O marido saiu “para pescar” e esqueceu o telemóvel a carregar. Uma mulher ligou: “Amor, já chegaste ao hotel?”
O telemóvel estava na bancada da cozinha, ligado a um cabo azul. Rui nunca o esquecia.
Tinha saído havia vinte minutos. Disse que passaria o fim de semana a pescar com Álvaro. Levou botas, uma mala e duas canas que permaneciam meses na arrecadação.
Quando o telefone tocou, pensei que ligava através do amigo.
— Esqueceste…
— Amor, já chegaste ao hotel? — perguntou uma mulher. — Eu saio do trabalho ao meio-dia. O quarto tem vista para o mar.
Fiquei imóvel.
— Rui?
— Sou a mulher dele.
A chamada terminou.
Chamo-me Teresa. Estávamos casados havia vinte e seis anos. Tínhamos uma filha adulta e um filho de dezassete.
Rui trabalhava como diretor comercial numa empresa de mobiliário. Eu administrava uma pequena pastelaria que abrira com a minha irmã.
No telefone encontrei Clara, uma decoradora contratada pela empresa.
A relação durava mais de um ano.
Rui dizia-lhe que o casamento estava morto. Prometia sair depois de o nosso filho terminar a escola.
Planeavam comprar uma casa perto da costa.
O mais grave estava nas mensagens sobre dinheiro.
„Teresa vai vender a pastelaria dentro de alguns meses.“
„Com a parte dela pagamos a entrada.“
Eu não planeava vender nada.
Rui vinha insistindo que o negócio me cansava e que a minha irmã poderia ficar com tudo. Eu acreditava que se preocupava com a minha saúde.
Na verdade, precisava do dinheiro.
Guardei cópias das mensagens e dos comprovativos de transferências. Rui já tinha pago uma reserva significativa a uma imobiliária.
O valor saíra da nossa conta conjunta.
Liguei a Álvaro.
— Estão juntos?
— Não. O Rui disse que ia visitar um cliente.
Quando regressou, ainda tentou pegar no telefone e sair.
— Clara ligou.
Ele parou.
Primeiro disse que era uma cliente. Depois que a relação começara recentemente. Quando percebeu que eu tinha visto as mensagens, acusou-me de invadir a sua privacidade.
— E tu invadiste a nossa conta.
Rui tentou convencer-me de que a casa junto ao mar seria um investimento. Clara apenas ajudava com a negociação.
— Também precisava de te chamar amor para negociar?
Nessa noite foi dormir a casa de um colega.
Na manhã seguinte procurei uma advogada. A pastelaria pertencia a mim e à minha irmã; Rui não podia vendê-la. Mas os fundos da reserva eram comuns e podiam ser recuperados ou considerados na divisão.
A imobiliária foi informada do conflito. A operação ficou suspensa.
Clara enviou-me uma longa mensagem. Rui dizia que a pastelaria era praticamente dele porque a financiara no início.
Na realidade, o investimento inicial veio de uma indemnização recebida pela minha irmã.
Enviei-lhe os documentos.
Ela percebeu que a casa prometida dependia de um dinheiro ao qual Rui não tinha acesso.
Mesmo assim, não terminou imediatamente. Tentaram manter a relação, mas começaram a discutir sobre a reserva, o divórcio e o tempo que tudo demoraria.
Rui voltou a casa duas semanas depois.
— Podemos ultrapassar isto.
— O quê? A relação ou a falta de dinheiro para a casa?
— Eu estava confuso.
— Para reservar um imóvel foi bastante organizado.
Pedi o divórcio.
O valor da reserva voltou parcialmente para a conta, descontadas as penalizações. O restante foi atribuído à parte de Rui no acordo patrimonial.
A casa onde vivíamos foi vendida. Comprei um apartamento menor perto da pastelaria. Rui mudou-se para outra cidade.
Clara deixou-o alguns meses depois.
A minha filha perguntou se isso me dava satisfação.
— Não. A separação deles não desfaz o que aconteceu comigo.
Dois anos depois Rui apareceu na pastelaria.
Pediu café e ficou a observar o movimento.
— O negócio cresceu.
— Cresceu.
— Eu sempre soube que eras capaz.
Olhei para ele.
— Não. Tu achavas que eu venderia quando mandasses.
Baixou os olhos.
Antes de sair, perguntou se eu ainda tinha as fotografias das mensagens.
— Não preciso delas. Os advogados já precisaram.
Apaguei tudo depois do divórcio.
Não queria transportar aquele hotel para a minha nova vida.
Fiquei apenas com uma certeza: às vezes uma mentira parece sólida porque ninguém toca nela.
Rui esqueceu o telefone por vinte minutos.
Foi suficiente para eu tocar na verdade.
