Ligara à mãe porque a tia Lúcia tinha acabado de aparecer a exigir que o apartamento da avó fosse vendido.

— Não te preocupes, filha! A Lúcia não recebe nada. Todo o dinheiro fica na nossa família.

Mariana parou de falar.

— Que dinheiro, mãe?

— O dinheiro do apartamento. Vendemos, compramos alguma coisa para ti e para a Inês. O teu pai e eu precisamos de trocar de carro, o velho já está a cair aos bocados. E o resto guardamos para uma casa de férias.

Mariana ficou imóvel com o telefone na mão.

Ligara à mãe porque a tia Lúcia tinha acabado de aparecer a exigir que o apartamento da avó fosse vendido.

Esperava apoio.

Recebeu outra versão da mesma ganância.

A avó Celeste era uma mulher difícil.

— Que sopa é esta? — resmungava, afastando o prato. — Isto nem para os porcos servia.

Mariana tirava-lhe o prato.

— Então como eu. A avó pode cozinhar melhor.

— Vais deixar-me sem jantar?

— A avó disse que não prestava.

Celeste apertava os lábios.

— Põe o prato aqui.

Mariana pousava-o de volta.

— Pronto. Era só dizer.

As duas discutiam todos os dias. Por causa do sal, da janela aberta, da televisão alta. Mas havia amor ali. Um amor áspero, sem abraços longos, feito de chá quente, consultas médicas e cobertores puxados durante a noite.

Mariana viveu com a avó durante anos, num apartamento antigo no centro de Braga. Cuidou dela quando a saúde começou a falhar. Medicamentos, médicos, comida, banho, documentos.

A tia Lúcia não aparecia há quase dez anos. Os pais iam poucas vezes. A irmã Inês só telefonava em datas especiais.

Na primavera, a avó Celeste morreu a dormir.

Depois do funeral, o notário leu o testamento. O apartamento ficava para Mariana.

“Para a neta que ficou comigo até ao fim.”

Mariana não se sentiu rica.

Sentiu-se órfã de uma rotina.

Continuava a pôr duas chávenas na mesa. Um dia perguntou:

— Avó, quer chá com açúcar?

O silêncio respondeu-lhe com uma violência inesperada.

Pouco depois, apareceu a tia Lúcia.

— Marianinha, estás bem? Sozinha aqui?

Sentou-se na cozinha e começou a olhar para tudo como quem avalia móveis.

— Quando vais vender?

— O quê?

— O apartamento.

— Não vou vender.

Lúcia sorriu.

— Não penses que uma coisa destas fica só para ti.

— Há testamento.

— A tua avó já estava velha.

— Mas sabia perfeitamente quem cuidava dela.

Lúcia levantou-se indignada.

— És egoísta.

Depois de ela sair, Mariana ligou à mãe, Teresa.

— Mãe, a tia Lúcia quer dividir o apartamento.

— Que descaramento! Ela não recebe nada. Tudo fica na nossa família.

Foi então que Teresa explicou o plano.

Venda. Casa para Mariana e Inês. Carro novo para os pais. Poupança para férias.

— Mãe, o apartamento é meu.

— Não vais deixar a tua irmã sem ajuda.

— A Inês não esteve aqui quando a avó precisava de alguém para a levantar da cama.

— Não exageres.

— Vocês só se lembraram dela agora que há paredes para vender.

Teresa ficou fria.

— Cuidado com o que dizes.

Mariana desligou.

Naquela noite sonhou com a avó. Celeste estava na cadeira da cozinha, de robe, com o olhar firme.

— Não deixes que fiquem com a minha casa. Eu deixei-ta por uma razão.

Na manhã seguinte, os pais e Inês apareceram.

— Temos de conversar, — disse Teresa, entrando.

— Não. Vocês querem negociar.

Inês falou logo:

— Tu não precisas de três quartos. Eu não tenho onde viver.

Mariana olhou para ela.

— Queres também os anos em que eu não dormia, os hospitais, as quedas, o medo? Ou só queres a parte bonita?

Inês não respondeu.

O pai tentou suavizar:

— A família deve ajudar-se.

— A família devia ter ajudado a avó quando ela estava viva.

Teresa levou a mão ao peito.

— Vais escolher um apartamento em vez de nós?

— Vou escolher respeitar a vontade dela.

Mariana abriu a porta.

— Não vendo. Se quiserem contestar, falem com um advogado.

Quando ficou sozinha, pegou no bordado inacabado da avó. Eram flores vermelhas, ainda pela metade.

Mariana não sabia bordar, mas tentou. Picou os dedos, errou pontos, desfez linhas.

Terminou de madrugada.

Pôs o bordado numa moldura simples.

O apartamento continuava calado.

Mas agora Mariana já não sentia apenas ausência.

Sentia guarda.

Como se a avó ainda estivesse ali, resmungando baixinho:

— Finalmente fizeste uma coisa direita.

Mariana sorriu entre lágrimas.

— Fiz, avó. E esta casa fica comigo.

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