Durante quatro anos suportou as piadas do companheiro sobre a menopausa. Uma frase dita às três da manhã levou-a a expulsá-lo de casa

Durante quatro anos suportou as piadas do companheiro sobre a menopausa. Uma frase dita às três da manhã levou-a a expulsá-lo de casa

Helena estava na cozinha com a camisa de dormir molhada. O rosto ardia, o cabelo colava-se ao pescoço e as mãos tremiam de frio.

Abriu a janela.

Ricardo apareceu com o telemóvel na mão.

— Outra vez? — perguntou. — És uma sauna ambulante.

Helena bebeu água.

— Devíamos pôr-te na varanda. Talvez arrefecesses e me deixasses dormir.

Ele riu-se.

Não parecia zangado. Parecia apenas aborrecido, como se o corpo dela fosse um aparelho avariado que insistia em incomodá-lo.

— Ricardo, arruma as tuas coisas.

Ele levantou os olhos.

— O quê?

— De manhã já não vives aqui.

— Estás louca?

— Não.

— Amanhã os teus hormónios acalmam e pedes desculpa.

Foi essa frase que terminou tudo.

Helena tinha cinquenta e seis anos. Conhecera Ricardo cinco anos antes numa festa de amigos.

Vivia sozinha havia muito tempo. Tinha uma filha adulta, trabalhava numa escola e possuía o apartamento onde morava.

Ricardo era divertido e atencioso. Fazia-a sentir novamente desejada.

Após alguns meses, disse que precisava de ficar em casa dela temporariamente porque o senhorio venderia o apartamento.

Nunca mais saiu.

Helena pagava as despesas principais. Ricardo comprava alguns alimentos e dizia que o amor não devia ser transformado em contas.

Durante dois anos viveram bem.

Depois começaram as alterações no ciclo, a insónia e as ondas de calor.

A médica explicou que Helena estava na perimenopausa.

Ela contou a Ricardo.

— Então já entraste oficialmente na fase de avó? — perguntou ele.

Helena não riu.

— Não gosto desse tipo de comentário.

— Não se pode brincar contigo.

As piadas continuaram.

Quando Helena abria as janelas, Ricardo dizia que a „central térmica“ estava ligada. Quando ela esquecia algo, falava de „memória de menopausa“. Se não queria intimidade, perguntava se „a loja tinha fechado“.

À frente dos amigos, contava histórias sobre as noites tropicais da casa.

Helena pedia-lhe para parar.

Ele respondia:

— Tu é que transformas tudo num drama.

Pouco a pouco, ela deixou de falar.

Mudava a roupa durante a noite sem fazer barulho. Escondia o cansaço e tentava controlar sintomas que não obedeciam à vontade.

Ricardo continuava confortável na casa dela. Esperava refeições prontas e roupa lavada. Contribuía pouco e comportava-se como se a sua companhia fosse pagamento suficiente.

Naquela noite, Helena percebeu que passara quatro anos a tentar provar que merecia respeito.

— Esta casa é minha, — disse. — Pedi-te muitas vezes para não fazeres essas piadas.

— Vais terminar tudo por causa de uma frase?

— Não. Esta foi apenas a última.

Ricardo enumerou tudo o que fizera: uma torneira reparada, viagens de carro, jantares pagos.

— Isso dá-te o direito de me humilhar?

— Vais ficar sozinha.

Helena sentiu medo. Durante anos temera exatamente isso.

Mas então percebeu que já se sentia sozinha ao lado dele.

— Sozinha não preciso de me defender dentro da minha própria casa.

Ricardo arrumou uma mala e foi para casa de um amigo. Acreditava que regressaria no dia seguinte.

Helena mudou a fechadura e colocou o resto das coisas em caixas.

Quando voltou, Ricardo ficou furioso.

— Não tenho onde ficar.

— Tens trabalho, amigos e um irmão.

— Esta também era a minha casa.

— Era a casa onde eu permitia que vivesses.

Durante algumas semanas Helena sentiu tristeza. Não queria Ricardo de volta, mas lamentava a relação que pensara ter.

Ao mesmo tempo, as noites tornaram-se mais leves.

As ondas de calor continuavam. Porém, podia levantar-se, trocar de roupa e abrir a janela sem ouvir risos.

Procurou outra médica, ajustou o tratamento e começou a caminhar com amigas.

Descobriu quantas mulheres escondiam os sintomas porque os companheiros tratavam tudo como exagero.

Ricardo escreveu dois meses depois:

„Não sabia que era assim tão difícil.“

Helena respondeu:

„Sabias que eu te pedia para parar. Isso devia ter sido suficiente.“

Um ano mais tarde encontraram-se por acaso.

— Estás com melhor aspeto, — disse ele.

— Sinto-me melhor.

— Ainda tens aqueles calores?

Helena olhou para ele.

— Tenho. Só já não tenho vergonha deles.

A menopausa não lhe roubara a dignidade.

O que quase a roubou foi a convivência com um homem que chamava amor à liberdade de rir da sua vulnerabilidade.

Helena pensara que expulsá-lo significaria escolher a solidão.

Na verdade, escolheu a paz.

E descobriu que a paz também aquece uma casa, mas nunca sufoca.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: