«Pede ajuda à Rosa, filho…» gemeu o velho António da cama. «É uma mulher bondosa. Não recusará cuidar de um vizinho doente.»

«Pede ajuda à Rosa, filho…» gemeu o velho António da cama. «É uma mulher bondosa. Não recusará cuidar de um vizinho doente.»
O filho, Manuel, ficou pálido junto à porta.
«A Rosa? A viúva em frente?»
«Quem mais?» respondi com firmeza. «O seu pai precisa de vigilância, comida quente e medicação certa. O Manuel passa o dia na serração.»
Ele vestiu o casaco e saiu.
Assim que a porta se fechou, António levantou-se da cama.
«Achas que ela vem?»
«Deite-se imediatamente. Se ela o encontrar de pé, eu própria lhe arranjo uma doença verdadeira.»
Rosa chegou com caldo, lençóis limpos e ervas. Tinha quarenta e oito anos, vivia sozinha numa aldeia do interior e tratava da casa, da horta e dos animais.
«Onde dói, senhor António?»
Ele tocou no peito.
«O motor está gasto.»
Rosa limpou a cozinha, mudou a cama e obrigou os dois homens a comer.
«Não tenho fome,» disse Manuel.
«Trabalha desde manhã. Coma.»
Ele olhou para ela com atenção.
Nos dias seguintes, Rosa apareceu todas as manhãs e noites. António representava o papel de doente com entusiasmo. Eu media-lhe a tensão e fazia um ar preocupado.
Manuel começou a chegar mais cedo. Reparou o portão de Rosa, cortou-lhe lenha e acompanhou-a a casa.
«Está a resultar,» dizia António.
«Até ela descobrir a mentira.»
Descobriu numa manhã em que chegou sem avisar.
Encontrou António no quintal a rachar troncos enormes.
«É assim que cumpre repouso absoluto?»
O machado caiu-lhe das mãos.
Quando Manuel soube, ficou furioso.
«Enganaram-me.»
«Só queria que voltasses a viver.»
Manuel olhou para Rosa.
«Sabias?»
«Não.»
Ela pousou a chave sobre a mesa.
«Se soubesse, nunca teria entrado nesta casa.»
Foi-se embora.
Manuel passou dias sem falar com o pai.
Encontrei-o no celeiro.
«Não está apenas zangado com a mentira.»
«Deixe-me.»
«Tem saudades dela.»
Acabou por contar como a mulher da cidade lhe roubara as poupanças e o deixara cheio de dívidas.
«Era mais fácil desconfiar de todas do que admitir que confiei na pessoa errada.»
«Rosa não lhe pediu nada. Até os almoços deixados na varanda eram dela.»
Ele levantou a cabeça.
Nessa noite foi procurá-la.
«Vim pedir desculpa.»
«Pelo seu pai?»
«Por mim. Julguei-a antes de a conhecer.»
Contou-lhe tudo.
Rosa ouviu.
«A confiança não volta com uma conversa.»
«Então farei por merecê-la.»
Durante meses ajudou-a na quinta, reparou o telhado e deixou de se esconder atrás da amargura.
António pediu desculpa com uma carroça de lenha.
«Nunca mais inventa doenças,» avisou Rosa.
«Nem por uma boa causa?»
«Da próxima vez, o tratamento será cavar toda a horta.»
Casaram-se no outono.
Durante o almoço, António levantou o copo.
«Ao meu coração doente, que trouxe uma boa mulher para esta família!»
Rosa abanou a cabeça.
«O coração está ótimo. A consciência é que precisa de acompanhamento.»
Todos riram.
Manuel tinha acreditado que a solidão o protegia. Na verdade, mantinha-o preso à traição de alguém que já não fazia parte da sua vida.
Rosa não lhe pediu para esquecer.
Mostrou apenas que nem toda a pessoa que se aproxima vem tirar-lhe algo.
Algumas chegam com uma refeição quente, deixam-na à porta e esperam que ele finalmente tenha coragem de abrir.
😲 A continuação já está nos comentários! Escrevam sem falta se o final foi inesperado para vocês.

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