Trabalho na portaria de um prédio antigo no centro de Curitiba há quase vinte anos. Já vi de tudo nesse hall: casamento desfeito em plena recepção, gente desmaiando de fome, velho morrendo sozinho sem ninguém pra abrir a porta. Mas tem uma moradora que eu observo desde o primeiro dia em que bati o ponto aqui — e até hoje não sei direito o que sinto quando vejo a rotina dela.
Dona Clarice, apartamento 304.
Eu chamo de dona porque foi assim que aprendi. Ela mora com a mãe, uma senhora miudinha que já passou dos oitenta e pouco, anda curvada, segura no corrimão como quem pede licença pro próprio corpo. E a Clarice — essa deve ter os seus cinquenta e tantos. Cinquenta e seis, cinquenta e sete, por aí. Nunca perguntei.
Elas descem juntas quase toda manhã. A mãe vai na frente, devagar, contando os degraus. A Clarice vem atrás, com uma sacola de pano no braço, daquelas de feira. Descem pra comprar verdura no Mercado Municipal, porque ali perto tem banca que vende mais barato que supermercado. Eu sei disso porque uma vez, logo no começo do meu turno, a Clarice parou na portaria e me perguntou se eu conhecia alguma costureira que fizesse barra de calça por preço bom. Fiquei sem graça, mas indiquei a dona Zuleide da Rua XV. Depois disso, de vez em quando ela troca três palavras comigo. Três, não mais.
Hoje eu estava na guarita tomando meu café numa caneca térmica que ganhei da minha neta no Dia dos Pais, quando vi a Clarice descer sozinha. A mãe não estava junto. Estranhei na hora, porque aquilo era mais raro que domingo sem jogo do Coritiba.
Ela passou reto. Aí voltou dois passos.
— Seu Antônio, o senhor sabe se a farmácia da esquina já abriu?
A voz dela é baixa, meio rouca, como quem não fala muito durante o dia. Respondi que sim, que abria às sete e já passava das oito. Ela agradeceu com um gesto de cabeça e seguiu. Reparei que estava com o casaco abotoado errado — um botão fora da casa. Isso me deu uma aflição danada. Uma mulher como a Clarice, toda arrumadinha no jeito dela, descer com botão torto? Algo estava fora do lugar.
Fiquei ali, vendo-a atravessar a rua. O farol da Rua das Flores fechou, ela parou, ajeitou o cabelo atrás da orelha. Tinha uma mecha branca escapando do coque. Pensei: essa mulher carrega alguma coisa que ninguém vê.
E é isso que me pega nesse emprego. A gente vê o prédio inteiro passar pela portaria e não sabe nada de ninguém. Vê cara, vê sacola, vê pressa. Mas não vê a vida.
Depois daquele dia, fiquei mais atento ao 304. Passei a notar o que antes me escapava: que a Clarice nunca recebe visita. Nunca. Nem no aniversário dela. E olha que eu tenho o caderno de correspondências aqui do prédio — todo dia chega panfleto de supermercado, conta de luz, carta de banco. Pra ela, só boleto. Nada de cartão colorido, nada de encomenda de presente.
Mês passado eu vi quando dona Edna, a mãe, fez questão de descer sozinha pra pegar uma encomenda que dava pra ver, pelo pacote, que era um bolo. Pequeno, redondo, embalado em papel celofane. Ela subiu devagarinho, segurando o corrimão com uma mão e o bolo na outra, estufando o peito de orgulho. A Clarice desceu no meio do caminho pra ajudar. As duas sumiram no elevador.
Fiquei sabendo, por um vizinho do 301 que adora comentar a vida alheia, que aquele bolo era o aniversário da Clarice. Cinquenta e seis anos. E a única comemoração foi a mãe levando um bolo pra cima, sem vela, sem parabéns cantado, sem ninguém batendo palma.
O seu Alfredo, do 301, contou isso rindo, como quem acha graça da solidão dos outros. Eu não ri.
O que o seu Alfredo não sabe — e que eu também não sabia até aquele dia — é o que aconteceu depois. Porque eu estava saindo do turno quando vi a Clarice na calçada, parada, olhando a vitrine de uma loja de roupas. Não era vitrine de roupa cara, era daquelas lojas de bairro, com manequim desbotado e placa de promoção na porta. Ela olhava um vestido florido. Nada demais, um vestido estampado de uns sessenta e nove reais, pendurado torto num cabide de arame.
Ela ficou ali um tempo que me deixou encabulado. Não entrou. Só olhou. Depois cutucou a gola do próprio casaco, como se avaliasse o tecido, e foi embora.
Eu que ganho meu salário contando trocado pra fechar o mês, entendo perfeitamente uma mulher olhando vitrine sem entrar.
Na semana seguinte, a mãe apareceu na portaria com uma caixinha de papelão e pediu pra eu ajudar a tirar o lacre. Era uma máquina de tricô, daquelas manuais. Comprou no aplicativo de segunda mão, pago no boleto, parcelado em quatro vezes. Quarenta e três reais por parcela. Ela me mostrou o comprovante no celular — um celular antigo, com a tela cheia de marcas de dedo.
— É pra Clarice, seu Antônio. Ela anda muito sozinha. Tricotar acalma, diz que acalma.
Ajudei a carregar até o elevador. A velha fez questão de apertar o botão do três sozinha, com aquele dedo fino e enrugado.
E aí — e aí eu vou contar o que eu vi, porque eu estava na guarita quando aconteceu — no sábado seguinte, a Clarice desceu com uma sacola cheia de novelos de lã. Cada novelo de uma cor. Achei bonito. Ela carregava aquela sacola como quem carrega um recado.
Parei de encarar quando vi que ela olhava na minha direção.
Mas não consegui tirar da cabeça.
A mulher que mora no 304 não é só mais uma moradora. Ela carrega a mãe nas costas, no colo, nas frases curtas e no botão errado do casaco. E ainda encontra forças pra olhar vitrine de vestido florido sem entrar.
O que mais me assombra é isto: ela vai ficar sozinha um dia. Quando a mãe partir — e a mãe já anda devagar, já esquece a chave na porta, já chama a Clarice de um nome que não é o dela — essa mulher vai ficar com o quê? Com a máquina de tricô? Com os boletos? Com os novelos pela metade?
Outro dia ela desceu com um guarda-chuva furado e ficou parada embaixo da marquise, esperando a chuva dar uma trégua. Eu fui lá e perguntei se ela queria um café. Ela recusou na hora, meio ríspida até. Depois, sem jeito, voltou e disse:
— Desculpa, seu Antônio. Não quero incomodar. É que eu não tô acostumada a ter ninguém por perto. E quando alguém oferece, eu já acho que é por pena.
Eu disse que não era pena nenhuma. Era café. Café de portaria, forte e requentado.
Ela deu uma risada. E aquela risada — curta, seca, quase um latido — me deu uma tristeza que não sei explicar.
Faz três semanas que eu não vejo a Clarice descer. A mãe veio duas vezes, sempre com a sacolinha de verdura. Na segunda vez, parou na guarita e ficou me olhando como se quisesse falar alguma coisa. Não falou. Só passou a mão no balcão, como se tirasse pó que não existia, e subiu.
Ontem, a Clarice desceu. E não desceu sozinha.
Vinha atrás dela uma mulher que eu nunca tinha visto no prédio. Alta, de cabelo curto, óculos de lentes finas e uma pasta antiga debaixo do braço. Subiram sem falar comigo. Só o elevador fez barulho, aquele rangido do sexto andar.
Hoje a Clarice passou aqui na portaria e largou em cima do balcão um pedaço de tricô. Um quadrado de lã azul, do tamanho de uma bandeja. Trabalho bonito, ponto apertado, uniforme.
— É pro senhor, seu Antônio. Pra cobrir a caneca.
Eu peguei. Virei de um lado, do outro. O ponto era tão certo que parecia feito à máquina, mas não era — tinha uma falha pequena num dos cantos, onde a linha engrossava.
— A senhora veio pra deixar isso? — perguntei.
Ela sorriu. E nós, porteiros, a gente aprende a ler os moradores pelos olhos. O olhar da Clarice naquele momento estava esquisito. Leve. Quase contente.
— Eu vim me despedir, seu Antônio. Vou sair do prédio.
— Como assim, sair?
— A assistente social que veio aqui ontem — a da pasta — me arrumou uma vaga num programa de moradia compartilhada pra mulheres. Fica lá no Boqueirão. Não é grande, mas tem horta, oficina de costura, umas mulheres que fazem roda de leitura. Tem até grupo de bordado.
Ela falava rápido, como quem recita uma lista decorada.
— E a sua mãe?
— Ela vai comigo. O programa aceita cuidadoras com mãe idosa. A cota saiu depois de dois anos de fila. Dois anos, seu Antônio.
Ela riu de novo. Dessa vez não foi curto. Foi uma risada inteira.
Eu fiquei parado com o quadrado de lã na mão, sem saber o que dizer. Depois perguntei se ela estava feliz.
Ela olhou pra cima, pro corredor do terceiro andar, como se o apartamento 304 fosse responder por ela.
— Sabe o que eu fiz essa semana? Eu vendi a máquina de tricô.
— Vendeu? E…
— Comprei uma nova. Com os pontos certos. E paguei a inscrição do curso de costureira na unidade do SENAC do Boqueirão. Oitocentos e vinte reais. Parcelei em dez.
Fiquei olhando pra ela. A Clarice, que nem vitrine de loja barata entrava.
— Eu vou fazer o quê, seu Antônio? Esperar a vida passar pela guarita do prédio? Ver minha mãe morrer e depois ficar olhando a parede? Eu passei minha vida inteira me encolhendo. Agora quero ver onde é que o mundo acaba.
Ela arrumou a gola do casaco. Dessa vez, todos os botões no lugar.
— A chave do 304 está comigo. Vou entregar pra imobiliária amanhã cedo.
E estendeu a mão. Eu apertei. A mão dela era quente, firme. Mão de quem já carregou muita sacola de feira.
Ela subiu pra buscar as últimas caixas. A mãe desceu com ela, segurando o corrimão com as duas mãos e com a bolsinha pendurada no braço, sorrindo pra mim como se fosse a viagem de férias mais esperada do mundo.
A Clarice fez um aceno curto, sem alarde, e foi levando a velha pela calçada. Desviaram de um buraco na Rua das Flores, passaram em frente à vitrine da loja de vestidos — e a Clarice nem olhou.
Eu subi na portaria e ajeitei o pedaço de tricô na caneca térmica. Encaixou certinho. A linha azul fez um contraste bonito com o metal riscado.
Aí me dei conta de que tinha passado quase vinte anos naquela guarita e nunca tinha visto uma mulher sair daquele prédio levando a própria mãe pela mão.
Foi a primeira vez que me deu vontade de chorar em turno de trabalho.
O seu Alfredo, do 301, desceu logo depois perguntando se eu sabia do "auê" do terceiro andar, que iam embora sem avisar. Eu disse que não sabia de nada. Que não tinha visto nada.
Ele reclamou do elevador, da poeira, do barulho de caixa.
Eu servi meu café e fiquei olhando o tricô.
A vida, seu Alfredo, é isso. Uns sobem arrastando caixa. Outros descem levando a mãe pela mão. E a diferença entre eles é que uns descobrem a tempo.
Esse texto — que eu escrevi de algum jeito, com erro de concordância e tudo — eu deixei guardado no caderno da guarita, caso um dia alguém pergunte o que fazem as pessoas quando decidem começar.
O café esfriou.
Eu bebi assim mesmo.
