No fim de novembro, Teresa reparou numa mancha húmida no teto do corredor

— Talvez devesses viver separada por uns tempos, — disse António. Esperava que Teresa cedesse.
Mas ela pegou numa mala e saiu.

Tudo começou com o telhado.

No fim de novembro, Teresa reparou numa mancha húmida no teto do corredor. Depois, com a chuva, a água começou a escorrer pela parede.

Procurou uma empresa, telefonou e chamou um técnico.

O homem subiu ao telhado, examinou as telhas, desceu e sentou-se à mesa da cozinha para fazer o orçamento.

— O contrato fica em nome de quem? Preciso do proprietário ou de uma procuração.

— Eu vivo aqui, — disse Teresa. — Esta casa é minha e do meu marido.

— Mas o seu nome consta no registo?

Não constava.

O técnico foi embora. Teresa lavou a chávena de café dele, limpou a mesa e arrumou o açucareiro. As suas mãos sabiam tudo naquela casa.

Mas os papéis não sabiam nada sobre ela.

À noite disse a António:

— Temos de pôr a casa em nome dos dois. Nem o telhado consigo reparar sem a tua assinatura.

António estava a aquecer o jantar.

— Para que precisas disso? Vou desaparecer?

— Vendi o apartamento da minha mãe e pus o dinheiro nesta casa. Pagámos o empréstimo juntos.

António calou-se.

Era a forma dele castigar. Não gritava. Não batia portas. Apenas deixava de falar com ela até que Teresa pedisse paz.

No quarto dia, sem tirar os olhos da televisão, disse:

— Talvez devesses viver separada por uns tempos, se aqui tudo te incomoda.

Ele esperava que ela pedisse desculpa.

Mas Teresa disse:

— Está bem.

Arrumou uma mala e alugou um pequeno apartamento.

António não ligou durante quatro dias. No quinto, escreveu:

“Onde está a chave da garagem?”

Teresa respondeu:

“No gancho da entrada.”

E percebeu que ele não tinha sentido a sua falta. Sentira falta da ordem que ela mantinha.

Duas semanas depois, o filho, Miguel, telefonou.

— Mãe, fui a casa do pai. Ele fez uma sapateira com luz. Ficou bonita. Tu pedias isso há anos, não era?

Teresa sentou-se devagar.

Sim. Pedia desde que se tinham mudado. António dizia sempre: “Depois.”

Agora havia “depois”.

Nessa noite, pediu a certidão do registo predial.

Poucos dias depois, passou pela casa. O carro de António estava lá. Ao lado, um carro cinzento desconhecido.

Teresa ficou atrás do muro do vizinho.

Da casa saiu uma mulher de casaco bege. António acompanhou-a até ao portão. Falavam com naturalidade.

Teresa não entrou.

Voltou no dia seguinte, quando ele não estava.

A sapateira nova estava no corredor. Na cozinha, havia uma chaleira elétrica cara, com visor. A antiga, com tampa partida, ela queria trocar há anos. António dizia que enquanto funcionasse não se gastava dinheiro.

As janelas estavam limpas.

Mas não fora ela quem as limpara.

No roupeiro, as suas roupas tinham sido empurradas para o fundo. À frente, espaço vazio.

A campainha tocou.

Teresa abriu.

Era a mulher do dia anterior.

— Bom dia. Vim buscar uma pasta que deixei aqui. É para o António.

— Ele não está.

A mulher apresentou-se como Helena, colega de trabalho. Entrou e pegou numa pasta fina em cima da mesa.

— São os documentos da doação da casa ao vosso filho. O António pediu-me ajuda, porque conheço uma notária.

Teresa ficou gelada.

Doação.

Ao filho.

Sem ela.

Ligou a Miguel.

— O teu pai vai passar a casa para teu nome. Sabias?

Miguel demorou a responder.

— Ele disse que vocês tinham decidido juntos.

À noite chegou a certidão.

A casa estava toda em nome de António.

O nome de Teresa não aparecia.

Mas o dinheiro do apartamento da mãe dela fora para o terreno e para a construção. O empréstimo fora pago pelos dois durante anos.

Teresa marcou consulta com uma advogada.

Depois voltou à casa.

António abriu.

Ela pôs os documentos sobre a mesa.

— Ias doar a casa ao Miguel sem me dizer.

— É o nosso filho.

— Não uses “nosso” quando me apagas de tudo.

— Estás a exagerar.

— Não. Estou a fazer contas.

Quando percebeu que ela tinha comprovativos, transferências e apoio jurídico, António perdeu a calma.

— O que queres?

— A minha parte. E o divórcio.

Miguel recusou a doação.

— Mãe, não quero uma casa construída também com o teu dinheiro se tu ficas de fora.

Teresa chorou depois dessa chamada.

O processo demorou, mas ela recebeu uma compensação justa. Comprou um apartamento pequeno, luminoso, com varanda.

Quando precisou de reparar uma infiltração, chamou um técnico.

— Contrato em nome de quem?

Teresa pegou na caneta.

— No meu.

E assinou.

Pela primeira vez, uma casa reconhecia-a.

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