O pai estava junto à janela com o jornal aberto. A mãe continuava diante do fogão, como se nem a decisão mais importante da vida da filha pudesse alterar a rotina.

— Não contes comigo nem com o teu pai! — disse a mãe de Inês com tanta dureza que ela ficou imóvel no meio da cozinha.

O pai estava junto à janela com o jornal aberto. A mãe continuava diante do fogão, como se nem a decisão mais importante da vida da filha pudesse alterar a rotina.

— Mãe, só quero tentar. Uma grande editora de Lisboa ofereceu-me um lugar como revisora e editora. É o trabalho com que sempre sonhei.

— Sonhaste! Tens vinte e seis anos, uma casa, família e noivo. O casamento é daqui a quatro meses.

Inês segurou a chávena de chá frio.

Desde criança vivia rodeada de livros. Mesmo assim, os pais nunca tinham levado as suas escolhas a sério. Estudar literatura fora imprudente. Recusar um emprego no escritório de uma amiga da mãe fora ingratidão.

— Não estou a desistir da família. Posso começar a trabalhar em Lisboa. O Miguel pode mudar-se mais tarde, se quiser.

A mãe virou-se.

— Se quiser! E se não quiser abandonar a vida dele por tua causa?

— Eu tenho abandonado a minha vida há anos para não incomodar ninguém.

O pai baixou o jornal.

— A tua mãe só está preocupada. Lisboa é cara. Vais estar sozinha.

— Também me sinto sozinha aqui. Só que por fora tudo parece perfeito.

A mãe levantou as mãos.

— Ajudámos a escolher o apartamento, organizámos o casamento. Fizemos tudo por ti. E agora queres fugir.

Inês não estava a fugir.

Estava finalmente a escolher um destino.

Nessa noite encontrou-se com Miguel num café.

Ele ouviu tudo.

— O que decidiste?

— Tenho medo de perder os meus pais, o casamento e talvez a nossa relação.

— E se ficares?

Inês olhou-o nos olhos.

— Perco-me a mim.

Miguel sorriu.

— Então tens de ir.

— Não estás zangado?

— Ficaria zangado se desistisses do teu sonho para manter os outros confortáveis.

Uma semana depois, Inês estava na estação com uma mala. Os pais não apareceram.

Miguel segurou-lhe a mão.

— Daqui a um mês vou visitar-te. E se Lisboa te roubar, procuro lá trabalho.

Os primeiros meses foram difíceis. Inês dividia um apartamento pequeno, trabalhava muitas horas e tinha pouco dinheiro.

Mas sentia-se viva.

Miguel visitava-a sempre que podia. Mais tarde conseguiu um emprego perto de Lisboa e mudou-se.

Adiaram o casamento, mas ficaram mais unidos.

A mãe não telefonou durante semanas. Um dia, finalmente ligou.

— Estás a alimentar-te bem?

Inês riu-se.

— Estou.

— O teu pai comprou um livro em que aparece o teu nome.

— Ele viu?

— Mostrou-o aos vizinhos.

Era uma forma desajeitada de dizer que estavam orgulhosos.

No ano seguinte, Inês e Miguel casaram-se numa pequena quinta. Os pais compareceram.

Antes da cerimónia, a mãe disse:

— Pensei que ias perder tudo.

Inês respondeu:

— Ficar teria sido a única maneira de me perder.

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