Álvaro regressou da caça irritado. Deixou as botas espalhadas na entrada, atirou o casaco para o chão e começou a bater com as portas dos armários.

Álvaro regressou da caça irritado. Deixou as botas espalhadas na entrada, atirou o casaco para o chão e começou a bater com as portas dos armários.
Catarina estava sentada na sala.
O cão ruivo, Faísca, permanecia junto aos seus pés. Ao ouvir o dono, baixou as orelhas.
Álvaro apareceu à porta.
«Aquele cão vai embora.»
Catarina pousou o telemóvel.
«Porquê?»
«Porque não serve para caçar. Ando há meses a treiná-lo. Disparo e ele esconde-se. A ave cai e ele não se mexe. É um inútil.»
Faísca encostou-se à perna dela.
«O que vais fazer?»
«Levo-o ao Duarte. Se não o quiser, deixo-o fora da vila. Não vou alimentar um animal que não serve.»
Catarina levantou-se.
Foi ao quarto, retirou uma mala grande do armário e começou a colocar lá dentro as roupas do marido.
Álvaro apareceu atrás dela.
«O que estás a fazer?»
«A arrumar as tuas coisas.»
«Para quê?»
«Disseste que era preciso livrar-nos de quem não serve.»
Álvaro ficou imóvel.
«Estás a expulsar-me por causa de um cão?»
«Estou a expulsar-te porque ameaçaste abandonar um ser vivo que confia em nós.»
«Eu estava zangado.»
«Tu usas a zanga como autorização para dizer tudo.»
Catarina colocou os sapatos dele na mala.
«Faísca não caça. Mas espera por mim todos os dias. Quando estive doente, dormiu ao lado da cama. Quando estou triste, percebe.»
«É apenas um cão.»
«E tu és o meu marido. Devias perceber antes dele.»
Álvaro cruzou os braços.
«Eu sustento esta casa.»
«Sustentas as despesas. Não sustentas a relação.»
Ele ficou calado.
«Quando foi a última vez que ficaste feliz por me ver? Não pela comida pronta. Por mim.»
Álvaro desviou os olhos.
Catarina fechou a mala.
«Vai para casa do teu irmão.»
Álvaro saiu convencido de que ela mudaria de ideias.
Não mudou.
O irmão ouviu a história e perguntou:
«Tu ias mesmo abandonar o cão?»
«Foi uma coisa dita no momento.»
«Isso não torna a coisa menor.»
Álvaro procurou um treinador.
Descobriu que Faísca tinha medo de tiros, mas possuía um faro extraordinário.
«Não serve para caça,» disse o treinador. «Mas talvez seja capaz de encontrar pessoas ou animais perdidos.»
Álvaro começou a treinar com ele.
Faísca aprendeu depressa.
Meses depois, ajudou a encontrar uma criança desaparecida numa mata. Seguiu o cheiro de uma camisola até uma construção abandonada.
Álvaro ficou ajoelhado ao lado do cão.
«Eu queria deixar-te numa estrada.»
Catarina respondeu:
«E ele levou-nos até alguém que precisava de ajuda.»
Álvaro pediu desculpa sem exigir que ela o aceitasse de volta.
Começou terapia. Mudou a forma de falar, de ouvir e de reagir.
Durante quase um ano viveu fora.
Catarina observou a mudança devagar.
Uma noite perguntou:
«Se Faísca envelhecer e deixar de andar, vais continuar a querer ficar com ele?»
Álvaro respondeu:
«É quando mais vai precisar de nós.»
«E se eu ficar doente ou difícil?»
«Também.»
Catarina permitiu que regressasse.
Não porque a ameaça tivesse desaparecido da memória.
Mas porque ele deixou de tentar apagá-la e passou a viver de modo diferente.
Faísca nunca trouxe uma ave abatida.
Mas devolveu àquela casa algo muito mais importante.
Ensinou Álvaro que quem ama não pergunta primeiro para que serve alguém.
Pergunta do que precisa para se sentir seguro.
🥰 A continuação da história está nos comentários. Partilhem os vossos sentimentos e pensamentos depois da leitura.

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