seguinte, falou com o irmão.
— Não vou contestar o testamento.
— Não?
— Tu cuidaste dela. A casa deve ficar contigo.
Paulo respirou fundo.
— Não é apenas a casa. Eu estava zangado porque carreguei tudo sozinho. Ela perguntava por ti constantemente.
— Eu tinha medo de a ver fraca.
— Ela tinha medo de que a tivesses esquecido.
— Nunca esqueci.
— Eu sei. Mas nem sempre o demonstraste.
Quando voltou a casa, os filhos Miguel e Beatriz correram para a abraçar.
— Tivemos saudades tuas.
Cláudia apertou-os contra o peito.
— Quando eu for velha, não deixem sempre a visita para o mês seguinte.
— Nunca faremos isso, — prometeu Beatriz.
Cláudia sabia que a mãe provavelmente ouvira promessas semelhantes.
Um mês depois, regressou à aldeia.
— Vou ajudar-te com a casa e o quintal.
— Não precisas.
— Preciso, sim. Não quero continuar a chegar como uma visita.
Juntos arranjaram o banco e limparam o terreno.
— Lembras-te de subirmos à pereira? — perguntou Paulo.
— E de a mãe gritar para descermos.
— Nunca descíamos logo porque sabíamos que ela acabava por nos perdoar.
Riram.
Não podiam pedir perdão novamente à mãe.
Mas podiam parar de transformar a dor em distância.
