A cadela conseguiu agarrar-se com as patas da frente à borda do velho pontão de madeira e ficou a olhar para as pessoas que se afastavam em direção ao carro.

A cadela conseguiu agarrar-se com as patas da frente à borda do velho pontão de madeira e ficou a olhar para as pessoas que se afastavam em direção ao carro.

Não compreendia.

Tinha acabado de salvar o filho deles. O menino escorregara nas tábuas húmidas e estava prestes a cair na água fria da lagoa. A cadela correu, agarrou-lhe o casaco e puxou-o para trás.

Mas a mãe viu apenas uma cadela vadia, molhada e suja, junto do filho.

«Larga-o! Sai daqui!» gritou.

Assustada, pegou no menino ao colo e empurrou a cadela. Ela caiu na água. Quando voltou à superfície, conseguiu agarrar-se ao pontão e ficou a ver a família ir embora.

Ninguém olhou para trás.

Nos olhos dela não havia raiva. Os cães não sabem odiar como os humanos. Sentem medo, fome, saudade, dor. Mas continuam a procurar uma voz bondosa, mesmo depois de serem afastados.

Ela vivia perto daquela lagoa havia quase um ano. Um dia, tinham-na levado ali de carro. Correra pela relva, abanara a cauda, brincara junto à água. Depois o carro partiu.

Sem ela.

Correu atrás enquanto pôde. Depois voltou e esperou. Primeiro no parque de estacionamento, depois junto ao caminho, depois perto do pontão. Cada motor fazia-a levantar a cabeça. Mas ninguém regressou.

Aprendeu a sobreviver com o que as pessoas deixavam: pão seco, restos de batatas fritas, pedaços de carne, lixo espalhado.

Depois daquela família, ficaram alguns pedaços de carne queimada.

A cadela saiu da água com dificuldade. Tremia de frio e de fome. Havia dois dias que quase não comia. O cheiro da carne levou-a até à manta abandonada.

Então apareceu um homem.

Era magro, com uma roupa gasta e um saco preto na mão. A cadela já o vira antes. Todos os dias ele passava junto à lagoa, recolhia garrafas, pratos de plástico, papéis e sacos. Às vezes encontrava algo para comer.

Chamava-se Joaquim. Em tempos trabalhara numa oficina. Tivera casa, mulher, uma vida discreta. Depois vieram a doença, dívidas, perdas, e um dia percebeu que já ninguém o esperava em lado nenhum.

Joaquim viu a cadela.

A cadela viu Joaquim.

Entre os dois estava a comida.

Ambos tinham fome.

O homem parou.

«Parece que viemos ao mesmo jantar,» disse em voz baixa.

A cadela não se mexeu.

Joaquim agachou-se devagar, apanhou os pedaços de carne, limpou-os como pôde e dividiu-os por dois pratos de plástico.

«Metade para ti, metade para mim. Justo.»

Empurrou um prato na direção dela.

A cadela hesitou. Pouco antes, uma mão humana atirara-a para a água. Mas aquela mão não ameaçava. Partilhava.

Aproximou-se.

Comeu depressa, com medo de que a comida desaparecesse. Joaquim olhou para ela e passou-lhe mais um pedaço.

«Também te deixaram para trás, não foi?»

A partir desse dia, a cadela começou a segui-lo. Primeiro à distância. Depois ao lado dele. Joaquim chamou-lhe Amora.

Amora acompanhava-o enquanto ele limpava a margem. À noite, deitava-se perto do abrigo onde ele dormia. Ele dividia com ela pão, sopa, qualquer coisa que conseguisse. Ela dava-lhe companhia.

E para quem já não tinha ninguém, companhia era quase um milagre.

Uma manhã, uma voluntária de uma associação animal viu-os juntos.

«É sua?» perguntou.

Joaquim olhou para Amora.

«Não sei. Acho que nos escolhemos.»

A voluntária levou Amora ao veterinário, trouxe ração, uma manta e uma coleira. Quando soube que Joaquim limpava a lagoa todos os dias, falou com a junta.

Algumas semanas depois, Joaquim recebeu um pequeno trabalho como cuidador da zona e um quarto junto ao armazém.

Na primeira noite, sentou-se na cama e viu Amora deitada junto à porta.

«Temos teto, rapariga,» murmurou. «Um teto nosso.»

Um mês depois, a família voltou. O menino saiu do carro com um pacote de biscoitos para cães. A mãe vinha atrás, envergonhada.

«Naquele dia percebi tudo mal,» disse. «Pensei que ela estava a magoar o meu filho.»

O menino falou baixinho:

«Ela salvou-me.»

A mulher olhou para Amora.

«Desculpa.»

Amora ficou atrás de Joaquim. Uma palavra não cura tudo de imediato.

O menino pousou um biscoito no chão e afastou-se.

«Não vou tocar nela. Só quero agradecer.»

Depois de algum tempo, Amora aproximou-se, pegou no biscoito e voltou para junto de Joaquim.

Mais tarde, uns diziam que Joaquim tinha salvado a cadela.

Outros diziam que Amora tinha salvado Joaquim.

Na verdade, salvaram-se aos poucos. Primeiro dividindo comida. Depois dividindo os dias. E, finalmente, dividindo um lar.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

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