Naquela sexta-feira, Ana finalmente tinha tirado um dia de folga. Depois de duas semanas de trabalho sem descanso, relatórios atrasados, reuniões até tarde e até um sábado passado no escritório, o chefe nem teve coragem de recusar.

— A senhora é a mãe do Tiago? Nós vamos casar em breve!
— Não. Sou a mulher dele.

Naquela sexta-feira, Ana finalmente tinha tirado um dia de folga. Depois de duas semanas de trabalho sem descanso, relatórios atrasados, reuniões até tarde e até um sábado passado no escritório, o chefe nem teve coragem de recusar.

Acordou às nove, sem despertador, e ficou alguns minutos deitada, saboreando o silêncio.

Três dias inteiros sem correr para o autocarro, sem filas, sem ar condicionado do escritório, sem o som constante do telefone.

O marido, Tiago, estava no trabalho. Ana tomou o pequeno-almoço com calma, foi ao mercado e decidiu preparar uma grande panela de sopa espessa de legumes e cevadinha, como Tiago gostava.

Assim ficaria livre da cozinha durante o fim de semana.

Tinha acabado de desligar o fogão quando tocaram à campainha.

Ana estranhou. Tiago devia estar no trabalho. E tinha chaves.

À porta estava uma rapariga jovem, de casaco azul, gorro branco de lã e mala de viagem na mão. Tinha sardas no nariz e nas faces, e um sorriso tímido.

— Boa tarde. O Tiago está? Devia ter ido buscar-me à estação de autocarros, mas não apareceu.

— O Tiago está no trabalho, respondeu Ana.

— No trabalho? — a rapariga ficou confusa. — Mas ele disse-me para vir hoje. Venho de Coimbra. Combinámos que eu ficaria em casa dele até ao casamento.

Ana sentiu um aperto no peito.

— Que casamento?

— O nosso, claro.

A rapariga chamava-se Beatriz. Trabalhava no setor administrativo de uma fábrica em Coimbra, cidade para onde Tiago viajava frequentemente em serviço. A empresa dele testava lá novos equipamentos. Duas semanas antes, Tiago tinha ficado lá quatro dias.

Foi por isso que Ana não fechou a porta.

— Entra, disse ela.

Quando Beatriz tirou o casaco, Ana reparou no pequeno ventre por baixo da camisola azul-clara.

Estava grávida.

— A senhora deve ser a mãe do Tiago, não é? — perguntou Beatriz. — Ele falou-me de si. Pode tratar-me por tu, sou muito mais nova.

— Não sou mãe dele, disse Ana. Sou a mulher dele.

Beatriz ficou pálida.

Da cozinha vinha o cheiro da sopa quente. A rapariga engoliu em seco, tentando disfarçar a fome.

Ana queria gritar. Mas à sua frente estava uma jovem grávida, cansada e perdida.

— Vai lavar as mãos. Vais comer.

Serviu-lhe um prato fundo de sopa, cortou pão e colocou tudo à frente dela.

Beatriz comeu com tanto alívio que Ana sentiu a raiva perder força.

— Está deliciosa, disse a rapariga. Posso pedir a receita? Gostava de a fazer para o Tiago.

Ana olhou-a com firmeza.

— Primeiro vamos descobrir qual Tiago.

Com chá na mesa, Beatriz contou que conhecera Tiago na fábrica. Ele ia lá em trabalho, depois começou a visitá-la aos fins de semana. Quando soube da gravidez, pediu-a em casamento.

— Disse que antes não podia levar-me porque vivia num quarto alugado. Agora comprou apartamento, fez obras e disse-me para vir. Mas não apareceu na estação…

Nesse momento, a chave girou na fechadura.

Tiago entrou, lavou as mãos e apareceu na cozinha.

— Oh, temos visita? Boa tarde.

Ana esperava ver medo ou culpa.

Mas ele parecia apenas surpreendido.

— É só isso? perguntou ela. Não tens mais nada para dizer, Tiago?

Beatriz levantou-se de repente.

— Este não é ele.

Ana virou-se para a rapariga.

— Como assim?

— O meu Tiago é novo. E não se chama Pereira.

Tiago Pereira, marido de Ana, ouviu a história toda. Depois pediu a morada.

Beatriz tirou da mala um papel amarrotado.

Tiago olhou com atenção.

— A rua está certa, o número também, o apartamento também… Mas esta letra A?

— Pensei que fosse a entrada A.

— Não. Aqui significa bloco. Nós vivemos no bloco B. O bloco A é mesmo ao lado.

Beatriz começou a chorar.

— Então bati à porta errada…

— Vamos verificar, disse Ana, pegando no casaco.

No bloco ao lado, subiram ao terceiro andar e tocaram à campainha do mesmo número.

A porta abriu-se quase de imediato.

— Beatriz! — gritou um jovem alto. — Onde estiveste? Fui à estação, apanhei trânsito, quando cheguei já não estavas! O telefone estava desligado! Liguei à tua mãe, já ia à polícia!

Beatriz atirou-se para os braços dele.

— Pensei que me tinhas abandonado…

— Nunca. Ouviste? Nunca.

O jovem Tiago pediu desculpa várias vezes. Tinha escrito a morada à pressa, Beatriz confundiu o bloco com a entrada e o telefone ficou sem bateria no autocarro.

— A senhora deu-lhe comida? — perguntou ele, envergonhado.

— Uma grávida não fica com fome num corredor, respondeu Ana.

Um mês depois, Ana e o marido receberam convite para o casamento.

Foram.

Beatriz apresentou Ana a todos como “a senhora que me salvou com sopa quando eu quase entrei na casa errada”.

Todos riram.

Ana também.

Quando o bebé nasceu, chegou uma fotografia. No verso estava escrito:

“Para a tia Ana, que me abriu a porta quando eu estava perdida.”

Ana pôs a fotografia no frigorífico.

Desde então, sempre que fazia aquela sopa espessa, lembrava-se da rapariga de casaco azul.

Às vezes, aquilo que parece uma desgraça é apenas uma morada mal entendida.

E às vezes uma tigela de sopa quente ajuda alguém a encontrar a casa certa.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: