O Que as Paredes Não Apagam

Dona Clara casou com seu Zé quando ainda tinha tranças e ele, um bigode ralo que tentava esconder a timidez. Aconteceu em Santa Rita da Serra, cidadezinha onde o cheiro de goiabada cascão se mistura com a poeira vermelha das ruas de terra. Foi um casamento sem placa de igreja, só no civil, na sala da casa da mãe dele, com bolo de fubá e refrigerante quente. No meio dos abraços, a sogra — uma mulher de pescoço fino e olhos que nunca sorriam — puxou Clara pelo braço até o quartinho dos fundos.

— Presta atenção no que eu vou te dizer, menina. Uma coisa só. Não deita nunca brigada com teu marido. Nunca. Podem ficar a noite inteira acordados, rosnando, engolindo sapo. Mas se resolvam antes de encostar a cabeça no travesseiro. O dia seguinte depois de uma briga não resolvida é veneno puro. Uma noite vira duas, vira um costume, e quando você vê, já dormem de costas faz trinta anos.

Clara guardou aquilo como quem guarda um cordão de ouro no fundo da gaveta. Zé era marceneiro. Tinha as mãos grossas, cheias de calos que cortavam a madeira como se fosse manteiga, mas a língua era de fogo. Quando se irritava, esbravejava, batia o chapéu na parede e ia fumar um cigarro de palha no quintal, atrás do pé de acerola. Mas nunca, em todos os anos, pisou na cama sem antes pedir desculpas.

A primeira briga feia foi por causa de uma chaleira. Sim, uma chaleira azul que Clara viu na feira. Zé disse que não, que o dinheiro era curto, que a velha ainda servia. Ela fechou a boca e ficou lavando os pratos em silêncio, a boca apertada num bico duro. Ele saiu batendo o portão e sumiu na oficina. Quando voltou, já passava da meia-noite, o sereno cobria as telhas de musgo e o lampião pingava querosene na pia. Trouxe nas mãos um embrulho de jornal. Não era a chaleira azul — era uma concha de feijão, comprida, de madeira clara, torneada por ele mesmo, com o cabo lisinho feito sabão.

Clara olhou e ficou muda.

— Viu? Não é azul, mas é nova. Foi o que deu pra fazer.

Ela não conseguiu responder. Passou o dedo pela curva lisa da madeira e sentiu o cheiro de óleo de peroba. Zé sentou no degrau da cozinha e Clara foi até lá, ficou ao lado dele um tempão, até o galo cantar.

A vida não foi um mar de rosas. Perderam um filho pequeno, o Miguel, levado por uma enchente quando o rio atrás do bairro explodiu de lama. Zé ficou semanas sem falar, os olhos fixos na rua, rolando um cigarro atrás do outro. Clara virava a noite sentada na beirada da cama, esperando ele sair do casulo escuro que a dor constrói. Não tinha palavras. Mas uma madrugada, sem que ninguém dissesse nada, Zé se deitou, virou para o lado dela e apoiou a testa cansada nas costas de Clara. Ficaram assim, respirando juntos, até adormecerem. Foi o jeito deles de não se entregarem ao veneno.

Depois veio a fase em que Zé se perdeu na cachaça. Não era de brigar bêbado, era do tipo que ficava mudo, a garrafa escondida atrás das latas de thinner na oficina. Clara, em vez de gritar, fez pior: toda noite, ao sentir o hálito azedo, virava para a parede e se enrolava no lençol como numa mortalha. Zé, por mais zonzo que estivesse, não aguentava o silêncio cortante dela.

— Ô, Clarinha… deixa disso.

— Vai dormir.

— Olha… amanhã eu paro.

— Quantas vezes eu já ouvi isso, Zé? A próxima eu marco num papel e enrolo nessa garrafa.

Ele ficou quieto, fungando. Mas na manhã seguinte, a garrafa amanheceu no lixo. Teve recaídas, três ou quatro, mas nunca dormiu sem antes pedir paz.

Os filhos cresceram. Quatro. Um foi pro Paraná, outro pra capital, os outros sumiram no mundo. A casa, que antes tremia com correria pelo corredor, agora ecoava o tique-taque do relógio de parede da sala. E foi justo quando o silêncio se instalou que o corpo de Clara começou a falhar. Aos setenta e oito, o coração, que parecia uma máquina de costura velha, começou a ratear. Primeiro uma falta de ar subindo a ladeira da igreja. Depois uma pontada fina que a fez largar a vassoura no meio do quintal. O doutor do posto olhou os exames e disse que era caso de internar no hospital regional. Santa Rita não tinha estrutura.

Zé, aos oitenta e três, com as juntas emperradas e uma tosse que não sarava, passou a pegar dois ônibus por dia. Saía antes do sol nascer, ainda com o café preto fervendo no fogão, e voltava depois que a lua já tinha subido. Levava sempre um saco de papel pardo com mangas cheirosas, daquelas que pintam de amarelo na árvore do quintal.

Na enfermaria, Clara observava as olheiras fundas do marido, os dedos que tremiam na hora de descascar a fruta. Foi aí que, no sexto dia, ela criou coragem.

— Zé, não vem mais.

Ele parou com a faca cega pairando sobre a manga.

— Como assim?

— Você está se matando. Olha pra você. Tá acabado. O ônibus treme, o banco é duro, o motorista parece que tá fugindo da polícia toda vez que pega aquela curva do rio. Vai morrer na estrada.

— Tá me expulsando do teu quarto de hospital?

— Tô cuidando de você.

— Cuidando? — ele deixou a manga cair na bandeja de plástico. — Cuidar é você ficar boa logo e voltar pra casa.

— Eu não vou voltar tão cedo, Zé. Você sabe, eu sei. E eu não quero que você se acabe por minha causa.

Zé ficou de pé, o rosto manchado de vermelho, a barba branca de três dias pinicando de raiva. A bengala de castanheira, encostada na cama, quase escorregou no piso frio.

— Sessenta anos, Clara. Sessenta anos e você acha que eu vou ficar em casa esquentando o banco da cozinha? Não vou. Não vou, e acabou.

— Me escuta…

— Não. Você me escuta. Eu acordo todo dia, vejo seu chinelo vazio do lado da cama e já me falta o ar. O resto do dia eu fico esperando a hora de vir pra cá. Você quer tirar isso de mim?

— É por amor, Zé.

Ele pegou o chapéu de feltro, amassado de tanto uso, e saiu sem dizer mais nada. A porta do quarto bateu. A senhora da cama ao lado, com a cabeça enfaixada, fingiu que estava dormindo. Clara ficou olhando para o soro pingando, a conta-gotas. O coração batia pesado, um som surdo e espaçado que parecia a batida de um pilão.

Lá fora, o céu de julho despejava uma garoa fina e gelada. Zé se arrastou até o ponto de ônibus, o corpo doendo, a raiva fervendo no peito. "Ela acha que eu sou de papel. Sessenta anos. Sessenta anos, e a mulher me diz 'não vem mais'". O banco de cimento estava molhado, o vento cortava as frestas da camisa de flanela. Ele esperou quarenta, cinquenta minutos. O ônibus não passou. Uma moça que vendia bilhete de loteria na esquina gritou: "O circular quebrou, tio! Ficou parado na garagem!".

Anoiteceu de vez. A praça do hospital ficou deserta, só as luzes amareladas dos postes e o barulho da água escorrendo nas calçadas. Não havia táxi, não havia carro de aplicativo. A seis quilômetros dali, a casa de Zé esperava, com a janela do quarto aberta e o chinelo de Clara jogado no tapete.

Zé sentiu os olhos arderem. Não era só a friagem. Era o desespero de uma regra que ele carregava como ferro em brasa. "A gente nunca dormiu brigado. Nunca." Ele olhou para o asfalto molhado, para as próprias botinas furadas. Levantou-se, apoiando as duas mãos na bengala.

E começou a andar. De volta ao hospital.

O trajeto era uma serpente de ruas esburacadas. Passou pela borracharia fechada, com seus pneus empilhados feito gente morta. Passou em frente à padaria que já tinha apagado as luzes. Atravessou a passarela de pedestres, onde o vento chicoteava mais forte, trazendo cheiro de terra molhada e eucalipto. A garoa virou chuva. A chuva encharcou o feltro do chapéu, escorreu pelo pescoço enrugado, entrou pelas botinas. Zé tossia, um pigarro fundo que vinha do peito, mas as pernas, por mais bambas, não paravam. Na cabeça, só um pensamento martelando: "Tomara que ela não tenha dormido. Tomara."

Chegou na portaria do hospital quase onze da noite. O segurança, um rapaz gordo que mexia no celular, levantou os olhos.

— Visita já encerrou, vovô. Só amanhã às oito.

— Filho, eu preciso subir.

— Não pode. Regra da casa.

Zé tirou o chapéu encharcado, torceu-o nas mãos. As gotas caíram no chão de granito, formando uma poça. As mãos estavam roxas de frio, as juntas dos dedos brancas. Ele encarou o rapaz e, com a voz que não saía forte, mas firme como uma raiz de figueira, disse:

— Moço, tem mais de sessenta anos que eu entrei nessa vida com uma mulher. E desde o primeiro dia, a gente nunca, nunca dormiu virado de costas um pro outro. Valeu chuva, valeu filho morto, valeu fome, valeu cachaça que quase levou. Tudo isso a gente consertou antes de apagar a luz. Hoje à tarde eu briguei com ela. E eu não vou deitar hoje enquanto não falar com ela. Não vou. Pode me deixar no corredor, mas eu não saio daqui.

O segurança coçou a nuca. Olhou para o velho, para a bengala tremendo, para a mancha de terra na barra da calça. Suspirou fundo e pegou um papel.

— É a dona Clara, da cardiologia?

— É.

— Sobe. Mas fala baixo. Se a supervisora ver, eu tomo advertência.

Zé subiu as escadas devagar, degrau por degrau, arrastando a perna esquerda. Quando chegou no quarto, encontrou Clara de olhos abertos. Ela não tinha dormido. Estava ali, parada, olhando para a porta. Ao ver o marido entrando, pingando, com o chapéu na mão e os olhos vermelhos, a boca dela tremeu.

— Ô, Zé… mas você não tem juízo, homem?

— Não, não tenho. Tá frio ali fora?

— Eu te disse pra não vir. Eu teimei pra você não vir.

— E eu teimei mais — ele se aproximou, apoiou a bengala na cama, pegou na mão dela. Sentiu os dedos frios e finos. — Clarinha, me desculpa. Tá? Eu exagerei. Mas eu não posso ficar longe.

— A culpa não é sua. A culpa é desse coração que não me obedece.

— Não fala isso.

— Eu não queria que você me visse assim. Apagando. Por isso eu pedi pra você não vir. Se eu for embora, Zé, não quero que a última coisa que você veja seja essa cama de hospital.

Zé sentou na cama, o peso do corpo afundando o colchão. Passou a mão no cabelo ralo dela, empapado de suor. Do bolso, tirou o saco de papel pardo. A manga dentro dele estava amassada, mas ainda cheirosa.

— Você não vai a lugar nenhum hoje. Nem hoje, nem amanhã. E quando você tiver que ir, eu vou estar bem aqui. Com a mão na sua mão. Mas a gente só vai deitar quando fizer as pazes.

Clara sentiu o polegar dele acariciar o dorso de sua mão e deslizou o indicador sobre o anel de casamento dele, um aro fino e gasto, riscado de tantos anos. Ficou em silêncio, só o chiado do soro e a respiração ofegante de Zé. Depois, ela puxou o ar e murmurou uma coisa que ele não esperava.

— Zé, o doutor disse que eu posso ir pra casa na sexta.

— Verdade?

— É. Ele passou hoje de manhã. Se eu tomar os remédios, se ficar quieta… posso terminar o tratamento em casa.

— Então isso aqui acabou — ele bateu a mão no lençol fino. — Sexta você tá em casa.

— Mas Zé…

— Que Zé o quê. Sexta eu venho buscar. Arrumo o dinheiro do táxi de alguma forma. Você vai voltar.

Clara respirou fundo, sentindo uma pontada no peito. Olhou nos olhos dele, que estavam gastos, mas não apagados. Uma lágrima solitária correu pelo canto do rosto e se perdeu no travesseiro.

— Vai, sim. E você vai comer a comida que eu fizer. Não vai mais ficar beliscando pão velho pra economizar.

— Tá doido? Vou comer tudo. Até o que sobrar na panela.

Na sexta-feira, Clara recebeu alta. Zé chegou cedo, a bengala mais firme do que nos últimos dias. No bolso da camisa, um envelope amassado com cento e oitenta reais — a aposentadoria do mês, contada e recontada para pagar o motorista. Ele fez questão de carregar a sacola dela, pequena e leve, com uma muda de roupa e os remédios.

Quando o carro parou em frente à casa, o sol de inverno iluminava os tijolos aparentes do muro. O pé de acerola estava cheio de frutinhas alaranjadas. Zé abriu a porta, ajudou Clara a descer, e antes que ela pudesse reclamar do degrau, ele a puxou para um abraço desajeitado, apoiando-se mais nela do que ela nele.

— Pode entrar. A cozinha tá limpa. Eu varri e passei pano. Até troquei a água do filtro.

— Fez mais do que eu esperava.

— Fiz. E tem mais. Olha ali.

Sobre a mesa da cozinha, em cima de uma toalha de crochê, estava a concha de feijão. A mesma de madeira clara que ele fizera décadas atrás. Ao lado dela, um envelope novo, de papel verde.

— Que isso?

— Abre.

Clara abriu. Dentro, dois bilhetes de passagem de ônibus. Ida para a capital, data marcada para dali a quinze dias, num sábado, com o nome dela e dele escritos à mão.

— Comprei com o dinheiro que ia gastar indo e voltando do hospital. Achei melhor — ele disse, a voz sumindo na garganta. — Você sempre quis ver a exposição de orquídeas no Jardim Botânico. Eu nunca te levei. Agora eu vou levar. Quinze dias você descansa, quinze dias você toma os seus comprimidos. No sábado, a gente vai.

Clara segurou o envelope contra o peito por um instante, sentindo o papel áspero na palma da mão. Depois ergueu os olhos para Zé, que esperava com as sobrancelhas arqueadas, aflito.

— Você é teimoso — ela disse. — Sessenta anos dessa teimosia.

— E você aguentou.

— Ainda aguento mais quinze dias. Pode deixar.

Ele sorriu, os dentes falhados aparecendo, e foi pegar o bule para pôr o café. Lá fora, o vento balançava as acerolas e o galo do vizinho cantou, sem saber que não era hora. E ninguém naquela casa foi dormir brigado naquela noite.

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