Quando ouvi o gato da minha vizinha chorar durante duas noites diante da porta dela, percebi que a senhora Margarida não voltari

Quando ouvi o gato da minha vizinha chorar durante duas noites diante da porta dela, percebi que a senhora Margarida não voltaria.
Vivo num prédio antigo em Coimbra, onde se ouve quase tudo, embora pouco se saiba sobre as pessoas que vivem ao lado.
Ouvem-se passos no andar de cima.
Uma tosse através da parede.
Sacos de compras pousados na bancada.
Chaves no corredor depois de um longo dia.
Mas quase todos vivem fechados no seu próprio mundo.
A senhora Margarida Lopes vivia no quarto andar, mesmo por cima de mim.
Era uma mulher idosa de cabelo branco e macio, chinelos e casacos de malha em cores que os anos tinham desbotado. Movia-se devagar, mas não com fraqueza. Parecia ter aprendido que certas coisas não devem ser apressadas.
Quando nos encontrávamos junto às caixas do correio, sorria sempre.
«Boa tarde, Inês. Está tudo bem consigo?»
Ela esperava verdadeiramente pela resposta.
Tinha um pequeno gato cinzento e branco que costumava sentar-se junto à janela sobre uma almofada amarela. Durante muito tempo, nem sequer soube o nome dele.
Sabia apenas que, quando Margarida estava em casa, ele parecia tranquilo.
Depois deixei de a ver.
Não havia luz sob a porta.
Não se ouviam passos.
Nem tosse.
Nem a televisão abafada através do teto.
No início pensei que estivesse com a filha. Talvez tivesse ido ao hospital por alguns dias. Talvez eu simplesmente não a tivesse visto.
Depois ouvi o choro.
Começou numa noite, quando regressava do trabalho.
Fino.
Agudo.
Persistente.
Subi e encontrei o gato diante da porta.
Olhou para mim uma vez e virou novamente a cabeça para a fechadura.
Como se eu não tivesse importância.
Como se ainda esperasse pela única pessoa que era o seu mundo inteiro.
Na primeira noite desci.
Convenci-me de que alguém resolveria tudo até de manhã.
No dia seguinte, ele continuava lá.
E na noite seguinte também.
A mesma porta fechada.
O mesmo pequeno corpo no corredor.
A mesma queixa, só mais fraca.
Ao lado da parede havia uma tigela vazia.
Mais tarde apareceu no corredor a almofada amarela da janela. O gato apertou-se contra ela como se quisesse regressar à vida que tinha desaparecido.
Foi isso que me partiu.
Não apenas o choro.
Não apenas a fome.
A espera.
Levei-o para casa.
Não resistiu. Não arranhou. Era assustadoramente leve.
Deixei água, comida e espaço.
Escondeu-se atrás do sofá.
Não comeu.
Experimentei atum.
Nada.
Comida húmida.
Nada.
Quando coloquei a almofada amarela perto do sofá, ele saiu por alguns instantes. Deitou-se encostado a ela e ficou imóvel.
Foi então que percebi.
Ele não estava apenas assustado.
Estava de luto.
Levei-o ao veterinário. Estava fisicamente enfraquecido porque quase não comia, mas não tinha nenhuma doença grave.
O veterinário olhou para mim e disse:
«Os gatos sofrem em silêncio. Às vezes tão silenciosamente que as pessoas nem percebem como estão mal.»
A frase ficou comigo.
Provavelmente porque muitas pessoas fazem o mesmo.
Trabalhamos.
Pagamos contas.
Respondemos a mensagens.
Lavamos roupa.
E dizemos que está tudo bem.
Voltei para casa com um estimulante de apetite e algumas instruções.
Mas sabia que aquilo era apenas parte do problema.
O que lhe faltava não podia ser colocado numa tigela.
Precisava de voltar a sentir-se seguro.
Tirei alguns dias de folga.
Não o obriguei a vir ao colo. Não tentava tocar-lhe a toda a hora.
Não queria acelerar o luto dele só porque o silêncio era difícil para mim.
Fiquei simplesmente ali.
À noite sentava-me no chão e falava de coisas sem importância.
Da chuva.
Da máquina de café avariada.
Do vizinho do rés-do-chão que batia sempre a porta do carro com demasiada força.
«Ainda não tens de confiar em mim,» dizia.
«Estou aqui.»
Durante dias nada mudou.
Depois notei que os olhos dele me seguiam quando eu atravessava a sala.
Na manhã seguinte pus um pouco de comida no dedo.
Ele olhou durante muito tempo.
Depois lambeu uma vez.
Comecei imediatamente a chorar.
Não porque tudo tivesse ficado bem.
Mas porque, por um instante, algo dentro dele se movera novamente em direção à vida.
Depois foi devagar.
Começou a comer sozinho.
Deixou de se esconder o dia inteiro.
Dormiu primeiro na almofada amarela, depois junto ao sofá e, finalmente, na outra ponta do sofá.
Numa noite de trovoada, saltou para junto de mim e pousou a cabeça sobre a minha mão.
Tão levemente que quase não senti.
Como se quisesse saber se eu falara a sério quando disse que ficaria.
Num antigo boletim veterinário encontrei o nome dele.
Chamava-se Tobias.
Mantive-o.
Não tentei apagar Margarida da memória dele.
O amor não funciona assim.
Às vezes Tobias ainda se senta diante da antiga porta.
Eu deixo.
Depois regressamos juntos.
Agora tem uma tigela cheia, um lugar quente e uma casa onde já não precisa de esperar no corredor para saber se alguém se esqueceu dele.
Pensei que estava a salvar um gato em sofrimento.
Na verdade, ele também salvou alguma coisa em mim.
Depois de perder a minha irmã, continuei a trabalhar e a viver como se estivesse bem.
Tobias ensinou-me que o luto não precisa sempre de respostas.
Às vezes precisa apenas de presença.
De alguém que fique.
De alguém que esteja lá no dia seguinte.
🥰 A continuação da história está nos comentários. Partilhem os vossos sentimentos e pensamentos depois da leitura.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: