— Amanhã vêm cá os meus amigos até domingo. Cozinhas, arrumas, mudas os lençóis e tratas deles, — disse Tiago, sem levantar os olhos do telemóvel.
Marta estava na cozinha a preparar doces conventuais para uma encomenda de casamento em Aveiro. Tinha fios de ovos, pequenas formas de amêndoa e uma calda que não podia passar do ponto.
— Quantos amigos? — perguntou.
— O João, o Filipe e talvez o Nuno. Não faças essa cara. São só dois dias.
— Estou só a perceber se me estás a avisar ou a contratar.
Tiago riu-se.
— Tu estás em casa. Fazes doces. Que diferença faz pôr mais três pratos?
Marta pousou a colher de pau.
— A diferença é que o meu trabalho já tem clientes. Não precisa de hóspedes que não pagam e ainda deixam loiça.
— Lá estás tu. A minha mãe recebia gente sem reclamar.
— Talvez ninguém lhe tenha perguntado se estava cansada.
Tiago fechou a expressão.
— Os convidados são responsabilidade da mulher da casa. Sempre foi assim.
Marta ficou calada. Mas naquela noite mandou mensagem à amiga Inês:
“Se amanhã eu escrever ‘amêndoa’, vens buscar-me?”
A resposta chegou logo:
“Vou buscar-te, os doces e a tua dignidade se for preciso.”
Na manhã seguinte, Tiago encontrou as malas dele junto à porta. Havia também a pasta do computador, os sapatos e um saco com roupa para o fim de semana.
Em cima estava um papel:
“Pensão completa existe em hotéis. Aqui mora uma mulher, não um serviço.”
— Que raio é isto? — perguntou.
Marta estava à mesa, a beber café.
— A tua solução. Queres receber amigos com comida, camas feitas e limpeza? Aluga uma casa. Leva as malas.
— Estás a expulsar-me?
— Estou a devolver-te o trabalho que tentaste pôr em cima de mim.
Ele ficou furioso.
— Vais fazer-me passar vergonha?
— Não. A vergonha é tua. Eu só deixei de a esconder.
Quando os amigos chegaram, João percebeu logo a situação.
— Tiago, tu disseste que ela tinha insistido para virmos.
Marta respondeu:
— Eu insisti em acabar uma encomenda. O resto foi imaginação dele.
Filipe olhou para Tiago.
— Vamos para um alojamento local. Isto não está certo.
Tiago saiu com eles, ainda indignado, como se o problema fosse a mala e não a forma como tentou usá-la como uniforme para Marta.
Ela passou o fim de semana a trabalhar em silêncio. No domingo entregou os doces. A noiva disse que pareciam feitos por alguém com muita paciência.
Marta pensou que sim. Tinha tido paciência durante anos.
Mas agora começava a ter outra coisa.
Limites.
Quando Tiago voltou, perguntou se ela queria mesmo “deitar tudo fora por uma visita”.
Marta respondeu:
— Não foi pela visita. Foi por perceber que, se eu não parasse, a próxima visita seria a minha própria ausência dentro desta casa.
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