— Mariana, tenho uma ótima notícia! — anunciou a mãe. — O Tiago talvez tenha encontrado trabalho. O escritório fica perto e o salário é excelente. Hoje foi à entrevista. De certeza que fica!
Mariana revirou os olhos.
Quantas vezes já tinham garantido que o irmão seria contratado? Depois surgia sempre uma desculpa: a função era pouco prestigiante, o horário inconveniente ou o salário abaixo das suas expectativas.
Tiago tinha vinte e três anos e vivia à custa da mãe.
Mariana era onze anos mais velha. Quando o pai morreu num acidente, ela já estudava na universidade e Tiago ainda era criança.
Todos disseram à mãe, Teresa:
— Tens de ser forte pelo teu filho.
Mariana era adulta e, portanto, ninguém achou que também precisava de apoio.
Teresa concentrou toda a atenção no filho. Comprava-lhe roupas caras, telemóveis, computadores e viagens, mesmo tendo de pedir empréstimos.
Quando Mariana se casou, a mãe disse que não tinha dinheiro para ajudar. Pouco depois, comprou a Tiago um computador novo e uma cadeira caríssima.
Depois da escola, ele não estudou nem trabalhou. Precisava de tempo para “encontrar o seu caminho”.
Cinco anos depois, ainda procurava.
Quando Teresa perdeu o emprego e se reformou, aceitou trabalhos ocasionais. Mariana ajudava-a, mas descobriu que Tiago comia tudo o que ela levava e gastava o dinheiro da mãe.
— Vem viver connosco durante algum tempo, — sugeriu. — Ele terá de aprender a cuidar de si.
Teresa recusou.
— Não posso deixar o meu filho sozinho.
Acabaram por discutir.
Um dia, Teresa encontrou uma rapariga na cozinha.
— Mãe, esta é a Beatriz. Vai morar aqui. É cantora, mas ainda não conseguiu uma oportunidade.
Beatriz também não trabalhava. Pouco depois revelou que estava grávida.
Tiago e Beatriz casaram. Teresa arranjou outro emprego num pequeno escritório. O proprietário, António, era um viúvo de cinquenta e oito anos.
Ele admirava a inteligência, a elegância e a dedicação de Teresa. Aos poucos, aproximaram-se.
Teresa voltou a sorrir. Aceitou trabalhar a tempo inteiro e, mais tarde, mudou-se para casa de António.
Um dia regressou para buscar as suas coisas.
— Eu e António casámos. Vamos viver na cidade dele. Podem ficar no apartamento, mas terão de pagar tudo. Eu já não vos vou sustentar.
Tiago ficou chocado.
Mariana abraçou a mãe.
— Finalmente estás a viver para ti.
Meses depois, Tiago telefonou.
— Mãe, volta. A Beatriz não cozinha, o bebé está sempre doente e o meu trabalho de estafeta não chega para as despesas.
Teresa estava numa varanda com António, junto às roseiras.
— Não vou voltar. Esta é a tua família e a tua responsabilidade. Protegi-te durante demasiado tempo. Agora precisas de crescer.
Tiago desligou.
À sua frente estava uma fatura vencida. O bebé chorava no quarto.
Só então compreendeu que o amor da mãe não significava que ela tinha de sacrificar toda a sua vida por ele.
