— Vais continuar a fazer barulho com essa loiça? Ontem foi a festa do Oleg. Deixa o homem dormir!

— Vais continuar a fazer barulho com essa loiça? Ontem foi a festa do Oleg. Deixa o homem dormir!

A voz da sogra cortou o silêncio da manhã.

Marina estava junto ao lava-loiça, rodeada de pratos, copos, travessas e restos de bolo. No dia anterior tinham celebrado os quarenta e cinco anos de Oleg. Primeiro, um jantar enorme num restaurante georgiano para cinquenta pessoas. Depois, os parentes mais resistentes foram para o apartamento deles continuar a festa até de madrugada.

Marina pagou tudo.

O restaurante, o vinho, os táxis, o portátil novo que ofereceu ao marido, as flores e até os extras pedidos de última hora. Oleg trabalhava como diretor criativo numa pequena agência de publicidade que há meses mal se aguentava. O salário dele dava para gasolina, cafés caros e a ilusão de sucesso.

— Estou a tentar fazer pouco barulho, Lídia, — respondeu Marina. — Amanhã trabalho cedo. Não vou deixar esta cozinha assim até segunda-feira.

A sogra sentou-se ao balcão.

— Com o que tu ganhas, podias chamar uma empresa de limpeza. Mas gostas de parecer sacrificada. Olha para ti. Terrenos, medições, obras, botas. Um homem precisa de inspiração, não de uma mulher que só pensa em documentos.

Marina não respondeu.

Tinha quarenta e dois anos e uma pequena empresa de trabalhos cadastrais e topografia. O seu trabalho era pesado: lama, tripés, papéis, discussões sobre limites de terrenos, repartições. Mas era esse trabalho que sustentava a casa. O apartamento era dela, comprado antes do casamento. Ela pagava contas, férias, reparações e muitas vezes as despesas da agência de Oleg.

Naquela manhã encontrou o envelope.

Estava atrás da caixa do portátil. Um envelope creme, elegante. Na frente, a letra de Oleg:

“Para a minha verdadeira musa.”

Marina pensou por um segundo que fosse para ela. Abriu.

Lá dentro havia duas passagens para Madrid, uma reserva de hotel para o fim de semana seguinte e o recibo de uma pulseira de ouro. No cartão estava escrito:

“Alina, ontem sorri por obrigação. Ela dá-me estabilidade. Tu dás-me vida. Depois desta festa, começamos nós.”

Marina sentou-se.

Não gritou. Não chorou. Apenas ficou a olhar para a frase “ela dá-me estabilidade”. De repente entendeu o lugar que ocupava na vida dele: o chão firme onde ele pisava enquanto sonhava com outra.

Do quarto veio a voz de Oleg:

— Mãe, faz-me café! E diz à Marina para parar com o barulho!

Lídia olhou para ela.

— Ouviste? Ele precisa de descanso.

Marina secou as mãos, pegou no envelope, nas faturas da festa e nos documentos do apartamento. Entrou no quarto.

Oleg estava deitado, com o telemóvel na mão e o portátil novo na mesa de cabeceira.

— Até que enfim. Trazes café?

Marina pousou o envelope sobre a cama.

— Primeiro isto.

O rosto dele mudou.

— Onde encontraste?

— Na cozinha. Atrás da caixa do presente que eu te comprei.

Lídia entrou atrás.

— Que drama é este?

Marina pousou as faturas.

— Isto é o restaurante. Isto é o portátil. Isto são os táxis da tua família. Isto são transferências minhas para pagar a renda da tua agência. E isto são bilhetes para ti e para Alina.

Oleg levantou-se.

— Não é o que parece.

— É exatamente o que parece.

A sogra suspirou.

— Marina, homens criativos precisam de emoção. Tu és muito prática.

— Sim. E hoje vou ser prática até ao fim.

Oleg olhou-a com desconfiança.

— O que queres dizer?

— Que vais sair de casa hoje.

— Estás louca? Esta casa também é minha.

— Não. Este apartamento foi comprado por mim antes do casamento. Pago por mim. Mantido por mim. Tu moraste aqui porque eu acreditava em nós.

Lídia ficou indignada.

— Depois do aniversário dele? Que crueldade!

— Crueldade foi eu pagar a festa de um homem que escrevia a outra mulher que eu era apenas estabilidade.

Oleg mudou de voz.

— Marina, espera. Foi uma confusão. Eu estava carente, a agência mal vai…

— A agência mal vai há muito tempo. E eu também, só que ninguém perguntou.

Ele não soube responder.

À tarde fez a mala. A mãe ajudou-o, repetindo que Marina era fria, dura, pouco feminina. À porta, Oleg ainda disse:

— Vais ficar sozinha.

Marina respondeu:

— Já estava sozinha. A diferença é que agora não pago a companhia falsa.

Quando a porta se fechou, Marina voltou à cozinha. Lavou tudo. Depois cancelou os cartões ligados às despesas de Oleg, escreveu à contabilista e marcou uma reunião com uma advogada.

Não deitou fora o envelope. Guardou-o numa gaveta.

Um mês depois, Oleg telefonou. Alina desaparecera quando os hotéis deixaram de estar pagos. A mãe cansara-se depressa dele no sofá. A agência perdera clientes.

— Marina, tu eras a minha base.

— Pois era. Mas uma base também pode deixar de segurar uma casa torta.

Desligou.

No ano seguinte, Marina celebrou o próprio aniversário com poucas pessoas. Amigos de verdade, comida simples, vinho comum, conversas sem pose. Ninguém pediu brindes ao génio de Oleg. Ninguém a fez sentir pouco feminina por saber trabalhar.

E ela percebeu que aquela busta encontrada por acaso não lhe tinha roubado nada.

Tinha-lhe devolvido a si própria.

Às vezes, o papel que não era para os nossos olhos é precisamente o que nos faz finalmente ver.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: