A diretora do lar, Leonor, voltou a franzir o sobrolho ao ver o gato ruivo junto ao portão.

A diretora do lar, Leonor, voltou a franzir o sobrolho ao ver o gato ruivo junto ao portão.

— Outra vez. Já vai na quarta semana.

O gato aparecia todas as manhãs antes das sete. Não procurava comida nos caixotes nem tentava entrar no pátio. Sentava-se debaixo de uma amoreira, enrolava a cauda nas patas brancas e ficava a olhar para a entrada do edifício.

A nova educadora, Beatriz, acreditava que ele esperava alguém.

— Espera comida, — respondia Leonor. — As crianças alimentam-no.

Os miúdos chamaram-lhe Faísca. Davam-lhe pão, restos de carne e água. Ele comia, mas voltava logo para junto do portão.

Quando o pequeno Tomás, de nove anos, aparecia, Faísca levantava-se imediatamente.

Tomás tinha chegado ao lar depois de a mãe ter sido internada durante um longo período. Não conhecia o pai. Falava pouco, recusava brincar e guardava os sapatos junto da cama, como se estivesse sempre preparado para partir.

Um dia Beatriz ouviu-o junto à grade.

— Nino… és mesmo tu?

O gato aproximou-se, passou uma pata entre as barras e miou baixinho. Tomás tocou-lhe.

— Conheces esse gato?

O menino hesitou.

— É parecido com o nosso.

Depois contou que Nino dormia aos seus pés, seguia-o até à escola e esperava junto à porta. Quando a mãe foi internada e Tomás levado para o lar, o senhorio colocou o gato na rua.

A antiga casa ficava longe.

— Como poderia ter-te encontrado?

— Ele conhecia o meu cheiro.

Leonor recusou acolher o animal.

— Existem regras sanitárias, inspeções e crianças com alergias. Não podemos tomar decisões apenas com o coração.

Beatriz levou o gato ao veterinário. Estava magro, tinha as patas feridas e sinais de ter percorrido longas distâncias. Tinha também um microchip.

A proprietária registada era a mãe de Tomás.

Leonor leu o documento.

— Então é mesmo dele. Mas não pode entrar no edifício.

Naquela noite começou uma tempestade. Nino permaneceu debaixo da amoreira.

Pouco depois da meia-noite, Tomás desapareceu do quarto.

Beatriz encontrou-o fora do portão, sentado no chão, com o gato debaixo da camisola.

— Não queria fugir, — disse. — Só não queria que ele pensasse que eu também o abandonei.

Leonor ouviu-o.

Na manhã seguinte chamou o responsável pela manutenção, Duarte.

— Faz uma casa de madeira no pátio. Bem isolada.

Uma voluntária levou mantas, o veterinário ofereceu vacinas e as crianças organizaram um calendário para cuidar do gato.

Nino ficou no exterior, mas tornou-se parte da rotina do lar.

Tomás começou a tomar o pequeno-almoço com os outros. Aceitou conversar com a psicóloga e participou numa oficina de carpintaria, onde fez uma placa para a casota.

Contou que, nos meses anteriores ao internamento, a mãe passava dias sem conseguir sair da cama. Nino deitava-se junto dele quando tinha medo.

— Não sabia resolver os problemas, — disse. — Mas ficava.

As outras crianças também começaram a procurar o gato. Matilde lia-lhe histórias. Afonso falava do irmão que vivia noutra cidade. A pequena Lara escondia desenhos debaixo da manta.

Meses depois, um casal interessado em acolhimento familiar começou a visitar Tomás. Joana e Miguel viviam numa aldeia perto da cidade, numa casa com quintal e um cão velho.

Na terceira visita, Tomás perguntou:

— Se uma criança tiver um gato, ele também pode ir?

Miguel sorriu.

— O nosso cão já não consegue correr atrás de ninguém. Provavelmente vai pedir ao gato que lhe aqueça a cama.

Tomás riu.

O processo foi longo. O menino perguntava se seria devolvido caso tivesse más notas, gritasse ou Nino estragasse os móveis.

— Uma família não é um prémio por comportamento perfeito, — explicou Joana. — É um lugar onde se aprende a reparar as coisas juntos.

No dia da partida, todas as crianças se reuniram junto ao portão. Nino miava dentro da transportadora até Tomás o pegar ao colo.

Leonor entregou os documentos.

— Cuida bem dele.

Tomás apertou o gato contra o peito.

— Ele cuidou de mim primeiro.

Depois de o carro desaparecer, a pequena casota ficou vazia.

Leonor decidiu mantê-la.

Por cima da entrada colocaram uma placa:

„Aqui esperou alguém que nunca deixou de procurar.“

Desde então, quando uma criança chegava ao lar a falar de um animal, de uma casa ou de alguém que tinha ficado para trás, ninguém dizia que em breve esqueceria.

Tinham aprendido que esquecer não é a única forma de continuar.

Às vezes avançamos porque alguém, mesmo do outro lado de um portão, ainda se lembra de nós.

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