— Então sou eu o canalha? Esta casa é minha, percebeste?
Ricardo voltou acompanhado pela polícia, certo de que os agentes obrigariam a mulher a deixá-lo entrar. Pouco depois, foram eles que o levaram.
Teresa estava na cozinha quando a porta bateu. Ricardo atravessou o corredor com os sapatos molhados.
— Há comida?
— O jantar está quase pronto.
— Contigo está sempre tudo quase pronto.
Ligou a televisão e abriu uma cerveja. Teresa conhecia a sequência. Primeiro o barulho. Depois uma crítica pequena. No fim, gritos por causa de qualquer coisa.
O apartamento era dela. Comprara-o antes do casamento, depois de anos a trabalhar numa empresa de seguros e de vender uma pequena casa herdada da avó.
Ricardo mudara-se com poucas malas. Inicialmente dizia «a tua casa». Depois de perder o emprego, passou a dizer «a nossa casa» e, por fim, «a minha casa».
— Fui eu que montei a cozinha. Troquei a torneira. Sem mim não conseguias tratar de nada.
Teresa pagava o empréstimo, as contas e quase todas as despesas.
Naquela noite, Ricardo procurava o cartão bancário.
Abriu gavetas, atirou papéis para o chão e acusou-a de o esconder.
— Estava contigo ontem.
— Não me respondas assim.
Agarrou-lhe o braço.
— Larga-me.
— Ou quê?
— Chamo a polícia.
Ricardo riu-se.
— Eu próprio chamo. Eles vão perceber quem está a expulsar o dono.
Telefonou e declarou que a mulher escondia documentos, lhe negava acesso a divisões e queria expulsá-lo de uma casa comum.
Teresa retirou de uma pasta a escritura.
— O apartamento é meu. Comprei-o antes do casamento.
Ricardo arrancou-lhe os documentos.
— Preparaste isto tudo. És mesmo calculista.
Os agentes chegaram enquanto ele ainda gritava. Teresa mostrou a escritura, os pagamentos e mensagens em que Ricardo afirmava que ela acabaria sem nada.
Um dos agentes explicou:
— A propriedade está em nome da senhora. As questões de residência e separação terão de ser resolvidas legalmente.
— Vivo aqui há oito anos!
— Isso não o torna proprietário.
Ricardo começou a insultá-la. O agente pediu-lhe a identificação.
Durante a verificação surgiu um alerta. Ricardo era procurado por não comparecer num processo relacionado com fraude na compra e venda de automóveis.
Tinha vendido um veículo com documentos falsos e ignorado várias notificações.
Teresa já tinha encontrado cartas escondidas dentro de uma caixa de ferramentas. Quando perguntara, Ricardo respondera que eram assuntos antigos.
— É um engano, — disse ele. — Teresa, diz-lhes que já tratei disso.
— Nunca trataste.
— Sabias?
— Vi as cartas.
— E não fizeste nada?
— Tu disseste que não era assunto meu.
Os agentes informaram que teria de os acompanhar. Ricardo tentou ir ao quarto, mas foi impedido.
— Foste tu que fizeste isto!
Teresa respondeu:
— Foste tu que chamaste a polícia.
Depois de ele sair, sentou-se na cozinha. O jantar ficou frio. Pela primeira vez, o silêncio não anunciava outra discussão.
No dia seguinte procurou uma advogada. Iniciou o divórcio e reuniu mensagens, fotografias de objetos partidos e testemunhos dos vizinhos.
Ricardo enviava recados através da irmã. Num dia pedia desculpa. No outro acusava Teresa de o abandonar no pior momento.
— Ele precisa de ajuda, — dizia a irmã.
— Precisa de enfrentar as consequências. Não precisa de voltar para minha casa.
O processo criminal resultou numa condenação e numa obrigação de indemnizar a vítima. No divórcio, Ricardo exigiu parte do apartamento pelos trabalhos que fizera.
Conseguiu provar apenas a compra de tinta e de uma torneira.
Meses depois voltou para buscar os pertences na presença de outra pessoa.
— Depois de tudo, tratas-me como um estranho.
— Tornaste-te estranho quando decidiste que viver aqui te dava o direito de me assustar.
— Mudaste muito.
— Deixei de confundir paciência com obrigação.
Teresa substituiu o pequeno móvel da sala que Ricardo danificara numa discussão. Também retirou da cozinha uma colher de madeira rachada por uma pancada na mesa.
Durante meses guardara-a como prova de que ele tinha atingido um objeto e não a sua mão.
Depois percebeu que não precisava de esperar por uma tragédia maior para considerar a situação grave.
Uma casa não pertence apenas a quem tem o nome numa escritura.
Pertence verdadeiramente a quem pode fechar a porta e respirar sem medo do som da chave do outro lado.
