A Velha Que Ninguém Ousou Tocar

Dona Zélia, setenta e dois anos, estava encolhida no canto do pátio da penitenciária feminina de Belo Horizonte. O sol das dez da manhã castigava o concreto, e o cheiro de água sanitária misturada com sabão em pó barato subia do tanque de plástico azul. Ela esfregava os uniformes cinzentos com as mãos inchadas, uma pilha de roupa suja ao lado, outra pilha limpa do outro. Ninguém olhava para ela. Ninguém olhava para ninguém ali dentro.

Fazia quatro meses que Dona Zélia tinha sido presa. O motivo ninguém perguntava, e ela não contava. Diziam que era estelionato, diziam que era falsificação de documento, diziam que ela tinha passado a perna num pastor evangélico que prometia milagres. Ninguém tinha certeza de nada. O que se sabia era que a velha acordava todo dia às cinco da manhã, dobrava o colchonete, varria o chão da cela e depois ia para o pátio lavar roupa. Lavava para as carcereiras, para a enfermaria, para quem pedisse com educação. Lavava sem pressa e sem reclamar.

As outras detentas, na sua maioria, respeitavam o silêncio de Dona Zélia. Mulheres jovens, cansadas, endurecidas. Umas a chamavam de "mãezinha", outras de "vovó", e uma ou outra levava um pedaço de pão do café da manhã para ela. Mas havia uma exceção.

Bruna Fontes, trinta e quatro anos, era o nome que fazia tremer até as agentes penitenciárias. Tinha entrado por latrocínio, mas sempre corria a boca de que tinha mandado degolar duas mulheres dentro de um presídio em Contagem. Era alta, forte, com uma tatuagem de cobra no antebraço direito. Bruna dominava o pavilhão. Tomava comida, tomava produtos de higiene, tomava até visitas íntimas de quem ela queria. E quando alguém dizia não, aparecia no dia seguinte com o rosto marcado.

Naquela terça-feira, Bruna se aproximou do tanque onde Dona Zélia esfregava um lençol encardido. Parou na frente da velha, com as mãos na cintura, e despejou no chão uma trouxa de roupas fedorentas, daquelas que ficam guardadas em cela de castigo durante dias.

— Lava isso aí pra mim. Quero tudo cheiroso até o fim da tarde.

Dona Zélia ergueu a cabeça devagar, as gotas de água escorrendo pelo queixo. Olhou para a trouxa e continuou esfregando o lençol.

— Hoje não dá, minha filha. Ainda tenho a roupa da enfermaria para terminar. Se você me esperar até amanhã…

O pátio inteiro prendeu a respiração. Até as mulheres que jogavam dominó perto da grade pararam.

Bruna inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse ouvindo um idioma estrangeiro.

— Esperar até amanhã? A senhora tá achando que isso aqui é lavanderia de madame?

Dona Zélia torceu o lençol com as duas mãos, sem pressa.

— Aqui todo mundo tem o seu serviço. O meu hoje já está lotado.

Foi aí que Bruna avançou. Ninguém teve tempo de gritar. Ela segurou a velha pela nuca, com a palma da mão aberta, e empurrou a cabeça de Dona Zélia para dentro do tanque. O rosto afundou na água cinzenta de sabão, com o cheiro forte de desinfetante. As pernas de Dona Zélia fraquejaram, os braços se debateram. Bolhas subiram à tona.

Ninguém se mexeu. Nem as carcereiras, que olhavam do corredor superior com as mãos no cinto. Nem as detentas, que abaixaram os olhos como se o pátio tivesse virado uma igreja.

Bruna ria, uma risada curta, quase sem som. Segurava a cabeça da velha com força, esperando que ela engolisse água, esperando que ela tossisse, esperando que implorasse. Era isso que Bruna queria. O pedido. A humilhação. O reconhecimento de que ali dentro ela mandava.

Mas Dona Zélia não pedia nada. Parou de se debater.

Bruna puxou a cabeça da velha para fora d’água, achando que ela tinha desmaiado. Dona Zélia veio com o rosto pingando, os cabelos brancos grudados nas bochechas, os olhos vermelhos do sabão.

Ela não chorava.

Pelo contrário.

Com as mãos trêmulas, tateou a borda do tanque até encontrar a barra de sabão em pedra que usava para esfregar os uniformes. Fechou os dedos nela. Levantou-se com uma lentidão que parecia impossível para uma mulher de setenta e dois anos que tinha acabado de quase morrer afogada num balde de roupa suja.

E então, olhando nos olhos de Bruna, Dona Zélia despejou no chão a água infecta que tinha ficado presa no tecido do lençol.

— Você não me derruba — disse.

Não gritou. Falou no mesmo tom de quem pede para não pisarem no chão molhado.

Bruna recuou um passo. O pátio inteiro viu. A mão de Bruna, que tinha acabado de quase matar a velha, tremia.

— O quê você disse?

— Disse que você não me derruba. E não vai lavar a sua roupa na minha água.

Bruna abriu a boca para responder, mas alguma coisa a impediu. Talvez a forma como Dona Zélia ficou parada, com aquela barra de sabão na mão, sem recuar um centímetro. Talvez a expressão das outras presas, que começaram a se levantar dos bancos de cimento. Dona Zélia deu as costas e voltou para o tanque. Recolheu do chão a trouxa de roupa de Bruna e, sem uma palavra, atirou-a de volta no corredor, perto da porta do pavilhão.

— Da próxima vez, pede com educação — disse.

Bruna ficou imóvel por um segundo, depois outro. As agentes desceram a rampa correndo, imaginando que ela ia avançar de novo. Mas Bruna não fez nada. Apenas encarou as costas curvadas da velha, que já estava outra vez com as mãos dentro d’água, esfregando as roupas da enfermaria.

À noite, Dona Zélia estava sentada na cela 7, a mesma de sempre, quando uma carcereira apareceu na grade.

— Zélia, tem alguém querendo falar com a senhora.

Era o diretor da penitenciária, um homem de terno cinza que nunca descia ao pátio. Ele entrou na cela com uma pasta debaixo do braço. Trazia na mão um papel.

— Dona Zélia, eu soube do que aconteceu hoje. A senhora quer registrar queixa contra a detenta Bruna Fontes?

Dona Zélia continuou dobrando uma toalha.

— Registro.

A mulher anotou qualquer coisa num formulário.

— A senhora sabe que isso pode complicar a situação dela. Ela já tem dois processos disciplinares abertos.

— Melhor.

No dia seguinte, Bruna apareceu no pátio às nove horas. Não com a trouxa de roupa, mas com um papel amassado na mão. Caminhou até o tanque e ficou parada por quase um minuto. Dona Zélia não a olhou.

— A senhora abriu queixa contra mim — disse Bruna, com a voz diferente, um fio de incredulidade.

— Abri.

— Por quê? Eu ia te soltar. Era só um susto.

— Pois agora aguenta o susto você.

Bruna abriu a boca de novo, mas a voz falhou. Pela primeira vez, desde que tinha posto os pés na penitenciária, não teve resposta.

Uma semana depois, a notícia correu: Bruna Fontes foi transferida. Não para outro pavilhão, não para castigo. Para um presídio de segurança máxima, em São Paulo, onde ficaria pelo menos três anos sem possibilidade de progressão de regime.

Ninguém soube ao certo o que aconteceu. As agentes diziam que Dona Zélia se recusou a retirar a queixa, mesmo quando a família de Bruna ofereceu pagar a transferência de distrito. Outros contavam que o diretor achou por bem afastar Bruna antes que ela agredisse outra detenta.

Dona Zélia nunca comentou. Continuou acordando às cinco, varrendo a cela, lavando roupa.

Três semanas depois, a velha foi chamada na sala da direção. A filha, que morava em Sabará, tinha conseguido um advogado. Havia um recurso pendente. O juiz aceitou analisar o caso.

— A senhora tem chance de sair em liberdade condicional — disse o advogado. — Mas vai depender do comportamento. E do depoimento do diretor.

Dona Zélia manteve as mãos cruzadas sobre o colo. No pátio, as mulheres comentavam que ela era a única presa que tinha conseguido expulsar Bruna Fontes sem levantar um dedo.

No dia da audiência, ela entrou na sala com o uniforme limpo, passado à mão. O juiz perguntou se ela tinha algo a dizer. Dona Zélia respondeu que sim.

— Eu não tenho medo de água suja, meritíssimo. Eu tenho medo de gente que acha que pode usar os outros pra enxaguar a própria raiva.

Ela não explicou mais nada. O juiz aprovou a condicional.

Quando saiu pelo portão, três dias depois, o sol já tinha passado do meio-dia. A filha esperava do lado de fora com um carro velho, um Fiat Palio azul, e uma sacola com pão de queijo.

Dona Zélia entrou, fechou a porta e ficou um instante em silêncio, olhando a rodoviária ao longe.

— Vamos pra casa — disse.

A filha ligou o carro. Antes de arrancar, Dona Zélia baixou o vidro e jogou uma barra de sabão, aquela mesma do pátio, na lixeira da calçada.

— Nunca mais quero ver uma coisa dessas na minha vida — falou.

O carro dobrou a esquina e desapareceu na subida.

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