Depois de onze anos sozinho, encontrei coragem para deixar entrar na minha vida uma mulher que parecia tão habituada à solidão como eu. Algumas semanas depois, comecei a reparar em coisas estranhas.
Até perceber que o estranho era eu.
Tenho cinquenta e quatro anos e vivo sozinho num apartamento no Porto. A solidão não começou com uma grande decisão. Primeiro houve o divórcio difícil de Helena. Depois, os anos em que não quis conhecer ninguém. Por fim, veio o hábito.
O hábito pode ser mais perigoso do que a tristeza. A tristeza dói. O hábito convence-nos de que já não precisamos de outra vida.
Trabalho como técnico de manutenção num hospital. Levanto-me às seis, bebo café, vejo as notícias, vou trabalhar, regresso, preparo uma refeição simples e deito-me cedo.
Onze anos com a mesma rotina.
Não era infeliz. Havia apenas um vazio discreto, como uma torneira a pingar noutra divisão. Com o tempo deixamos de a ouvir, mas ela continua.
Conheci Teresa num curso de fotografia num centro cultural. Tinha cinquenta e um anos, trabalhava num escritório de contabilidade e estava separada havia alguns anos.
No fim da primeira aula ficámos os dois a tentar resolver o mesmo problema nas máquinas fotográficas.
Nessa noite ri-me mais do que em muitos meses.
Fomos tomar café. Depois repetimos. Na terceira semana convidei-a para ir ao cinema.
Chegou com um casaco verde e a sorrir.
Tudo parecia correr bem.
Depois comecei a ficar ansioso com pequenos detalhes.
Se ela não respondia rapidamente, pensava que tinha feito algo errado. Se chegava cinco minutos atrasada, imaginava que já não queria aparecer. Se não escrevia primeiro durante um dia, via isso como sinal de desinteresse.
Um dia mandou uma mensagem:
— Esta semana tenho muito trabalho. Talvez só possamos ver-nos na sexta-feira.
Era uma mensagem perfeitamente normal.
Mesmo assim, passei horas a perguntar-me por que não podia na quinta-feira. Teria outro encontro? Estaria a perder o interesse?
No jantar seguinte, analisei tudo o que ela dizia.
— Está tudo bem? — perguntou Teresa.
— É o trabalho, — menti.
A minha amiga Rosa foi direta.
— Vives sozinho há onze anos. Aprendeste que estar só é seguro. Agora qualquer proximidade parece perigosa.
— Não tenho medo.
— Interpretas mensagens normais como ameaças. Isso é medo.
Ela tinha razão.
A solidão ensinou-me a ser independente. Também me ensinou que, se não precisasse de ninguém, ninguém poderia abandonar-me.
Contei tudo a Teresa.
Ela ficou em silêncio.
— Eu também tive medo nas primeiras semanas.
— O que fizeste?
— Continuei a ver-te. Pareceu-me mais honesto do que desaparecer.
Foi uma conversa desconfortável. Olhámos muitas vezes para as chávenas.
Mas eu disse a verdade sobre algo de que tinha vergonha e ela não foi embora.
Continuamos juntos.
Às vezes ainda fico ansioso. Mas agora reconheço quando é o medo a falar.
Há pessoas que se habituam tanto à solidão que já não sabem deixar ninguém entrar.
Mas isso pode mudar.
Não é preciso deixar de sentir medo.
É preciso apenas deixar de obedecer sempre a esse medo.
