A pequena cadela estava presa ao portão de um parque de caravanas fechado no centro de Portugal

A pequena cadela estava presa ao portão de um parque de caravanas fechado no centro de Portugal. A trela tinha dois nós apertados. Ao lado havia uma tigela vazia e uma manta infantil com estrelas.

O parque estava encerrado havia semanas. As caravanas tinham desaparecido, a água fora desligada e as noites já eram frias.

Foi Artur Correia, de sessenta e oito anos, quem a encontrou. Todas as manhãs passava por ali a caminho de uma barragem onde pescava.

Desde que ficara viúvo, mantinha o rádio ligado quase todo o dia. Dizia que gostava de notícias, mas na verdade não suportava ouvir apenas o próprio silêncio.

A cadela era uma teckel castanha, muito magra. Olhava para a estrada.

Quando Artur se aproximou, ela encolheu-se e fechou os olhos.

«Calma. Não vou fazer mal.»

A trela estava endurecida pela chuva. Artur cortou-a com a faca.

A cadela permaneceu junto ao portão.

Ele deu-lhe pão e queijo. Ela comeu depressa, mas continuou a esperar.

Artur sentou-se ao lado.

Só depois de muito tempo ela se aproximou e tocou-lhe na mão com o focinho.

Na clínica descobriram desnutrição, anemia e uma infeção grave.

Artur chamou-lhe Amora.

A filha não gostou da ideia.

«Pai, já tens dores nas pernas.»

«Ela também. Vamos devagar.»

Amora dormia junto à porta. Sempre que Artur pegava nas chaves, começava a tremer.

Ele criou uma rotina.

Mostrava as chaves e dizia:

«Eu volto.»

Primeiro saía durante um minuto.

Depois cinco.

Amora demorou meses a acreditar.

Numa manhã, Artur sentiu-se mal junto à barragem. Caiu e não conseguiu chegar ao telefone.

Amora correu até um casal que caminhava na estrada. Ladrou, voltou para Artur e repetiu o percurso até eles a seguirem.

A ambulância chegou rapidamente.

A antiga dona foi encontrada graças ao microchip. Disse que o marido não aceitava o cão na nova casa.

«Pensámos que alguém o encontraria.»

Artur respondeu:

«Encontrar por acaso não é o mesmo que entregar em segurança.»

Amora reconheceu a mulher, mas recuou para junto dele.

Artur não a obrigou a aproximar-se.

Mais tarde, a filha começou a visitar o pai com maior frequência. Percebeu que Amora o fazia caminhar, comer a horas e conversar novamente com os vizinhos.

«Afinal não foste tu que a adotaste,» disse ela. «Ela também te adotou.»

Artur continuou a preparar duas sanduíches para a pesca.

Uma para si.

Outra para Amora.

E o rádio passou a ficar desligado durante longos períodos, porque a casa já não parecia vazia.

🌷 Todos os detalhes e a continuação estão nos comentários. Ficaremos gratos se partilharem as vossas impressões.

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