A minha amiga Joana ficou surpreendida.

— Tem de chegar para um mês, — respondi, colocando vários pacotes grandes de massa no carrinho.

A minha amiga Joana ficou surpreendida.

— Marta, para que queres tanta massa?

— O Ricardo disse que uma pessoa consegue alimentar-se apenas com massa. Quero que experimente.

Depois do nascimento do nosso filho Tiago, tudo mudou. Deixei o trabalho e, como não tinha contrato regular, praticamente não recebia apoio.

As despesas aumentavam e o dinheiro diminuía.

Ricardo dizia:

— Havemos de conseguir.

Na prática, esperava que eu encontrasse todas as soluções.

— O Tiago precisa de roupa mais leve para a primavera.

— Compra com o apoio da criança.

— Usei-o para pagar a renda.

— Tens de aprender a gerir melhor o dinheiro. O carro também precisa de peças.

Arranjei trabalho em casa, mas Tiago dormia mal. Nem sempre conseguia limpar e cozinhar.

Um dia Ricardo chegou e ficou irritado.

— Não preparaste jantar?

— Trabalhei e o Tiago esteve inquieto.

— Estás em casa. Tens de organizar melhor o tempo.

Perdi a paciência.

— Tenho de organizar dinheiro, tempo, trabalho, casa e filho. E tu, depois de chegares, organizas apenas o sofá.

Contei tudo à Joana. O marido dela ficava com a filha depois do trabalho.

— A criança é dos dois. Se o teu marido não quer ajudar, que pague uma ama.

— Nem dinheiro para um carrinho novo temos.

— Então que procure um emprego melhor.

Ricardo trabalhava como gerente numa loja de desporto. Estava satisfeito e não queria procurar outra coisa.

Quando Tiago começou a adoecer, tive de abandonar o trabalho. A minha mãe ajudava com os medicamentos.

Uma noite disse:

— Preciso de um casaco de inverno. O meu está velho.

Ricardo respondeu sem levantar os olhos:

— Compra. Mas depois decide como vais pagar a comida. Talvez aprendas a poupar.

Comprei o casaco.

Depois comprei massa suficiente para um mês.

No primeiro dia fiz esparguete. No segundo, massa no forno. No terceiro, massa com manteiga.

Ricardo abriu o frigorífico.

— Outra vez massa?

— Disseste que se pode viver assim.

— Não era para levar à letra.

— O dinheiro também não é imaginário.

— Não sabes gerir a casa.

— Não sei multiplicar notas. Comemos aquilo que o teu salário permite. O Tiago é responsabilidade dos dois.

No sexto dia Ricardo apareceu com compras: carne, legumes, fraldas e roupa para o filho.

— Gastaste muito? — perguntei.

— Mais do que imaginava.

— Isto é o custo real da nossa vida.

Ele não mudou completamente. Mas começou a ajudar nos banhos e a ficar com Tiago ao fim de semana.

Um pacote de massa ficou guardado no armário.

Sempre que Ricardo começava a criticar as despesas, eu perguntava:

— Queres voltar à dieta?

A conversa terminava rapidamente.

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