Segurava uma chávena de chá frio. Branca, com uma faixa verde. Estava naquele parapeito havia vinte anos.

— Estamos a rejuvenescer a equipa, — disse o diretor, Henrique, com um sorriso. — Amanhã, até ao almoço, deve desocupar o gabinete. A Rita dos recursos humanos trata do acordo.

Segurava uma chávena de chá frio. Branca, com uma faixa verde. Estava naquele parapeito havia vinte anos.

— Amanhã?

— Precisamos de rapidez. Pessoas jovens, pensamento digital e energia nova.

Chamo-me Isabel. Trabalhava há trinta e um anos num instituto regional de apoio ao emprego. Comecei como técnica, depois criei programas de reconversão, formei dezenas de colegas e escrevi regras que outras regiões passaram a usar.

Henrique chegara oito meses antes. Falava de modernização, mas contratara rapidamente vários conhecidos para funções de consultoria.

Não sabia do telefonema do ministério.

Três dias antes, Margarida, diretora nacional de políticas de emprego, ligara-me.

— O seu modelo foi escolhido para a nova reforma. Queremos que coordene o grupo técnico. A comunicação oficial seguirá esta semana.

Na manhã seguinte, Rita apresentou-me um acordo com duas remunerações.

— O diretor considera uma proposta justa.

— Um acordo é voluntário. Não vou assinar.

Às onze horas coloquei a convocatória ministerial diante de Henrique.

— Isto não altera as decisões internas, — respondeu.

— Não altera. Mas as decisões internas têm de respeitar a lei. Se extinguir o cargo, cumpra o procedimento. Se existe falha profissional, documente-a. Não sairei voluntariamente por duas remunerações.

Henrique deixou de sorrir.

— Vamos auditar o seu departamento.

— Ótimo.

A auditoria durou uma semana. Os meus processos estavam regulares.

As irregularidades apareceram em contratos recentes aprovados pela direção. Uma empresa pertencia a um antigo sócio de Henrique. Outra recebera um serviço sem comparação transparente de propostas.

Na reunião final, o auditor disse:

— O problema não está nos procedimentos antigos. Está nas exceções recentes.

Henrique falou em urgência.

— A urgência não elimina a obrigação de justificar.

Entretanto, a nomeação oficial chegou ao conselho do instituto. Tentarem afastar uma especialista precisamente antes de ela integrar uma reforma nacional levantou suspeitas.

Henrique foi suspenso.

Rita procurou-me.

— Preparei documentos a pedido dele. Tenho receio.

— Tens as ordens por escrito?

— Tenho.

— Guarda tudo e diz a verdade.

Os e-mails mostraram que Rita pedira confirmação legal várias vezes. Não foi responsabilizada.

Trabalhei em Lisboa durante oito meses. Quando voltei, convidaram-me para dirigir o instituto.

Aceitei apenas através de concurso público.

O meu primeiro projeto juntou gerações. Os trabalhadores novos receberam mentores experientes, e os mais antigos tiveram formação digital.

Henrique confundia rejuvenescimento com substituição.

Eu queria que significasse renovação sem desperdício.

Rita tornou-se responsável pelos recursos humanos. Criou regras para impedir pressão em acordos de saída.

A chávena branca continua na minha secretária.

Não está ali por nostalgia.

Está ali porque uma coisa pode ser antiga, simples e continuar a cumprir perfeitamente a sua função.

O mesmo acontece com as pessoas.

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