Regina tinha sessenta e um anos e uma rotina que não mudava havia duas décadas: acordar às cinco e meia, colar o esparadrapo no joelho direito antes mesmo de tomar café, e abrir a mercearia da esquina da Rua Bento Freitas às seis e quarenta, nem um minuto antes. Vila Formosa, zona leste de São Paulo, aquele bairro onde todo mundo ainda cumprimenta o vizinho pelo nome e o padeiro sabe quem está devendo desde o mês passado.
A mercearia tinha o nome do falecido marido, Seu Osvaldo — "Empório Osvaldo", letras vermelhas desbotadas pelo sol que batia direto na fachada às três da tarde. Ele morreu há onze anos, de infarto, sentado na cadeira de plástico branca que ainda estava ali, atrás do balcão, guardando caixas de fósforo e latas de goiabada Predilecta que ninguém mais comprava direito.
Quem ajudava Regina de verdade, desde os dezoito anos, era o sobrinho Vinícius. Filho da irmã mais nova dela, que tinha ido embora para Cuiabá atrás de um homem e nunca mais voltou nem para o Natal. Vinícius cresceu ali, atrás daquele balcão, fazendo dever de casa em cima das caixas de Coca-Cola vazias.
Regina bancou tudo: o colégio particular no Objetivo, o cursinho, até a moto usada que ele comprou aos vinte anos para trabalhar de motoboy nas horas vagas. Nunca cobrou nada em troca — nunca sequer mencionou dinheiro. Só pedia uma coisa, sempre da mesma forma, enquanto contava as notas da caixa registradora à noite: "Um dia você me ajuda também, viu, moço?"
Vinícius sempre respondia que sim. Ria, dava um beijo na testa dela, saía correndo pra faculdade de Administração que ela também pagava.
Foi em março, quase seis meses atrás, que tudo desandou. Regina escorregou no banheiro de casa — um vidro de xampu caído no chão molhado — e quebrou o quadril. Cirurgia, prótese, três semanas internada no Hospital Santa Marcelina e depois mais dois meses de fisioterapia, três vezes por semana, com a Dona Marlene, a fisioterapeuta que morava duas quadras dali e cobrava cento e vinte reais a sessão.
A mercearia fechou as portas. Sem Regina atrás do balcão, não tinha quem abrisse.
Ela ligou pro sobrinho no mesmo dia em que saiu do hospital, ainda de muletas, sentada na cama emprestada da vizinha porque a dela era alta demais pra ela conseguir subir sozinha.
— Vinícius, filho, eu preciso que você tome conta da loja um tempo. Só até eu me recuperar.
Do outro lado da linha, silêncio de quase dez segundos. Depois a voz dele, meio arrastada, meio impaciente:
— Tia, eu tô com um perrengue daqueles aqui na firma. Fecharam contrato com um cliente grande, o pessoal tá trampando até de madrugada. Não dá pra eu sair agora, não.
— Mas é só de manhã, umas duas horas, pra abrir e…
— Depois eu vejo, tia. Depois eu vejo.
Ele nunca viu. A mercearia ficou fechada trinta e oito dias — Regina contou cada um, riscando um caderninho de capa dura que ficava em cima da mesa de centro, ao lado do controle remoto quebrado que ninguém consertava. Os clientes foram se acostumando a comprar no mercadinho da Padaria Nossa Senhora, duas ruas abaixo. Alguns nunca mais voltaram, mesmo depois que ela reabriu.
Quem apareceu, sem ninguém pedir, foi a Ivone.
Ivone morava no apartamento de cima, sozinha desde que o marido tinha morrido de câncer no pulmão dois anos antes. Trabalhava como auxiliar de cozinha num restaurante por quilo na Radial Leste, turno da tarde, e batia na porta de Regina toda manhã antes de sair, às sete horas em ponto, com uma marmita de sopa ou um pão de queijo ainda quente.
— Toma, dona Regina, come alguma coisa antes de eu ir. — E ficava ali, parada no batente, esperando ela terminar pelo menos duas colheradas antes de descer as escadas correndo pra não perder o ônibus 3708.
Foi Ivone quem organizou a escala com duas outras vizinhas pra alguém sempre passar lá, pelo menos uma vez ao dia. Foi Ivone quem descobriu o telefone da Dona Marlene, a fisioterapeuta, através de um cartaz colado no poste da esquina. E foi Ivone quem, numa quinta-feira de maio, chegou com um molho de chaves na mão e disse:
— Fica tranquila. Eu abro a mercearia de manhã, faço a limpeza, atendo até meio-dia, e depois de doze eu preciso ir trabalhar no restaurante. É só o que dá.
— Ivone, eu não posso te pagar direito, meu bem. Você sabe como as coisas tão.
— Quem falou em pagar? Eu tô oferecendo, dona Regina. É diferente.
Durante dois meses foi assim: Ivone abria a mercearia às sete, vendia pão, leite, os produtos de limpeza que ainda tinham validade, fechava o caixa direitinho num caderno separado, trancava tudo ao meio-dia e saía correndo pra pegar o busão. Nunca faltou nem um centavo. Nunca sumiu uma lata de goiabada sequer.
Regina, ainda de muletas, ficava sentada na cadeira de plástico branca do marido, só olhando, sem poder ajudar em quase nada, vendo aquela vizinha fazer por ela o que o próprio sangue tinha recusado.
Vinícius apareceu duas vezes nesse período inteiro. Uma pra pegar um dinheiro emprestado — trezentos reais, "só até o fim do mês, tia, juro" — que nunca devolveu. E outra, num domingo de tarde, pra assistir ao jogo do Corinthians na televisão de tela grande que Regina tinha comprado justamente pra ele gostar de ficar por lá.
Regina reabriu a mercearia em julho, ainda mancando um pouco, apoiada numa bengala que Osvaldo tinha usado nos últimos anos de vida. E foi só naquele dia, arrumando as prateleiras de novo, que ela achou o bilhete.
Estava dobrado dentro do pote de vidro da goiabada — daqueles que ficam expostos perto do caixa, do lado das balas soltas. Letra pequena, redonda, de Ivone:
"Dona Regina, se a senhora tiver com vergonha de me pagar, não precisa. Eu só queria que a senhora soubesse que enquanto a loja tava fechada eu guardei R$ 850 do que vendi, separado numa sacolinha atrás da geladeira. É seu. Eu só peguei R$ 40 pra comprar remédio pro meu joelho, que tava doendo de tanto ficar em pé o dia inteiro. Espero que não se importe. Com carinho, Ivone."
Regina leu três vezes. Sentou na cadeira do marido com o bilhete na mão, olhando pra sacolinha plástica atrás da geladeira, ainda amarrada do jeito que Ivone tinha deixado.
Foi lá em cima, no apartamento acima do dela, bater na porta. Ivone abriu ainda de touca de dormir, era sábado, seu único dia de folga.
— Dona Regina? Aconteceu alguma coisa?
Regina só estendeu o bilhete. Ivone leu, ficou vermelha, começou a se explicar sobre os quarenta reais do remédio, atropelando as palavras.
— Não precisa explicar nada — Regina cortou, a voz meio embargada. — Vem cá que eu preciso te falar uma coisa importante.
Elas desceram juntas até a mercearia. Regina abriu a gaveta de baixo do balcão, tirou de lá uma pasta de plástico transparente que continha, desde o ano anterior, o rascunho de um testamento que o advogado dela, Doutor Amaro, tinha ajudado a redigir — coisa que ela nunca tinha coragem de assinar direito.
— Eu ia deixar a mercearia pro meu sobrinho — disse Regina, folheando as páginas. — Era assim que eu tinha planejado, desde que o Osvaldo morreu. Achei que era o certo, porque é família.
Ivone ficou quieta, sem entender aonde aquilo ia dar.
— Mas família não é quem tem meu sangue, Ivone. É quem cuida de mim quando eu preciso. — Regina pegou uma caneta do pote ao lado da caixa registradora. — Segunda-feira eu vou com você até o cartório da Rua Paes de Barros. Vou mudar o testamento. A mercearia fica pra você.
— Dona Regina, eu não fiz nada esperando isso, a senhora sabe…
— Eu sei. É por isso mesmo.
Na segunda de manhã, as duas foram juntas até o cartório, Regina com a pasta debaixo do braço e Ivone com o crachá do restaurante ainda pendurado no pescoço, porque ia direto pro trabalho depois. O tabelião leu em voz alta a alteração: o imóvel comercial da Rua Bento Freitas, número 214, junto com todo o estoque e o nome "Empório Osvaldo", ficariam registrados em nome de Ivone Aparecida dos Santos após o falecimento de Regina — e, além disso, Regina fez questão de incluir uma cláusula transferindo desde já vinte por cento da sociedade da mercearia pra Ivone, com efeito imediato, pra ela já começar a receber a parte que era dela por direito, todo mês, a partir daquele momento.
Vinícius só ficou sabendo três semanas depois, quando apareceu na mercearia — pela primeira vez em dois meses — perguntando se a tia podia adiantar uma grana pra ele trocar o pneu da moto. Encontrou Ivone atrás do balcão, com um crachá novo pendurado no peito, esse escrito "Sócia — Empório Osvaldo", e Regina sentada na cadeira de plástico, tomando um cafezinho, tranquila.
— Que crachá é esse? — perguntou ele, franzindo a testa.
Regina levantou os olhos devagar, tomou o resto do café, e respondeu sem alterar a voz:
— É de quem tava aqui, meu filho. Enquanto você achava que tinha tempo depois.
Vinícius não disse mais nada. Ficou parado um instante olhando pro balcão que um dia seria dele, deu meia-volta e saiu sem pegar o pneu novo, sem pegar dinheiro nenhum. A porta de vidro bateu atrás dele, sacudindo o adesivo desbotado do horário de funcionamento colado no vidro há mais de dez anos.
Ivone continuou passando pano no balcão, como fazia todo dia. Regina serviu mais um cafezinho, pra ela mesma e pra vizinha, e as duas ficaram ali, quietas, ouvindo o rádio tocando baixinho no fundo da loja.
