A Aposta dos Oitenta e Cinco Anos de Dona Yara

A Vaga de Dona Yara

A Escola de Dança Gravina ficava num casarão antigo da Rua da Glória, em São Paulo. Janelas altas, piso de madeira que rangia nos cantos e cheiro de breu misturado com suor. Era uma das academias mais respeitadas do país. Quem entrava ali ou queria palco, ou queria competição, ou queria simplesmente o direito de dizer que estudou com Caio Gravina.

Caio tinha trinta e dois anos, uma carreira sólida como bailarino e uma fama de professor que não perdoava perna baixa, coluna torta ou braço mole. Naquela manhã de quarta-feira, ele caminhava entre as alunas na barra, corrigindo postura uma a uma.

— Cintura encaixada, Mariana. Joelho esticado, Bia. Não arrasta o pé, Luana. De novo do começo.

O som do piano abafava as conversas. Todo mundo suava. Todo mundo tentava acertar.

Foi quando a porta se abriu.

No vão, contra a luz cinzenta que vinha do corredor, parou uma senhora. Magra, postura de estátua. Vestia collant preto, meia-calça clara e sapatilha de lona já amaciada. O cabelo branco preso num coque apertado. Na mão, uma bolsinha de lona azul-marinho, daquelas de feira, com uma garrafinha de água do lado de fora.

O piano parou no meio de um compasso.

Caio demorou três segundos a mais do que devia para reagir.

— A senhora… acho que se enganou de endereço.

A mulher deu dois passos para dentro e fechou a porta atrás de si.

— Vim para a aula de balé.

Algumas alunas trocaram aquele olhar que quer dizer "é sério isso?". Uma riu baixinho, cobrindo com a toalha. Outra fingiu que ajustava a sapatilha para disfarçar.

Caio respirou fundo.

— Olha, dona… — começou ele.

— Iolanda. Yara Iolanda de Souza Prado.

— Dona Yara. Com todo respeito. Balé é atividade física pesada. A senhora pode cair. Quebrar o fêmur. Luxar o ombro. Romper ligamento. E a responsabilidade pela sala é minha.

— Não vou quebrar nada.

— Mesmo assim, não posso aceitar.

— Por quê?

Caio abriu os braços, num gesto de quem explica o óbvio.

— Porque balé não é lugar para… para uma pessoa da sua idade.

A mulher pousou a bolsa no chão, encostada na parede. Depois andou até o centro da sala, sem pressa nenhuma. O piso de madeira estalou sob a sapatilha.

— Que tipo de pessoa, exatamente?

Caio riu sem vontade.

— Uma pessoa de oitenta e cinco anos, dona Yara. A senhora não vai conseguir nem subir na ponta. Quem dirá dar uma pirueta.

Dessa vez a risada foi geral. Veio de trás, da aluna loira que fazia meia-ponta no espelho. Veio do rapaz de moletom cinza que descansava encostado na barra.

— Ela deve ter confundido com aula de hidroginástica — disse alguém.

— Ou com o centro de convivência do idoso da Bela Vista.

O riso cresceu. Mas a mulher não se mexeu. Não baixou os olhos. Não apertou os lábios. Apenas ficou parada, esperando.

— Eu não confundi nada — disse ela, calma.

Caio cruzou os braços.

— Então mostra.

Foi aí que a sala mudou.

Dona Yara caminhou até o meio do estúdio e parou de frente para o espelho que cobria a parede inteira. Ajustou a faixa da sapatilha no tornozelo. Girou os ombros uma, duas vezes. Depois elevou os braços na quinta posição, como quem retoma um gesto ensaiado mil vezes.

O silêncio voltou, mas de outro tipo.

Ela fez um demi-plié. Depois um développé lento, perfeitamente esticado. O pé subiu sem tremor nenhum, até passar da linha do ombro. As mãos acompanharam com a precisão de um relógio suíço.

A loira parou de sorrir.

Dona Yara fez uma sequência de piruetas en dehors. O coque branco girou contra o espelho. O collant preto se firmou no eixo. Não houve um desequilíbrio, um arrastão de sola, um calcanhar que batesse no chão.

O rapaz de moletom se afastou da barra. A aluna que tinha rido estava agora com a toalha torcida entre as mãos.

E então veio o grand battement.

O pé de dona Yara subiu limpo, rápido, numa linha vertical que apontou para o teto como se nunca tivesse conhecido outro caminho. A perna esquerda abriu o gesto e o corpo permaneceu firme, os olhos no horizonte, o queixo levantado.

A sala ficou muda.

A aluna que tinha falado da hidroginástica levou a mão ao peito. Alguém deixou cair a sapatilha no chão e nem se abaixou para pegar.

A primeira palma veio do fundo. Depois outra. E mais outra. Em instantes, o estúdio inteiro aplaudia.

Caio parou na frente da mulher.

— Me desculpe — disse ele, baixo.

— Pelo quê?

— Pelo que eu falei.

Dona Yara pegou a bolsinha de lona e tirou dela uma toalha branca dobrada.

— Você falou o que qualquer um falaria — respondeu.

— Quem é você?

Ela passou a toalha no rosto.

— Eu comecei no balé com dois anos de idade.

Ninguém no estúdio piscou.

— Dancei quarenta e três anos em teatro profissional.

Caio franziu a testa. Tentava puxar da memória alguma figura antiga, alguma foto de revista que tivesse visto na cinemateca da escola.

— Depois que parei, dei aula por quase vinte — continuou ela. — No Municipal do Rio. No Castro Alves. No Guaíra.

O nome dela agora pesava na sala. Uma aluna cochichou para a outra: "Iolanda de Souza Prado". A loira levou a mão à testa. "A Yara Iolanda", disse ela, mais alto do que pretendia.

E foi nesse instante que a porta do corredor se abriu de novo.

Era o professor Antônio Carlos, setenta e ainda na ativa. Ele segurava uma xícara de café e uma pasta de pauta. Ao ver a mulher parada no centro do estúdio, parou de andar. A xícara tombou um milímetro na mão dele.

— Não pode ser.

Ele deu um passo para dentro e apertou os olhos.

— Yara…? Yara Iolanda?

A mulher virou o rosto.

Antônio Carlos largou a pasta na primeira cadeira que encontrou.

— Meu Deus do céu, é ela.

Ele atravessou a sala e segurou as mãos da mulher com as duas dele.

— Eu estava no Theatro Municipal na sua última Giselle. Eu tinha dezessete anos. Chorei que nem menino. Você me viu na plateia e riu.

— Você me mandou flores no camarim — disse dona Yara.

— Rosas brancas. Você guardou o cartão.

— Guardei.

Caio ficou olhando aquilo por alguns segundos. Depois baixou a cabeça e passou a mão na nuca.

— Eu fui um idiota — disse ele.

Dona Yara balançou a cabeça.

— Você foi um professor. Não queria que uma velha se machucasse na sua sala. Achei até responsável da sua parte.

Caio não esperava aquilo. Ficou calado, remexendo a manga da camiseta entre os dedos.

Foi Antônio Carlos quem perguntou:

— O que a senhora quer aqui, Yara? Aula? Porque, se quiser, a vaga é sua. E sem mensalidade.

Ela deu o primeiro sorriso desde que entrara na sala.

— Vim porque cansei de parar. Eu passei onze anos dizendo que estava descansando. Onze anos indo ao médico, fazendo pilates, vendo a vida passar pela janela do apartamento. E eu queria dançar. Ainda que fosse só num estúdio, de portas fechadas, sem palco e sem plateia.

A loira baixou os olhos para a sapatilha.

— A senhora ainda dança melhor que a gente — disse.

Dona Yara abriu a bolsinha de novo e tirou de dentro um objeto pequeno, forrado em veludo preto.

— Eu trouxe uma coisa.

Todo mundo se aproximou. Ela abriu o veludo e mostrou uma fita de cetim verde-escura, gasta, quase branca nas bordas.

— É a fita da minha primeira apresentação. Eu tinha seis anos. Foi no Salão Nobre da Pinacoteca, num recital de meio de ano. Minha mãe ficou na segunda fileira, com o coração na mão.

Ela passou a fita por entre os dedos.

— Achei essa fita no fundo de um baú, há três semanas. E percebi que fazia onze anos que eu não tocava nessas coisas. Onze anos que eu guardava sapatilha, meia, collant… e não entrava numa sala.

Caio estendeu a mão.

— Deixa eu ver.

Ela deu a fita a ele. O rapaz de moletom se aproximou. A aluna da toalha também.

— Minha avó tem uma fita dessas — disse o rapaz. — Dançou no Aurora de Castro, em Campinas, quando moça.

— Aurora era uma escola respeitada — disse dona Yara. — Bom gosto musical.

O rapaz ruborizou, meio sem jeito.

Caio segurou a fita com as duas mãos, como se pegasse uma relíquia.

— Se a senhora me deixar… — começou ele. — Eu quero emoldurar isso na entrada da escola. Para todo mundo ver. Uma lembrança de que o balé não tem idade.

Dona Yara tirou a fita das mãos dele.

— Não, Caio.

Ele piscou.

— Essa fita volta comigo. Ela é minha. E a minha história não é enfeite de parede — ela abriu a bolsa e devolveu o veludo lá para dentro. — Mas eu aceito a vaga.

Antônio Carlos riu alto, batendo uma palma.

— Aí, Yara! Era tudo que eu precisava ouvir.

Caio respirou aliviado.

— Toda quarta e sexta, às nove. A turma da manhã é mais madura. Vai se adaptar melhor.

— Prefiro a da tarde — disse ela. — Tem mais jovens. E jovem me faz lembrar por que eu amava isso.

Caio olhou para as próprias mãos.

— Então está fechado.

Dona Yara não respondeu. Apenas tirou a garrafinha de água da bolsa, desenroscou a tampa e bebeu um gole. Depois olhou para o espelho.

— Uma última coisa — disse ela. — Vocês têm o hábito de dar bom dia ao pianista?

O pianista, um rapaz tímido de óculos, que ninguém tinha notado até então, levantou a cabeça.

— Bom dia — disse ela para ele.

Ele sorriu.

— Bom dia, dona Yara.

Ela ajeitou o coque diante do espelho e saiu da sala do jeito que tinha entrado: com a mesma postura de estátua, o mesmo som da sapatilha no piso de madeira. Só que agora ninguém ria.

Na portaria do casarão, ela passou pelo quadro de avisos. Havia um cartaz amarelo de uma apresentação beneficente no Teatro Alfa, dali a duas semanas. O cartaz pedia novos talentos.

Dona Yara parou por um instante. Depois pegou a caneta na recepção e escreveu embaixo do cartaz, com a letra firme de quem preencheu muitas requisições de viagem:

_Yara Iolanda de Souza Prado. Balé clássico. Vaga aberta._

Largou a caneta sobre o balcão, pendurou a bolsinha de lona no ombro e atravessou a porta de vidro para a Rua da Glória.

A recepcionista ficou parada, olhando o nome no cartaz, a caneta ainda balançando no fio preso ao balcão. Esticou a mão para tocar o papel, mas não chegou a fazer nada. Só ficou ali, olhando a porta de vidro balançar de leve, sem coragem de correr atrás para perguntar quem, afinal, era aquela mulher.

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