Uma cadela abandonada acompanhava-o todas as manhãs. Certo dia colocou-lhe um cachorro aos pés e levou-o até uma ninhada escondida

Uma cadela abandonada acompanhava-o todas as manhãs. Certo dia colocou-lhe um cachorro aos pés e levou-o até uma ninhada escondida

O despertador tocou às seis e meia. Eduardo abriu os olhos e ficou a olhar para a parede descascada do quarto arrendado.

Tinha quarenta e seis anos. A cama era de ferro, a mesa abanava e a janela deixava entrar o vento de outubro.

A única coisa verdadeiramente sua era a fotografia do filho, André, aos nove anos. Agora tinha dezoito e falava com o pai sobretudo por mensagens curtas.

Depois do divórcio, Eduardo deixara a casa à ex-mulher. Durante algum tempo visitara o filho com frequência. Depois aceitara mais trabalho, mais viagens e mais desculpas.

Era chefe administrativo numa empresa de construção. Os colegas consideravam-no disciplinado. Ninguém o esperava ao fim do dia.

A cadela começou a segui-lo no início do mês.

Era magra, preta, com uma mancha branca no peito e uma coleira muito velha. Aparecia junto ao café e acompanhava-o até à paragem.

— Não tenho nada para te dar, — dizia Eduardo.

Ela mantinha distância, mas voltava.

Uma colega comentou:

— Talvez não queira comida. Talvez queira companhia.

— Eu não tenho tempo.

— Tempo é o que as pessoas dizem não ter quando não querem sentir.

Eduardo não gostou.

Numa manhã chuvosa, a cadela apareceu a coxear. Trazia um cachorro muito pequeno na boca.

Colocou-o diante dos sapatos de Eduardo.

— Isto não pode ser comigo.

O cachorro soltou um gemido.

A mãe começou a caminhar em direção a um armazém abandonado. Voltou-se várias vezes.

Eduardo seguiu-a.

Atrás de umas caixas encontrou mais três cachorros. Estavam molhados e frios. Um quase não respirava.

Telefonou para o trabalho.

— Hoje não vou.

— Está doente?

— Não. Tenho uma emergência.

Levou todos ao veterinário.

A cadela, a quem chamou Clara, estava desnutrida e tinha uma ferida profunda debaixo da coleira. O médico acreditava que fora mantida presa e abandonada durante a gravidez.

Os cachorros precisavam de leite de poucas em poucas horas.

Eduardo levou-os para o quarto.

A senhoria, dona Zulmira, não permitia animais. Quando ele telefonou, ela ficou indignada.

— Quatro cachorros e uma cadela num quarto?

— Só até encontrar famílias.

— O senhor também disse que ficaria aí apenas alguns meses.

Eduardo vivia naquele quarto havia nove anos.

A frase atingiu-o.

Dona Zulmira foi ver os animais. Clara levantou-se com dificuldade e colocou-se diante dos filhos.

A mulher suspirou.

— O meu marido trazia animais para casa. Eu fingia que não gostava.

Deu-lhe um mês.

Eduardo passou a acordar durante a noite para alimentar os cachorros. Lavava cobertores, limpava o chão e corria para casa depois do trabalho.

Sentia-se cansado, mas não vazio.

Publicou anúncios, com a ajuda de uma associação. Fazia perguntas a todas as pessoas interessadas.

— Parece uma entrevista de emprego, — disse um homem.

— Um emprego pode ser abandonado. Um animal não deveria.

André viu as fotografias e escreveu:

„São teus?“

„Por enquanto.“

„Posso vê-los?“

Eduardo não via o filho em sua casa havia anos.

André chegou no sábado e ficou parado à porta.

— Vives mesmo aqui?

— Sim.

— Pensava que tinhas um apartamento.

— Nunca falei muito sobre isso.

— Nunca falaste muito sobre nada.

Sentaram-se junto à caixa. O cachorro mais fraco rastejou até André.

— Este vai sobreviver?

— Esperamos que sim.

— Então chama-se Teimoso.

André começou a visitá-los. Ajudava a alimentar, fazia vídeos e encontrou uma família para uma das cadelas.

Outros dois foram adotados por pessoas da associação. Teimoso ficou com Eduardo, juntamente com Clara.

O quarto tornou-se pequeno demais. Eduardo arrendou um apartamento simples com um pequeno quintal.

Pela primeira vez em anos comprou móveis escolhidos por si.

André ajudou na mudança.

— Porque deixaste de me procurar? — perguntou.

Eduardo pousou uma caixa.

— Tinha medo de que não quisesses estar comigo.

— E achaste melhor não tentar?

— Achei mais fácil trabalhar e dizer que um dia resolveríamos.

— O dia não se resolve sozinho.

Eduardo concordou.

Não pediu perdão imediato. Apenas começou a aparecer. Ia ver o filho, telefonava sem motivo e recusava trabalho em alguns domingos.

Clara demorou muito a confiar. Assustava-se com cordas e vozes altas. Eduardo usava um peitoral macio e nunca a puxava.

Certa manhã, enquanto caminhavam, André perguntou:

— Porque achas que ela te escolheu?

Eduardo sorriu.

— Talvez tenha percebido que eu precisava que alguém me obrigasse a voltar para casa.

Clara entregara-lhe um cachorro porque já não conseguia proteger a ninhada sozinha.

Ele, por sua vez, descobriu que também não precisava continuar sozinho apenas por vergonha de admitir que tinha falhado.

Nem todos os abandonos acontecem quando alguém fecha uma porta.

Às vezes acontecem lentamente, cada vez que dizemos „amanhã“.

Clara apareceu antes que Eduardo perdesse mais um ano.

E ele finalmente parou de passar pela própria vida como se estivesse apenas a caminho do trabalho.

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