# Felicidade Pura, Vinte e Três Semanas
Marina Castelo acordou às seis e vinte, sem despertador, sem pressa. Não era ansiedade. Era aquela sensação rara de que, finalmente, a vida tinha desacelerado o suficiente para caber num domingo de aniversário de casamento.
Ficou parada na janela do quarto, em Petrópolis, com uma caneca de chá de camomila esfriando na mão porque café estava proibido havia sete meses. Lá fora, a serra amanhecia com aquela neblina fina que só quem mora na Região Serrana conhece — e o cheiro de eucalipto molhado entrando pela fresta da janela. No quintal, as hortênsias que a mãe dela tinha ajudado a plantar estavam num azul quase artificial. Um vira-lata do vizinho, o Bolinha, latia pro nada, feito todo santo dia às seis e meia.
Ela passou a mão na barriga. Vinte e três semanas. Ainda achava estranho — essa ideia de que tinha uma pessoa inteira se formando ali dentro, uma menina que ela e o marido, Rodrigo, tinham decidido ter depois de quatro anos de casamento e uma dívida de financiamento que finalmente tinha ficado do tamanho de um cheque menor.
Lembrou da noite em que discutiram isso a primeira vez que pisaram naquela casa. Sentados no chão da sala, cercados de caixa de mudança, o dia em que assinaram o contrato. Rodrigo tinha olhado ao redor e rido.
— A gente conseguiu, hein.
— Conseguiu o quê?
— Construir uma coisa.
Na época ela achou que ele falava da casa. Do casamento. Da vida deles. Agora, sete meses depois, com a barriga pesando um pouco mais a cada semana, ela se perguntava se tinha entendido errado.
Porque nesse último ano alguma coisa mudou. Nada dramático. Nenhuma briga, nenhuma cena. Só coisas pequenas. Rodrigo continuava educado, gentil até, bem-sucedido — dono de uma rede de três lojas de material de construção que crescia rápido demais pro gosto dela. Mas vivia com o celular virado pra baixo na mesa. Vivia inventando reunião de fornecedor até dez da noite. Vivia cansado antes mesmo de chegar em casa.
Ela tinha se convencido de que era normal. Casamento muda. Empresa dá trabalho. Gravidez estressa todo mundo. Repetiu essas frases tantas vezes que quase acreditou. Quase.
— Marina?
Ela virou. Rodrigo estava na porta do quarto de terno cinza-chumbo, o mesmo que usava em reunião com banco. Bonito, tranquilo, do jeito que ela tinha se apaixonado onze anos atrás.
— Já são horas? — ela perguntou.
— Minha mãe ligou duas vezes. Quer todo mundo lá na Vovó Ceci antes do meio-dia.
O almoço de aniversário de casamento — quatro anos — ia ser na casa da avó dele, em Itaipava, com a família toda reunida: a mãe dele, Sueli, as duas irmãs, os primos, um leitão à pururuca que a tia Zilda prometia fazer desde fevereiro.
Marina calçou as sandálias, ajeitou o vestido florido que já não fechava mais atrás, e desceu com ele pra garagem. No caminho, dentro do carro, ainda no elevado da Washington Luiz, o celular de Rodrigo vibrou três vezes seguidas. Ele olhou de rabo de olho e desligou o som. Ela reparou. Não falou nada.
Foi só quando chegaram na chácara da avó, com o cheiro de carvão já subindo do quintal e as crianças correndo atrás de uma bola murcha, que a irmã mais nova de Rodrigo, Camila, puxou Marina pelo braço, discreta, atrás do galinheiro.
— Marina. Você sabe da Bruna?
— Que Bruna?
Camila hesitou. Aquele tipo de hesitação que já é resposta.
— A gerente financeira. Da loja do centro.
O estômago de Marina apertou de um jeito que não tinha nada a ver com a filha chutando.
— O que tem ela?
— Achei que você soubesse. Desculpa. Esquece que eu falei.
Mas não dava mais pra esquecer. O resto do almoço, Marina comeu pouco, respondeu com a cabeça pro tanto de gente que brindava "aos quatro anos e à pequena Alice que já vem chegando", e observou Rodrigo do outro lado da mesa, rindo com o pai, servindo cerveja, parecendo o marido perfeito que sempre foi na frente da família dele.
Voltando pra casa, à noite, ela não aguentou.
— Quem é Bruna?
Rodrigo tirou os olhos da estrada meio segundo a mais do que devia.
— Gerente da loja da Rua Teresa. Por quê?
— Camila comentou uma coisa. Meio sem jeito.
— Camila fala demais.
— Rodrigo.
Ele parou o carro na garagem, desligou o motor e ficou com as duas mãos presas no volante, os dedos brancos de tão apertados, um tempo comprido antes de falar qualquer coisa.
— Não é o que você tá pensando.
— Então me explica o que é.
E ele explicou, escolhendo as palavras como quem anda em cima de vidro. Fazia três meses. Começou numa viagem a Belo Horizonte, pra fechar contrato com um fornecedor de argamassa. Ele jurou que ia terminar. Jurou que não sabia como contar, principalmente agora, com a Alice a caminho.
Marina não gritou. Não chorou ali na hora. Ficou só sentada, uma mão em cima da barriga, ouvindo o Bolinha latir lá longe, três casas adiante, e pensando com uma clareza gelada que surpreendeu ela mesma: isso não vai ficar assim.
Nos dias seguintes, ela não fez cena. Não postou indireta, não ligou pra sogra chorando. Foi na Caixa Econômica de Petrópolis e puxou o extrato da conta conjunta — a que recebia o aluguel do apartamento que ela tinha herdado do pai, em Copacabana, e que ela, feito uma boba apaixonada, tinha colocado no nome dos dois "porque casamento é sociedade". Descobriu que nos últimos quatro meses Rodrigo tinha sacado, em espécie, pouco mais de trinta e oito mil reais — hotel, joalheria, um cartão de crédito adicional em nome da tal Bruna.
Foi na advogada, Dra. Heloísa Marchetti, escritório na Rua do Imperador, e levou tudo: extrato, print de mensagem que Camila mandou sem querer com o número certo dessa vez, foto do cartão adicional. Pediu separação de bens, guarda da filha e ressarcimento dos trinta e oito mil.
Um mês depois, marcaram a conversa final na sala de visitas da própria casa deles — ela quis assim, no território dela, com a barriga agora de vinte e sete semanas esticando o vestido. Rodrigo chegou achando que ia ser uma reconciliação; ela tinha pedido, afinal, pra ele "passar em casa antes de ir pra reunião".
Ele sentou no sofá de sempre. Ela ficou em pé, com uma pasta azul em cima da mesa de centro — a mesma mesa onde, quatro anos atrás, eles tinham brindado com espumante barato ao "construímos uma coisa".
— Assina aqui — ela empurrou a pasta. — Separação de bens, transferência do apartamento de Copacabana de volta pro meu nome, e o ressarcimento dos trinta e oito mil que você tirou da nossa conta pra bancar a Bruna. Já falei com a Dra. Heloísa. Ela já protocolou.
Rodrigo abriu a boca pra argumentar, fechou de novo. Olhou pro nome dele na assinatura, pro carimbo do cartório, pro número da conta bancária pra depósito.
— Marina, a gente pode conversar…
— A gente conversou. Você conversou com a Bruna por três meses. Eu tô conversando com você uma vez só, agora, e depois ligo pro cartório confirmar o registro.
Ele assinou. Não porque quis — porque não tinha como negar o extrato, nem a foto do cartão, nem o fato de que a casa onde estavam era construída em cima de um terreno que era dela, herdado, protegido por um pacto antenupcial que ele mesmo tinha sugerido "por questão fiscal" e que agora se voltava contra ele inteiro.
Duas semanas depois, o apartamento de Copacabana já estava de volta no nome dela, registrado em cartório. O dinheiro caiu na conta num boleto de acordo extrajudicial. Rodrigo mudou-se pra um apartamento alugado na Avenida Koeler, sozinho, porque a Bruna, sabendo que ele tinha ficado sem metade do que era dele e ainda devendo pensão, desapareceu num silêncio que dizia tudo.
Marina ficou na casa da serra. Trocou a fechadura — trocou mesmo, chamou o chaveiro na segunda seguinte, o Sr. Osvaldo, que trabalhava na rua há vinte anos e nem perguntou por quê. Sentou de novo na janela do quarto, agora sozinha, vendo as hortênsias da mãe balançando com o vento gelado que só desce da serra em setembro, uma mão na barriga, sentindo a Alice chutar forte, como se aprovasse.
