A viagem era para ser leve. Cinco amigas da Universidade de São Paulo tinham alugado uma casa em Campos do Jordão para o feriadão de Corpus Christi. Iam subir a serra cantando, trocando fofoca, planejando as trilhas. Bia dirigia, Camila cuidava da música no celular, e as outras três — Priscila, Juliana e Renata — brigavam por causa de uma foto na janela.
Saíram cedo para aproveitar o dia. Na altura de Guararema, a estrada corta um vale estreito, com curvas fechadas e pontes baixas sobre riachos. Chovia fino desde a madrugada, e o asfalto brilhava como vidro.
Foi a Bia quem viu primeiro.
— Que isso…
Um carro prata atravessou a pista contrária, subiu no barranco e despencou num riacho uns três metros abaixo. Ela freou no meio da curva, as meninas gritaram, e por um segundo ninguém se mexeu.
Depois, todo mundo saiu do carro ao mesmo tempo.
O riacho não era fundo — dava pelo peito —, mas a água corria rápido entre as pedras. O carro estava virado de lado, afundando devagar, e dava para ouvir criança chorando lá dentro.
Priscila ligou para o 192, mas a ligação caía. Sem sinal na serra. Juliana correu de volta para acenar para outros carros, pedir ajuda, enquanto Bia e Renata escorregavam barranco abaixo e entravam na água.
Dentro do carro, uma mulher gritava com o braço preso entre o banco e a porta amassada. No banco de trás, um menino de uns nove anos tinha conseguido soltar o cinto. Ao lado dele, uma criança pequena — quatro ou cinco anos, não dava para saber — estava de cabeça caída, presa na cadeirinha, com a água subindo pelo vidro quebrado.
Camila puxou o menino mais velho pela janela. A mulher continuava presa, e a água já batia no peito dela.
— Meu filho! O pequeno! Pelo amor de Deus, tirem o pequeno!
Bia tentou abrir a porta de trás. Não cedeu. A água subiu mais rápido — a correnteza empurrava o carro para o lado fundo do riacho. Renata mergulhou, voltou sem ar.
— O cinto não solta!
O carro rangeu e escorregou mais meio metro. A água cobriu o rosto da criança.
Foi a Camila que lembrou da faca.
Tinha uma no porta-luvas, daquelas de acampamento, que o pai insistia para ela levar em viagem. Voltou correndo, os pés cortando nas pedras, estourou o porta-luvas e mergulhou de novo.
Dentro d'água não se enxerga nada. Camila contou depois que foi só pelo tato: achou a tira do cinto, prendeu a lâmina e cortou como se estivesse rasgando pano molhado.
A criança veio à tona nos braços dela. Não tossia. Não chorava. Os lábios estavam roxos, os olhos fechados, o corpo mole como uma boneca de pano que ficou no sereno.
A mãe, que já tinha sido solta pela Bia, desabou na margem. O menino mais velho ficou parado, abraçado a si mesmo, tremendo.
Priscila, a menorzinha do grupo, a que as outras tiravam sarro porque morria de medo de qualquer coisa, ajoelhou na terra batida e deitou a criança de costas.
Ela tinha feito estágio voluntário no Samu durante o ensino médio. Três meses só. Tinha aprendido a massagem cardíaca num manequim de plástico numa sala cheirando a álcool.
Agora, com a chuva caindo e as mãos roxas de frio, ela posicionou os dedos no meio do peito da criança.
— Um, dois, três…
Pressionou com força. Os braços tremiam, mas a técnica estava ali, gravada no corpo.
— …vinte e oito, vinte e nove, trinta.
Inclinou a cabeça do menino para trás, fechou o nariz dele e soprou. O peito subiu.
De novo.
— Vai, vai, vai — Camila falava baixinho, sem perceber que estava falando.
Priscila voltou a comprimir. A água escorria do cabelo dela para o rosto da criança.
E então o menino teve um espasmo.
Vomitou água, tossiu, e abriu um olho só — o esquerdo. O direito continuava fechado, inchado. Começou a chorar fraquinho, um choro de quem voltou de muito longe.
A mãe engatinhou até ele, pegou o filho no colo e apertou com uma força que parecia que ia quebrar. E aí chorou de um jeito que fez todas elas chorarem também.
Ficaram os cinco — as cinco amigas, a mulher, as duas crianças — amontoados na margem, cobertos de lama, tremendo, enquanto a chuva continuava fininha. Ninguém sabia o que dizer.
Uma caminhonete parou na estrada. Um casal desceu correndo com um cobertor xadrez. O homem falou que ia até o posto da Polícia Rodoviária ali na frente, porque não tinha sinal de celular em lugar nenhum.
A ambulância demorou vinte e cinco minutos para chegar.
O menino pequeno estava no colo da mãe, enrolado no cobertor. O menino maior não queria falar com ninguém, só segurava a mão da Renata. Ele tinha um arranhão fundo na testa e repetia que a cadeirinha tinha trancado.
— Eu tentei soltar — ele dizia. — Eu tentei, juro que tentei.
Renata passou o braço em volta dele e deixou que ele falasse o quanto quisesse.
Quando a ambulância veio, os paramédicos examinaram todo mundo. O motorista do carro prata — o pai das crianças, que não estava no acidente, chegou vinte minutos depois, com a cara desfeita e a camisa para fora da calça. Ele tinha saído de Mogi das Cruzes e ficou sabendo pelo rádio da empresa.
Na cidade, a notícia correu rápido. No hospital de Guararema, a equipe disse que o menino pequeno ficaria em observação por causa da água no pulmão, mas que estava fora de perigo. A mãe tinha o braço fraturado em dois lugares. O outro filho, só cortes e o susto.
As cinco amigas foram para o hotel e ficaram em silêncio por um bom tempo. Ninguém quis jantar. Ficaram sentadas no quarto, vendo a chuva pela janela.
Só foram dormir de madrugada.
Na semana seguinte, a Polícia Rodoviária do estado fez uma homenagem. O prefeito de Guararema entregou uma placa a cada uma. A imprensa local chamou de "as cinco heroínas da serra". Saiu matéria no jornal da região, com foto e tudo.
Mas não foi a placa que ficou.
Foi o jeito como a mulher — dona Roseli, professora aposentada de uma escola municipal em Suzano — apareceu com os dois filhos na casa da Priscila duas semanas depois, sem avisar, com um bolo de fubá e uma carta escrita à mão.
— Eu não sabia como agradecer — ela disse, em pé na porta, com o braço engessado e o menino pequeno escondido atrás da saia.
Ela contou que o filho tinha completado cinco anos na semana anterior. Que a festa foi no quintal de casa, com bolo e brigadeiro, e que ele soprou a vela três vezes porque queria que a mãe filmasse de novo.
O menino, que ela chamava de Davi, olhou para Priscila e perguntou:
— Você tem piscina?
Priscila riu.
— Não.
— Então como você aprendeu a salvar gente?
Ela não soube responder na hora.
Ficou olhando para ele, para o cabelo molhado de chuva, para o arranhão curado na perna, e pensou que talvez a gente nunca saiba onde vai buscar forças. Só sabe que, na hora em que alguém precisa, tem que parar o carro.
Davi puxou a mãe pela saia.
— Mãe, posso abraçar ela?
E a mãe, que já chorava de novo, mas agora de um jeito manso, disse:
— Pode, filho. Pode abraçar à vontade.
