Era quase dez da noite quando Aline estacionou o Honda Fit prata na garagem do condomínio Parque das Figueiras, em meio a uma garoa típica de Porto Alegre. Ela estava exausta — passara o dia coordenando a reforma de uma loja na Zona Norte, e tudo o que desejava era um banho quente e um pouco de paz. Ao sair do elevador do décimo andar, porém, escutou vozes e risadas vindas do apartamento 1002. Música sertaneja tocava baixo, e um cheiro adocicado de bolo de milho escapava pela porta entreaberta. Ela franziu a testa — não havia convidado ninguém.
Girou a chave e empurrou a porta com cuidado. A sala estava um caos: pratos sujos, copos de caipirinha pela metade, restos de empadão de frango sobre a toalha que a avó bordara. Mas não eram amigos de Eduardo. Na cozinha, a voz estridente de Dona Marlene, a sogra, cortou o ar:
— …e a Renata sempre trazia o vinho que o pai gostava, uma moça tão atenciosa. Essa aí nunca dá valor às tradições da família.
Aline apertou a chave do carro na mão, sentindo o metal frio e a borda serrilhada contra a palma. Renata. O fantasma que a sogra insistia em trazer para dentro do apartamento que estava no nome de Aline — uma herança da tia-avó, reformada com cada real do próprio trabalho antes do casamento. Eduardo contribuía com as contas, mas a escritura não deixava dúvidas.
Ela respirou fundo e foi até a cozinha. Lá estavam: Dona Marlene, com um avental de florzinhas de loja barata, os pais da Renata — um casal de idosos que ela mal conhecia — e Eduardo, encostado na pia com uma taça de vinho tinto Casillero del Diablo, o semblante tenso. Assim que viu Aline, a sogra abriu um gesto que pretendia ser acolhedor, mas Aline conhecia bem a máscara:
— Ah, chegou! Estávamos aqui comentando como a Renata cozinhava bem. O empadão que ela fazia era imbatível.
Aline não devolveu cumprimentos. Foi até o armário, pegou a garrafa de água Puríssima da geladeira e tomou um gole. Depois pousou a garrafa sobre o balcão de granito e disse, com uma calma que a surpreendeu:
— Dona Marlene, o apartamento é meu. Não convidei os pais da Renata. E não vou tolerar mais comparações com uma pessoa que nunca fez parte da minha vida. O Eduardo já foi casado, passado. Mas esta casa é minha, e quem decide quem entra ou sai sou eu.
A sogra arregalou as pálpebras, como se tivesse levado um choque.
— Mas que audácia! Você está na frente do meu filho falando assim comigo? Eu vim aqui celebrar o aniversário dele! E os pais da Renata são amigos da família.
Eduardo tentou intervir:
— Amor, a mãe não falou por mal…
Aline o interrompeu:
— Pare com isso, Eduardo. Você ouviu quantas vezes sua mãe me comparou com a Renata? Todas as vezes que pisa aqui. E você nunca me defendeu.
Ela se virou para a sogra:
— Agora, a senhora vai pegar suas coisas, os convidados vão embora, e se eu vir qualquer um de vocês de novo aqui sem meu consentimento, chamo a administração do condomínio e registro invasão de domicílio. Não estou brincando.
A sogra ficou roxa de raiva. Encarou Eduardo à espera de apoio. Mas Eduardo baixou a cabeça e disse:
— Mãe, é melhor vocês irem. Depois a gente conversa.
Os pais da Renata, constrangidos, pegaram os casacos e saíram resmungando. Dona Marlene bufou, arrancou o avental e atirou em cima da mesa. Antes de sair, cuspiu:
— Você está botando meu filho contra a família. A Renata jamais faria isso.
Aline não respondeu. Sem esperar que todos saíssem, ela pegou a chave do Honda novamente e disse a Eduardo:
— Vou dar uma volta. Quando eu voltar, quero este apartamento livre de qualquer lembrança da sua ex-mulher. Você decide se fica ou vai com sua mãe.
E saiu, fechando a porta num clique seco que soou mais assustador do que um estrondo.
Eduardo ficou parado, a taça de vinho ainda na mão trêmula. A quietude que se instalou na sala era cortante. Ele respirou fundo, puxou o celular e ligou para a mãe.
— Mãe, a Aline tem razão. Você passou dos limites. Eu amo ela, e não vou permitir que fiquem trazendo a Renata para o nosso casamento. Se você não respeitar minha esposa, vai perder o filho também.
Do outro lado da linha, Dona Marlene choramingou, tentou argumentar, mas ele foi firme. Desligou e começou a arrumar a casa. Lavou a louça, jogou as sobras no lixo, e foi até o quarto onde, numa gaveta escondida, a mãe guardara algumas fotos da Renata, como relíquias. Ele as pegou e rasgou uma a uma, os pedaços caindo na lixeira de inox. Depois sentou-se no sofá, à espera de Aline.
Quase à meia-noite, ela entrou. O cabelo preso num coque frouxo estava salpicado de garoa. A expressão menos tensa. Viu a casa arrumada — o pano úmido sobre a mesa de jantar, a lixeira cheia de retalhos brilhantes de fotografia. Eduardo levantou-se, a postura abatida.
— Eu errei, Aline. Por muito tempo. Mas escolhi você. Minha mãe já sabe que não quero mais esse assunto. E eu… eu lembrei qual é o seu bolo favorito.
Ele apontou para a caixa da Padaria Pão & Companhia sobre o balcão. Dentro, um bolo de fubá cremoso, ainda morno, com cobertura de queijo derretida, que custara R$ 37,90. Aline encarou a caixa, depois o marido. Pegou uma faca, cortou uma fatia fina e a colocou num prato. Não comeu. Sentou-se à mesa, as costas eretas, e ficou observando os fios de chuva batendo na janela.
Ele permaneceu de pé, sem saber o que dizer.
Três meses depois, numa quarta-feira, às 15h40, o interfone tilintou. Aline estava na cozinha passando um café quando a voz metálica de Dona Marlene preencheu o ambiente:
— Aline? Posso subir? Trouxe umas violetas para você.
Aline demorou alguns segundos. Largou a cafeteira, limpou as mãos no pano de prato e respondeu: "Sobe."
Pouco depois, a sogra entrou no apartamento carregando um vaso de violetas e uma bolsa de couro bege. O gesto era ensaiado, a máscara de cordialidade evidente.
— Aline, eu vim me desculpar. Sei que fui injusta, fiquei presa no passado. Aceita estas flores? São violetas, descobri que você gosta.
Aline pegou o vaso e colocou-o sobre a mesa de centro, ao lado de um porta-copos de madeira. Não convidou a sogra a sentar.
— Obrigada pela lembrança. Mas o passado não some com um vaso, dona Marlene. A senhora ainda compara, ainda fala dela. Hoje mesmo, antes de subir, não comentou com o porteiro sobre a "época da Renata"?
A sogra enrubesceu e começou a girar a aliança de viúva no dedo.
— Foi sem querer, um comentário bobo. Eu só queria dizer que você é melhor do que ela, juro.
— Não precisa. Não quero ser comparada a ninguém. Sua presença aqui ainda carrega o nome dela, e isso me sufoca.
Nesse instante, a porta se abriu e Eduardo entrou, mais cedo que o habitual — o relógio na parede marcava 16h50. Ele carregava uma pasta e parou ao ver a mãe. O rosto dele se contraiu.
— Mãe, o que você está fazendo aqui? — perguntou, largando a pasta no sofá.
— Eu vim me desculpar, filho. Trouxe violetas. Não quer que eu faça as pazes com sua esposa?
Aline cruzou os braços.
— Sua mãe veio de surpresa, Eduardo. E já mencionou a Renata para o porteiro.
Eduardo passou a mão pelo cabelo, encarando a mãe e depois a esposa.
— Mãe, você tinha prometido não tocar mais nesse assunto.
— Mas foi só um comentário! Vocês estão exagerando. A Renata também sempre me tratou com carinho, não vejo mal nenhum em lembrar.
Aline apoiou as mãos na bancada da cozinha, os dedos branquearam na borda de granito. A voz continuou controlada.
— Está vendo? É exatamente isso. Para a senhora, ela ainda é presente. A cada visita, a cada frase. E você, Eduardo, o que vai fazer?
Ele hesitou, os ombros tensos. Mirou a mãe, que o fitava com expectativa, e depois a esposa, cujo rosto estava duro como mármore.
— Mãe… talvez seja melhor você ir agora. Depois a gente conversa com calma.
A sogra abriu a boca para protestar, mas Aline ergueu a mão.
— Não, Eduardo. Chega de "depois". Você já falou isso outras vezes, e ela continua invadindo nosso espaço, nosso tempo, nosso casamento. Eu preciso de uma decisão, não de adiamentos. Se você não consegue dar um basta definitivo, então eu vou tomar a decisão sozinha.
Eduardo permaneceu mudo, a expressão atordoada. A sogra, percebendo que perdera a disputa, pegou a bolsa.
— Tá bom, tá bom. Eu vou. Mas não se esqueça de que sou sua mãe, Eduardo. E um dia você vai se arrepender de ser tão ingrato.
Ela saiu batendo a porta. A atmosfera no apartamento condensou-se num vácuo. Aline foi até a mesa, pegou as violetas e, sem se virar para o marido, jogou o vaso no lixo da cozinha. O ruído seco do plástico contra os talos quebrados ecoou.
— Aline… — começou Eduardo.
Ela o interrompeu:
— Você não precisa falar nada. Só reflita sobre o que realmente quer. Eu não vou viver à sombra da sua ex-mulher, nem aturar sua mãe a vida toda. Se não houver mudança verdadeira, eu peço o divórcio.
Ele a encarou, e percebeu nos olhos dela uma firmeza inédita, seca, que o fez baixar os ombros. Ela pegou a bolsa e a chave do carro.
— Vou buscar um bolo de fubá na Pão & Companhia. Quando voltar, espero que você tenha pensado. Se não, vou dormir na casa da minha irmã.
E saiu, deixando-o sozinho com o eco do clique da porta, o vaso de violetas quebrado no lixo e o cheiro de café queimado que subia da cafeteira esquecida.
