Era o fim de novembro, numa noite de chuva. Helena olhava para o telemóvel a vibrar em cima da mesa. A mãe ligava pela sétima vez numa hora.

— Oh, chegou a heroína, — disse Rita, sem tirar os olhos do telemóvel. — Deram-te uma medalha pelo salvamento?

— Olá, Rita. Também fico feliz por te ver, — respondeu Helena calmamente.

Era o fim de novembro, numa noite de chuva. Helena olhava para o telemóvel a vibrar em cima da mesa. A mãe ligava pela sétima vez numa hora.

Depois de anos de silêncio.

Helena tinha trinta e dois anos. Era dona de uma pequena agência de publicidade em Lisboa, tinha alguns clientes fixos e um apartamento que quase terminara de pagar.

Tudo conquistado sozinha.

Finalmente atendeu.

— Sim?

— Helena, filha, por favor, não desligues, — a voz da mãe tremia. — A Rita está em apuros. O Duarte pô-la fora de casa. Com o menino. Três anos, imagina. E eu… eu estou doente. Os médicos dizem que preciso de operação.

Helena fechou os olhos.

— O que queres que eu faça?

— Tu és forte. Sempre foste. A Rita é frágil. Ela não aguenta.

Helena sorriu sem alegria.

Rita era sempre frágil quando chegava a hora de trabalhar, pagar contas ou aceitar consequências. Helena era forte, ou seja, disponível para carregar tudo.

— Vou amanhã.

A casa da mãe cheirava a sopa velha, medicamentos e cobertores fechados. A mãe, Teresa, estava abatida, pálida, com olhos cansados.

Rita estava no sofá, de telemóvel na mão.

— A heroína chegou, — disse. — Vais salvar-nos ou dar lições?

— Primeiro vou ouvir.

— Passaste anos sem aparecer.

Helena pousou a mala.

— Eu ligava. Tu não atendias. A mãe dizia que estava tudo bem. Depois cansei-me de falar sozinha.

Rita levantou-se.

— Porque tu sempre foste a preferida!

Helena riu.

— A ti pagaram curso, carro, casamento. A mim disseram: “Tu desenrascas-te.” E eu sou a preferida?

Teresa murmurou:

— Gosto das duas.

— Mãe, vais fazer a operação?

Teresa baixou os olhos.

— Sim, mas…

— Mas eu devo levar-te para minha casa e resolver a vida da Rita.

Silêncio.

Helena respirou fundo.

— Eu ajudo. Mas com condições.

Rita cruzou os braços.

— Vamos ouvir.

— A mãe muda-se para minha casa durante o tratamento e a recuperação. Tenho um quarto livre e a clínica fica perto. Aqui não tem condições.

— E eu?

— Ficas na casa da mãe com o teu filho enquanto ela estiver comigo. Pagas as despesas. E vais trabalhar.

— Trabalhar onde?

— Na minha agência. Assistente júnior. Pouco salário no início, mas certo. Aprendes horários, clientes, responsabilidade.

Rita explodiu.

— Sou mãe solteira!

— Exatamente. O teu filho precisa de uma mãe adulta.

— Tu sempre tiveste inveja de mim. Porque o Duarte me escolheu.

Helena ficou imóvel.

— O Duarte escreveu-me quando tu ainda estavas com o bebé pequeno. Queria encontrar-se comigo. Tenho a mensagem.

Rita perdeu a cor.

— Estás a mentir.

— Não respondi. Não me interessam homens assim.

Rita começou a chorar de raiva.

— Porque me dizes isso?

— Porque precisas de parar de achar que todos te devem salvar. O teu problema não é o Duarte. Não sou eu. És tu, que nunca quiseste ficar de pé sozinha.

Helena levantou-se.

— Têm uma semana. A operação da mãe eu pago de qualquer forma.

Três dias depois, Teresa ligou.

— Vou para tua casa.

— E a Rita?

— Está furiosa. Mas disse que vai pensar no trabalho.

A operação correu bem. A recuperação foi lenta. Helena cozinhava, acompanhava a mãe às consultas, organizava os medicamentos e obrigava-a a caminhar um pouco todos os dias.

Rita não ligava.

Um mês depois, tocou a campainha.

Rita estava à porta. Sem maquilhagem, cansada, com olheiras.

— Posso entrar?

Sentou-se na cozinha e ficou calada muito tempo.

— Aceito o trabalho.

— O que mudou?

Rita engoliu em seco.

— Fiquei sem dinheiro. O Duarte não ajuda. O meu filho pediu comida e eu percebi que não sabia sequer organizar uma semana sem alguém me salvar.

Helena olhou para ela.

— Isso é duro. Mas é honesto.

— Desculpa. Fui horrível contigo.

— Foste.

— E agora?

— Segunda-feira, nove da manhã. No escritório. A horas. Não como minha irmã, mas como funcionária. Se fizeres a tua parte, ajudo-te a organizar a vida.

Rita assentiu.

Do quarto veio a voz fraca de Teresa:

— Minhas meninas…

Helena fechou os olhos por um segundo.

Não era um milagre.

Mas era uma primeira conversa verdadeira.

E talvez, naquela família, isso já fosse mais do que tinham tido durante anos.

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