Cuidou da sogra durante anos enquanto os filhos se afastavam. Depois do funeral, começaram a discutir a venda da casa — até ela abrir a carta deixada pela idosa
Teresa casou com Rui há vinte e três anos.
A mãe dele, dona Amélia, vivia num apartamento antigo no Porto. Tinha vasos de ervas na varanda, loiça guardada para ocasiões especiais e uma cadeira onde o marido costumava ler o jornal.
Amélia tinha três filhos: Rui, Sofia e Nuno.
Depois da morte do pai, antigas discussões dividiram-nos. Sofia mudou-se para longe. Nuno vivia perto, mas quase nunca aparecia sem pedir alguma coisa.
Quatro anos antes, Amélia começou a perder a memória.
Teresa levou-a ao médico. O diagnóstico confirmou demência.
No início, bastava organizar os comprimidos e a comida. Depois Amélia começou a sair de casa sem saber regressar.
Mudou-se para casa de Teresa e Rui.
Rui trabalhava em turnos e ajudava quando estava presente. Teresa reorganizou a própria vida.
Dava banho à sogra, preparava alimentos macios e acordava durante a noite quando Amélia chamava pelo marido falecido.
Sofia telefonava de vez em quando.
Nuno dizia que não conseguia ver a mãe naquele estado.
Teresa também não conseguia.
Mas via.
Amélia morreu numa manhã tranquila, com Teresa ao lado.
Depois do funeral, os irmãos reuniram-se no apartamento.
Sofia falou primeiro:
— A casa deve ser vendida e o valor dividido pelos três.
Nuno já conhecia um agente.
Rui permanecia calado.
Teresa lembrou-se de uma grande carta que Amélia lhe entregara meses antes.
— Abre quando os três estiverem juntos, — pediu.
Dentro havia um testamento e uma carta manuscrita.
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