Levou a mãe para casa depois do hospital e descobriu que ela tinha oferecido o apartamento à irmã rica três anos antes

Levou a mãe para casa depois do hospital e descobriu que ela tinha oferecido o apartamento à irmã rica três anos antes

Marta releu o relatório médico. A mãe fora operada à anca e não podia viver sozinha. Precisava de apoio constante, fisioterapia e vigilância.

Dona Lurdes estava deitada na cama.

— Já telefonaste à Sofia?

— Bom dia, mãe.

— Não foi isso que perguntei.

Sofia vivia numa moradia enorme. O marido tinha uma empresa de importação, empregavam uma governanta e possuíam vários imóveis.

Marta morava com o marido num apartamento pequeno e trabalhava como contabilista.

Sofia respondeu apenas à noite.

— Estava no spa. O que aconteceu?

— A mãe sai amanhã. Não consegue ficar sozinha.

— Leva-a para tua casa. Tens um emprego normal.

— Trabalho oito horas.

— Mas não tens reuniões nem clientes importantes. Além disso, o Luís não suporta a forma como a mãe critica tudo.

— Paga metade de uma cuidadora.

— Agora não podemos. Estamos a trocar de carro.

O marido de Marta, Rui, ouviu o fim da conversa.

— A tua irmã recusou?

— Sim.

— Recebemos a tua mãe, mas não deixes que isto acabe contigo.

Dona Lurdes ficou na sala. Marta e Rui mudaram-se para o pequeno escritório.

Logo começaram as críticas.

— A casa é apertada.
— A comida está sem sal.
— Sofia tem uma cama elétrica.
— Rui vê televisão demasiado alto.

Marta trabalhava durante o dia e cuidava da mãe à noite. Começou a faltar ao emprego.

Uma cuidadora custava quase metade do ordenado do casal depois das despesas.

Sofia não quis contribuir.

— A mãe já está contigo. Para quê outra pessoa?

Na terceira semana, Dona Lurdes falou do próprio apartamento.

— Está vazio. Talvez se pudesse arrendar.

Marta ficou aliviada.

— A renda pagaria a cuidadora.

A mãe desviou os olhos.

— Não pode ser.

— Porquê?

— O apartamento já não é meu.

Rui pousou os talheres.

— Então de quem é?

— Da Sofia. Dei-lho há três anos.

Marta ficou sem voz.

— O apartamento inteiro?

— Ela precisava de um imóvel para garantir um empréstimo.

— A Sofia já tem duas casas.

— Tu sempre foste independente.

Marta sentiu uma raiva antiga.

— Ou seja, deste a casa a quem já tinha tudo e deixaste os cuidados para quem nunca pediu nada.

A mãe começou a defender a filha mais nova.

Marta telefonou-lhe imediatamente.

— O rendimento do apartamento vai pagar os cuidados da mãe.

— Não. Estamos a transformá-lo num alojamento turístico.

— E eu devo abandonar o emprego?

— És filha dela.

— Tu também.

Sofia desligou.

Marta procurou aconselhamento jurídico. Soube que uma doação poderia ser contestada em algumas circunstâncias, embora fosse um processo incerto.

Convocou uma reunião.

Colocou sobre a mesa três propostas:

— Pagamos a cuidadora em partes iguais. A mãe fica alternadamente nas duas casas. Ou vai para uma unidade de reabilitação paga principalmente pela proprietária do apartamento.

Sofia indignou-se.

— Estás a usar a mãe para me tirar o imóvel.

— Tu usas o imóvel enquanto eu pago a vida da mãe com o meu tempo e o meu salário.

Dona Lurdes chorou.

— Sou um peso para as minhas filhas.

Marta respondeu:

— Não és um peso. Mas os cuidados têm peso. Fingir que não têm só significa colocá-lo todo em cima de uma pessoa.

Sofia recusou receber a mãe. Acabou por aceitar pagar a maior parte da unidade de reabilitação.

Temia uma ação judicial e uma discussão pública na família.

Dona Lurdes mudou-se ao fim de um mês.

Nos primeiros dias telefonava várias vezes.

— Mandaste-me para um lar.

— Mandei-te para reabilitação. Continuo a visitar-te. Mas não posso destruir a minha vida para proteger a escolha que fizeste com o apartamento.

Rui e Marta recuperaram a sala e voltaram a dormir normalmente.

Ao fim de dois meses, Dona Lurdes já caminhava com apoio.

Certo dia perguntou:

— Achas que fui injusta contigo?

Marta demorou a responder.

— Sim.

— Pensei que não precisavas de ajuda.

— Eu precisava. Apenas aprendi cedo que ninguém viria se eu pedisse.

A mãe ficou em silêncio.

Sofia continuou a aparecer pouco. Levava flores caras e ficava vinte minutos.

Marta ia duas vezes por semana, mas deixou de resolver tudo sozinha. Quando a mãe precisava de algo que Sofia podia tratar, dava-lhe o número da irmã.

Mais tarde, Dona Lurdes foi para uma residência assistida. Parte do custo passou a ser paga com o rendimento do apartamento.

Marta nunca recebeu uma fração daquele imóvel.

Mas recuperou os fins de semana, o trabalho e o respeito do marido.

Durante anos chamaram-lhe „a filha forte“.

Ela compreendeu finalmente que, muitas vezes, essa expressão significa apenas: a filha a quem ninguém pretende ajudar.

Continuou forte.

Só deixou de ser conveniente.

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