Todas as noites uma pastora parava no meio da estrada. Os moradores chamavam-lhe perigosa, até um veterinário descobrir quem ela esperava à mesma hora havia quase um ano
— Outra vez este animal! — gritou Teresa ao travar.
O carro parou diante de uma grande cadela castanha, imóvel no meio da estrada estreita.
— Mãe, não buzines, — pediu a filha. — Ela não quer atacar.
— Basta ficar aqui para causar um desastre.
A cadela afastou-se lentamente e sentou-se junto ao portão de uma oficina abandonada.
Na aldeia de Vale Seco todos a conheciam. Chamava-se Estrela e aparecia todos os dias pouco antes das oito da noite.
No café, os moradores discutiam o assunto.
— A câmara devia levá-la, — dizia o dono.
— Ela está à espera de alguém, — defendia dona Amélia.
Miguel, um veterinário que se mudara recentemente para a aldeia, ouviu a conversa. Também já encontrara Estrela na estrada. Reparara que ela reagia sobretudo a carrinhas verdes.
— Quem era o dono?
— O senhor Joaquim, — explicou Amélia. — Trabalhava numa empresa de manutenção. Morreu há onze meses.
— E a família?
— Tentou levá-la. Ela fugiu e voltou para aqui.
Miguel chegou à estrada antes das oito. Estrela surgiu junto à oficina. Quando uma carrinha verde se aproximou, avançou para a faixa de rodagem. O condutor parou. A cadela correu até à porta, cheirou e afastou-se.
Miguel saiu do carro.
— Estrela.
A cadela ficou surpreendida ao ouvir o próprio nome.
Aproximou-se com cautela. Estava muito magra e tinha uma ferida antiga numa pata.
No dia seguinte Miguel falou com uma vizinha de Joaquim.
— Ele regressava sempre às oito, — contou. — Estrela esperava-o na estrada. Quando ouvia a carrinha, corria. Ele abria a porta e levava-a até casa.
Na noite da morte, a cadela ficou à espera até amanhecer.
Depois do funeral recusou todas as casas.
Miguel começou a visitá-la todas as noites. Levava comida, água e medicamentos. Tentou guiá-la com uma trela, mas Estrela deitou-se no chão e não avançou.
Ele deixou de insistir.
Passou simplesmente a sentar-se ao lado dela.
A cadela habituou-se à presença dele, mas continuava a observar a curva.
Os moradores começaram a pressionar a câmara.
— Se houver outro incidente, será recolhida, — avisaram.
Miguel pediu alguns dias.
A família de Joaquim entregou-lhe uma camisola de trabalho e uma manta antiga.
Estrela reconheceu o cheiro. Deitou-se sobre a roupa e começou a ganir.
Miguel colocou a camisola no banco traseiro.
— Podes vir comigo. Amanhã regressamos.
A cadela não entrou.
Ele repetiu o gesto durante vários dias.
Na quinta noite, Estrela apoiou as patas na porta. Na oitava, subiu para o banco.
Miguel levou-a para casa e deixou o portão aberto.
Ela comeu, percorreu o quintal e voltou à estrada.
Miguel acompanhou-a.
Não queria que o novo lugar se transformasse noutra forma de prisão.
Durante duas semanas Estrela passou os dias no quintal e as noites junto à oficina.
Certa noite, uma mota entrou na curva a grande velocidade. Miguel conseguiu puxar a cadela para a berma, mas o motociclista caiu.
A situação já não podia continuar.
Miguel conseguiu trazer a antiga carrinha de Joaquim, guardada por um familiar. O veículo estava avariado, mas ainda conservava o cheiro do dono.
Quando Estrela a viu no quintal, parou.
Deu várias voltas à carrinha e ficou junto à porta.
Miguel abriu-a. A camisola de Joaquim estava no banco.
Estrela saltou para dentro e deitou-se.
Nessa noite não voltou à estrada.
Durante alguns dias dormiu no veículo. Depois Miguel colocou a manta na varanda. Pouco a pouco, a cadela aproximou-se da casa.
Uma manhã ele encontrou-a na cozinha.
Estrela ainda levantava a cabeça ao ouvir uma carrinha semelhante. Mas já não corria para a estrada.
Meses mais tarde passaram pela antiga oficina. Ela sentou-se e observou a curva.
Miguel esperou.
Ao fim de alguns minutos, Estrela regressou para junto dele.
Os moradores disseram que a cadela finalmente esquecera Joaquim.
Miguel sabia que não.
Ela apenas aprendera que o amor por alguém que morreu não exige uma espera sem fim.
Podia guardar o cheiro da velha camisola, reconhecer o som de uma carrinha e ainda assim escolher uma casa onde uma pessoa viva regressava todas as noites.
