— Não contes connosco! Nem comigo nem com o teu pai! — declarou Teresa.
Inês ficou parada no meio da cozinha, apertando uma chávena de chá frio. António estava junto à janela com o jornal aberto, embora não lesse.
— Mãe, não estou a pedir dinheiro. Estou a dizer que aceitei o trabalho.
— Em Lisboa! — respondeu Teresa. — Tens vinte e seis anos, casamento marcado, noivo e apartamento. O que mais queres?
Inês queria uma vida que não estivesse completamente decidida pelos outros.
Uma editora de Lisboa oferecera-lhe um lugar na equipa editorial. Desde pequena sonhava trabalhar com livros. Mesmo assim, depois da universidade, aceitara um emprego administrativo na cidade onde crescera porque os pais diziam ser mais seguro.
— O Miguel pode mudar-se mais tarde, se quiser, — disse.
A mãe virou-se rapidamente.
— Se quiser? Então ele deve abandonar tudo por causa do teu capricho?
— Não é um capricho.
— Tu só pensas em ti.
Inês conhecia aquela acusação. Era egoísta quando escolhera letras. Egoísta quando recusara trabalhar com uma amiga da mãe. Egoísta quando quisera viver sozinha.
— Pela primeira vez estou a pensar no que realmente quero.
António baixou o jornal.
— A tua mãe tem medo. Lisboa é cara e não conheces ninguém.
— Aqui também me sinto sozinha, pai. Só que todos ficam tranquilos porque a minha vida parece correta.
Teresa indignou-se.
— Ajudámos a escolher o apartamento, estamos a organizar o casamento e agora queres fugir!
— Não estou a fugir. Estou finalmente a avançar.
Nessa noite, Inês encontrou-se com Miguel.
— O que queres fazer? — perguntou ele.
— Quero ir. Mas tenho medo de perder-te, perder o casamento e perder os meus pais.
— E se ficares?
Inês olhou para a rua molhada.
— Perco-me a mim.
Miguel assentiu.
— Então tens de ir.
— Não estás zangado?
— Ficaria zangado se desistisses e passasses o resto da vida a culpar-nos.
Uma semana depois, Inês estava na estação. Os pais não apareceram. Miguel segurou-lhe a mão.
— Vou visitar-te dentro de um mês. Depois decidimos como continuar.
Os primeiros tempos foram difíceis. Inês alugou um quarto pequeno, gastava demasiado em transportes e trabalhava até tarde. Mas via os textos em que trabalhava transformarem-se em livros.
Miguel visitou-a conforme prometera. Começou a procurar oportunidades em Lisboa, mas ambos concordaram que não tomariam decisões apenas por medo.
Dois meses depois, António telefonou.
— A tua mãe viu o teu nome numa publicação da editora.
— Disse alguma coisa?
— Disse que qualquer pessoa podia aparecer ali. Depois mostrou a revista às vizinhas.
Inês sorriu.
— Porque é tão difícil para ela aceitar?
— Porque ela também quis sair daqui quando era jovem. Queria estudar música. Os pais não permitiram.
Inês compreendeu que a oposição da mãe não vinha apenas de falta de amor.
Vinha de uma antiga renúncia, transformada em regra familiar.
Mas os sonhos abandonados de uma geração não devem tornar-se as proibições da seguinte.
