— Anda, meu solzinho, vou dar-te de comer. Tenho sopa quente. Depois fazemos os trabalhos de casa. Deixa a mãe dormir, ela precisa de descansar.

— Anda, meu solzinho, vou dar-te de comer. Tenho sopa quente. Depois fazemos os trabalhos de casa. Deixa a mãe dormir, ela precisa de descansar.

— Avó… mas ela dorme sempre, — disse Inês, de sete anos, com os olhos cheios de lágrimas. — Quando é que ela fica boa? Quero que seja como antes. Quero ir passear com ela.

Dona Rosa passou a mão pelos cabelos claros da neta e sentiu o coração apertar.

No quarto ao lado, a sua única filha, Mariana, apagava-se devagar. Um ano antes ainda era aquela mulher alegre que levava Inês à escola a cantar, fazia bolos ao domingo e dizia que a vida devia ter sempre alguma coisa bonita, mesmo nos dias difíceis.

Depois veio a doença.

Hospitais, tratamentos, noites sem dormir, comprimidos, dores, esperança e medo misturados. Mariana lutou enquanto pôde. Mas nos últimos tempos já não tinha forças nem para sorrir. Ficava num sono leve, comprido, como se o corpo procurasse um lugar onde a dor não chegasse.

Inês, ao voltar da escola, entrava sempre no quarto da mãe.

— Mãe, já cheguei. Hoje desenhei uma casa com flores.

Às vezes Mariana mexia os dedos. Era pouco. Para Inês, era tudo.

— Viste, avó? Ela ouviu.

— Ouviu, meu amor.

Mariana partiu antes do amanhecer.

Rosa acordou de um sonho. Viu a filha pequena, com um vestido branco, a correr por um caminho cheio de luz. Mariana virava-se e acenava.

— Espera por mim, filha! — gritou Rosa.

Acordou sobressaltada e correu para o quarto.

Compreendeu logo.

O rosto de Mariana estava calmo. Livre daquela expressão de sofrimento que a acompanhara durante meses. Rosa ajoelhou-se junto à cama. Não gritou. Não conseguiu. Beijou-lhe a testa e ficou ali, em silêncio.

Depois fechou a porta.

Tinha de preparar Inês para a escola.

Na cozinha, aqueceu leite, pôs pão com manteiga no prato e guardou uma maçã na mochila. Fazia tudo como se fosse outra pessoa a mover-lhe as mãos.

Quando Inês quis ir despedir-se da mãe, Rosa impediu-a.

— Hoje não, querida. A mãe teve uma noite difícil. Deixa-a dormir.

— Mas eu digo sempre adeus.

— Depois dizes.

No caminho para a escola, Inês contou qualquer coisa sobre a professora. Rosa não ouviu quase nada.

— Avó, estás estranha.

— Dormi mal, filha. Só isso.

Ao voltar para casa, Rosa chamou o médico e tratou do que tinha de ser tratado. Quando lhe perguntaram por que esperara, desfez-se.

— Tive de levar a minha neta à escola. Ela tem sete anos. Não podia ver a mãe assim.

Quando Inês voltou, o quarto estava vazio. A cama feita. Em cima da mesa de cabeceira, uma fita de cabelo de Mariana.

A menina saiu do quarto devagar.

— Avó… onde está a mãe?

Rosa sentiu a verdade presa na garganta. Não conseguiu.

— Levaram-na para o hospital. Ela piorou.

— E não me disseste?

Inês ficou calada, magoada. Não quis almoçar. Sentou-se no sofá e virou-se para a janela.

Rosa fechou-se na casa de banho, abriu a torneira e ligou a Tiago, ex-marido de Mariana, pai de Inês. Ele mal aparecera nos últimos meses.

Atendeu irritado.

— O que foi agora?

— Sou eu, Rosa. A Mariana morreu esta manhã.

Silêncio.

— Vou já, — disse ele por fim.

Chegou meia hora depois. Inês correu para ele.

— Pai! A mãe está no hospital e a avó não me deixa ir!

Tiago olhou para Rosa. Ela abanou a cabeça quase sem se mover.

Ele ajoelhou-se diante da filha.

— Por agora não dá para visitar a mãe. Os médicos precisam de cuidar dela. Mas queres vir uns dias para minha casa? Vemos um filme, fazemos panquecas.

Inês aceitou. Estava triste, confusa, e feliz por ver o pai.

Rosa preparou uma mala pequena: pijama, roupa, cadernos, escova de dentes, o coelho de peluche. Entregou-a a Tiago no corredor.

— Não consigo agora. Tenho o funeral, papéis, tudo. E as perguntas dela… eu não aguento.

Tiago respondeu baixo:

— Eu fico com ela.

O funeral passou como nevoeiro. Rosa lembrava-se das flores, do frio, das vozes, mas nada parecia real. Ao voltar para casa, sentou-se na cozinha e ficou a olhar para a cadeira onde Mariana costumava beber café.

À noite, Tiago telefonou.

— Quando levo a Inês de volta?

Rosa quis feri-lo com palavras. Mas estava vazia.

— Não sei.

— Ela pergunta porque é que a mãe não liga. Rosa, não posso continuar.

— Amanhã contamos. Juntos.

No dia seguinte, Inês sentou-se entre os dois. Tinha um desenho da mãe na mão.

— A mãe volta?

Tiago segurou-lhe os dedos.

— Amor, a mãe estava muito doente. O corpo dela já não conseguiu continuar.

Inês olhou para ele.

— Ela morreu?

Rosa assentiu.

A menina ficou quieta. Depois sussurrou:

— Mas eu não disse adeus.

Rosa aproximou-se.

— Eu sei. Desculpa. Quis proteger-te, mas não devia ter-te deixado com uma mentira.

Inês começou a chorar. Tiago abraçou-a. Rosa abraçou os dois.

Depois disso, Tiago não desapareceu. Começou a ir à escola, a aprender os horários, a preparar lanches tortos, a ouvir Inês falar da mãe. Errava muito, mas aparecia.

Uma noite disse a Rosa:

— Eu fugi quando a Mariana adoeceu. Não soube lidar com aquilo. Fui cobarde.

Rosa respondeu:

— À Mariana já não podes devolver esse tempo. À Inês ainda podes dar presença.

— Vou dar.

— Então dá todos os dias. Não só quando for fácil.

Na primavera, foram juntos ao cemitério. Inês levou margaridas.

— Mãe, o pai já sabe fazer chocolate quente. A avó diz que ponho a língua de fora quando desenho, como tu.

Rosa chorou. Tiago também, embora tentasse esconder.

No caminho para casa, Inês perguntou:

— Avó, a mãe não está a dormir, pois não?

— Não, meu amor. A mãe morreu. Mas o amor dela ficou connosco.

— Então podemos falar dela?

— Sempre.

A dor não desapareceu. Mas deixou de ser segredo. Mariana passou a estar nas histórias, nas fotografias, nas receitas, no riso de Inês.

Rosa aprendeu que não se protege uma criança escondendo a verdade para sempre. Protege-se ficando ao lado dela quando a verdade chega.

Ela perdera a filha.

Mas cada manhã, ao pentear Inês, via nos olhos da neta uma pequena luz de Mariana.

E era por essa luz que continuava a levantar-se.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

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