— Inês? Tu… só voltavas no domingo, — disse Ricardo, branco como a parede.
Inês deixou a mala molhada à entrada. A formação no Porto tinha terminado mais cedo, e ela apanhara o comboio para casa sem avisar. Queria surpreender o marido, talvez abrir uma garrafa de vinho, talvez falar dos planos para a empresa de enoturismo que tinham criado sete anos antes.
Na cozinha ouviu risos.
Ricardo.
E Catarina.
Catarina era amiga dela desde a universidade. Fora madrinha de casamento, ajudara a escolher o nome da empresa, sabia até onde estavam guardados os documentos mais importantes.
Sobre a mesa havia velas, dois copos e uma garrafa do Douro que Inês guardava para celebrar a primeira época com lucro.
Catarina levantou-se depressa.
— Inês! Estragaste a surpresa! Estávamos a preparar-te uma festa.
Ricardo apagou uma vela com a mão trémula.
— Sim, era só para decidir detalhes. Música, comida, essas coisas.
Inês olhou para a mesa.
— Claro. Estou cansada. Falamos amanhã.
Mas não dormiu.
De madrugada ouviu Ricardo falar baixo.
— Assim que trinta e seis por cento das reservas e dos contratos passarem para a empresa da Catarina, peço o divórcio. A Inês fica com o nome, mas sem músculo financeiro.
Catarina perguntou:
— E se ela desconfiar de mim?
— De ti? Nunca. Ela acha que tu és família.
Inês encostou-se à parede fria. Naquele instante, entendeu que a dor podia esperar. A inteligência, não.
Na manhã seguinte, fingiu.
— Obrigada por ontem. Fiquei mesmo apanhada de surpresa.
Ricardo sorriu, aliviado. Catarina mandou uma mensagem cheia de corações.
Inês respondeu com um emoji.
Depois ligou à advogada Matilde Faria, especialista em divórcios com empresas familiares. No escritório copiou contratos, emails, mensagens, folhas de cálculo e um ficheiro escondido chamado “transferencia_segura”.
Segura para quem?
Durante quatro dias continuou a peça. Falou da festa, escolheu o menu, perguntou a Catarina se preferia flores brancas ou ramos de oliveira.
No dia do jantar com parceiros, Ricardo fez um brinde.
— À Inês. Sem ela, esta empresa nunca teria nascido.
Inês levantou-se.
— Então é justo que todos saibam quem tentou tirá-la de mim.
Ligou o ecrã.
Apareceu o contrato. Depois as mensagens. Depois a frase de Ricardo: “Quando ela perceber, já assinou tarde.”
O silêncio caiu pesado.
Catarina murmurou:
— Estás a expor-me.
Inês olhou para ela.
— Não. Estou a devolver-te à luz onde fingias ser minha amiga.
A advogada aproximou-se.
— O tribunal já aceitou o pedido de congelamento cautelar dos ativos. Nenhum contrato será transferido sem investigação.
Ricardo baixou a voz.
— Inês, não faças isto aqui.
— Foi aqui que brindaste à minha confiança enquanto a vendias.
Meses depois, a empresa continuava aberta. Menor, mais cautelosa, mas livre. Inês já não guardava a garrafa do Douro para uma ocasião especial.
Abriu-a sozinha, numa noite calma, para brindar ao dia em que voltou cedo demais para eles.
E exatamente a tempo para si.
🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.
