— Não quero saber do seu aniversário, dona Adelaide! Depois de dizer diante de todos que o seu filho me encontrou no lixo, não volto a servi-la
— Bebam! Parece que vieram a um velório, não aos meus sessenta e cinco anos! — gritou Adelaide.
A sala estava cheia. Havia carne, saladas, doces e bebidas suficientes para o dobro dos convidados. Tudo fora preparado por Marta, a nora.
O marido, Ricardo, dissera:
— A minha mãe merece uma festa bonita.
Marta pagara quase tudo.
Durante o jantar, ficou perto da cozinha, pronta para servir.
Adelaide levantou o copo.
— Dizem que criei um filho bondoso. É verdade. O Ricardo sempre ajudou pessoas necessitadas. Vejam a Marta.
Os convidados olharam.
— Quando ele a trouxe, tinha uma mala, roupa barata e nada mais. O meu filho encontrou-a praticamente no lixo, lavou-a e fez dela uma mulher apresentável.
Alguns riram.
Marta olhou para Ricardo.
Ele murmurou:
— Não ligues. Ela está a brincar.
Adelaide continuou:
— Agora usa joias, trabalha num escritório e pensa que nasceu rica.
Marta levantou-se.
— Já que estamos a contar histórias, vou completar essa.
Adelaide sorriu.
— Agradece ao meu filho.
— Quando o conheci, trabalhava e pagava o meu quarto. O Ricardo vivia consigo e tinha dívidas. Fui eu que as paguei.
O sorriso desapareceu.
— O dinheiro para a nossa casa veio da herança da minha avó. A sua cozinha nova, as férias e esta festa também foram pagas por mim.
Ricardo levantou-se.
— Marta, chega.
— A tua mãe ainda não terminou de me humilhar. Por que razão eu tenho de terminar?
Ela mostrou os extratos.
— O Ricardo transfere dinheiro da nossa conta para a senhora todos os meses. Na semana passada usou as poupanças destinadas ao tratamento dentário da nossa filha.
— A mãe precisava, — disse ele.
— Para comprar uma televisão.
Adelaide bateu na mesa.
— O dinheiro do meu filho não te pertence!
— O dinheiro comum também é meu.
Ricardo tentou levá-la para a cozinha.
— Conversamos em casa.
— Em casa, pedes-me sempre para compreender.
— Vais estragar a festa.
— Não quero saber da festa depois de ela me chamar lixo diante de todos.
Adelaide apontou a porta.
— Sai da minha casa!
Marta pegou na mala.
— Com prazer. Mas desta vez lavem os pratos. A mulher que encontraram no lixo acabou o turno.
Dormiu em casa de uma amiga.
No dia seguinte abriu uma conta própria e reuniu documentos. Descobriu que as transferências eram muito maiores do que imaginava.
Ricardo pediu-lhe que regressasse.
— Vou impor limites à minha mãe.
— Devias tê-los imposto antes de ela aprender que podia insultar-me sem consequências.
Durante o divórcio, parte dos valores enviados a Adelaide foi considerada na divisão do património.
A sogra contou aos familiares que Marta destruíra o casamento por dinheiro. Nem todos acreditaram.
Meses depois, Ricardo admitiu:
— Eu sabia que a minha mãe exagerava. Só não queria discutir com ela.
— Então escolheste que fosse eu a sofrer para tu teres paz.
Marta começou uma vida mais simples. Tinha menos espaço e menos objetos, mas já não precisava justificar cada compra nem pagar para ser aceite.
No primeiro aniversário depois da separação, a filha perguntou-lhe o que queria de presente.
— Nada caro. Só quero sentar-me à mesa sem que alguém use o meu passado para me manter no meu lugar.
A filha abraçou-a.
E Marta percebeu que nunca fora resgatada pelo marido.
Durante anos, fora ela quem sustentara todos enquanto fingiam salvá-la.
