— Como assim não vais ao aniversário da minha mãe? Quem vai cozinhar e servir os convidados? — indignou-se o marido

— Como assim não vais ao aniversário da minha mãe? Quem vai cozinhar e servir os convidados? — indignou-se o marido

Carla pousou o garfo.

— Servir?

Paulo cruzou os braços.

— Não compliques. A mãe faz sessenta anos. Vêm quase trinta pessoas. Tu sempre organizaste tudo.

Carla sabia exatamente o que „tudo“ significava.

Há quinze anos preparava cada festa da família do marido. A sogra, Adelaide, escolhia o menu. Paulo prometia que Carla trataria do resto.

Ela chegava antes de todos e saía depois de todos.

Na última festa passara dez horas de pé. Quando tentou sentar-se, Adelaide chamou-a para preparar café.

— No sábado vou ao teatro com a Rosa, — disse Carla. — Temos bilhetes há dois meses.

— Cancela.

— Não.

Paulo olhou-a com surpresa.

— A mãe está a contar contigo.

— Sem me perguntar.

— Ela gosta de ti.

— Gosta de ter alguém que faça o trabalho.

— Estás a ser injusta.

— Injusto é chamar-me família enquanto todos comem e eu lavo pratos.

Paulo começou a falar de obrigação e respeito.

— O que vais fazer na festa? — perguntou Carla.

— Receber os convidados.

— Exatamente. Tu vais celebrar. Eu iria trabalhar.

No dia seguinte, Adelaide telefonou.

— O Paulo disse que não vens.

— Tenho outros planos.

— Já comprei os ingredientes para os teus pratos.

— Devia ter perguntado primeiro.

— Numa família ninguém precisa pedir autorização para tudo.

— Cozinhar para trinta pessoas não é „tudo“. É trabalho.

Adelaide ficou ofendida.

— Sempre te tratei como filha.

— A sua filha fica sentada à mesa enquanto eu sirvo.

A sogra desligou.

Até sábado Paulo tentou convencê-la. Primeiro pediu, depois fez-se de vítima e, por fim, disse:

— Se a festa correr mal, a culpa será tua.

Carla foi ao teatro.

Durante o espetáculo recebeu várias mensagens.

„Onde estão as travessas?“

„Quanto tempo fica o assado no forno?“

„A mãe está nervosa.“

„Ninguém quer ajudar.“

Carla desligou o telemóvel.

Quando voltou, Paulo estava na cozinha. Tinha a camisa manchada e os olhos cansados.

— Como correu?

— Muito mal.

Os convidados chegaram cedo. O assado ficou cru no centro. Faltaram pratos e ninguém queria lavar copos.

Adelaide passou a tarde a dizer que Carla a tinha abandonado.

— A mãe está furiosa.

— E tu?

— Podias ter preparado alguma coisa antes.

Carla ficou em silêncio por alguns segundos.

— Trabalhaste um dia e estás exausto. Eu faço isto há quinze anos. Mesmo assim, ainda procuras uma forma de me obrigar a fazê-lo novamente.

Paulo desviou o olhar.

— Sentaste-te alguma vez?

— Quase não.

— Comeste descansado?

— Não.

— Alguém agradeceu?

Ele não respondeu.

— Bem-vindo às minhas festas de família.

Uma semana depois, Adelaide quis repetir o almoço apenas com os parentes mais próximos.

Paulo afirmou que comprariam comida pronta e dividiriam as tarefas.

— A Carla cozinha melhor, — protestou a mãe.

— A Carla é convidada.

Dessa vez ele disse-o sem que a esposa precisasse estar presente.

Carla levou uma sobremesa comprada.

Adelaide olhou para a caixa.

— A tua é melhor.

— Talvez. Mas hoje não quis fazer.

Durante o almoço ninguém a chamou à cozinha. Paulo e o irmão levantaram os pratos. As cunhadas lavaram os copos. Tudo ficou limpo rapidamente.

Em casa, Paulo pediu desculpa.

— Pensava que gostavas de preparar as festas.

— Gosto de cozinhar quando escolho. Não gosto que ofereçam o meu tempo aos outros.

Nos meses seguintes, ele deixou de responder por ela.

Antes do Natal, Adelaide telefonou diretamente.

— Podes preparar apenas aquela salada? Se tiveres tempo. O resto será encomendado.

Carla percebeu o esforço existente naquela frase.

— Posso.

— E depois sentas-te connosco.

Carla sorriu.

Ela nunca quis deixar de ajudar.

Queria apenas que a ajuda fosse um gesto, não uma obrigação escondida atrás da palavra „família“.

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