A mulher pediu no abrigo o cão mais velho. Quando lhe mostraram uma cadela de treze anos, doente e quase sem esperança, ela não perguntou quanto tempo lhe restava
A voluntária Marta levantou os olhos.
— Pode repetir?
— Quero o cão mais velho do abrigo.
— O que está cá há mais tempo?
— O que tem mais idade.
A mulher chamava-se Helena e tinha sessenta e quatro anos. Usava roupa simples, sapatos gastos e trazia uma mala de pano.
A responsável pelo abrigo explicou:
— Um cão muito idoso pode precisar de consultas frequentes, medicamentos e alimentação especial. Pode viver apenas alguns meses.
— Eu sei.
Helena contou que em casa já tinha um cão de quinze anos, adotado com artrite grave. Antes dele vivera com uma cadela cega e com um pastor velho que sofria do coração.
— Porque escolhe sempre os idosos?
Helena olhou para os canis.
— Porque os jovens são vistos. Os velhos tornam-se parte do fundo. As pessoas passam e pensam que já não vale a pena.
A responsável levou-a ao último recinto.
Lá estava Amora, uma cadela grande e castanha, com o focinho branco e as patas traseiras rígidas.
Tinha treze anos.
O dono morrera. A família deixou-a no abrigo dizendo que não tinha espaço.
Amora sofria dos rins e do coração.
— Talvez tenha um ano. Talvez menos.
Helena agachou-se junto à rede.
— Olá, velhinha.
Amora ergueu a cabeça. Depois levantou-se com esforço e aproximou-se.
Encostou o focinho à mão da mulher.
Helena começou a chorar.
— Levo-a.
Antes da adoção, os voluntários visitaram a casa.
Era térrea, com tapetes para evitar quedas, camas baixas e um quintal seguro. Havia fotografias de vários cães idosos na parede.
— Não se cansa de sofrer? — perguntou Marta.
— Canso. Mas não é o sofrimento que procuro. É o tempo que ainda posso tornar bom.
Amora chegou a casa numa tarde chuvosa.
Durante dias ficou perto da porta, como se acreditasse que voltaria ao abrigo.
Helena não a forçou a aproximar-se.
Dava-lhe os medicamentos, ajudava-a a levantar-se e falava com ela de forma tranquila.
Depois de duas semanas, Amora começou a esperar na cozinha.
Ao fim de um mês, dormia ao lado da cama.
Na primavera, saía para o quintal e ficava ao sol junto do outro cão velho.
Não brincavam.
Apenas descansavam juntos.
Amora viveu mais dezasseis meses.
No último dia recusou comida e pousou a cabeça no colo de Helena.
O veterinário foi a casa.
Helena segurou-lhe a pata.
— Já não precisas de esperar por ninguém, — disse. — Eu estou aqui.
Algumas semanas depois regressou ao abrigo com os medicamentos que sobraram.
Marta recebeu-a em silêncio.
— Vai fazer uma pausa?
Helena respirou fundo.
— Quem é o cão mais velho agora?
Muitas pessoas procuram um animal para receber amor durante muitos anos.
Helena procurava os que só precisavam de saber, durante os meses que restavam, que ainda eram dignos de amor.
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