Rodrigo balançava a cabeça enquanto observava o vulto preto e peludo saltar a jardineira que dividia a varanda. O gato nem olhou para trás.
— Seu traidor! — ele resmungou, com a voz carregada de um drama tão genuíno que sua esposa, Clara, soltou uma risada abafada da cozinha. — Eu fui até outra cidade buscar você, Faruk. Outra cidade! Peguei estrada de terra, enfrentei poeira, quase atropelei uma capivara gigante que atravessou a pista de madrugada. Encarei os zoológicos mais perigosos do estado de São Paulo para tirar você das garras de um tigre de dentes-de-sabre! E você agora me abandona pela casa da Ana Luísa?
O gato, um exemplar majestoso de pelo negro e brilhante que atendia pelo nome de Faruk, espreguiçou-se no parapeito da varanda da casa ao lado. Ele bocejou, exibindo uma coleção de dentes afiados, e começou a se lamber com a maior despreocupação do mundo. A casa, um sobrado geminado em Pinheiros, tinha as varandas conjugadas, separadas apenas por um canteiro longo de azaleias. Do outro lado, morava Ana Luísa, a filha de Rodrigo, com o namorado, o Gustavo.
— Você está com ciúmes do seu próprio gato, Rodrigo — Clara surgiu na moldura da porta, enxugando as mãos num pano de prato. Ela sorria, mas nos olhos havia uma ponta de curiosidade.
— Ciúmes? Eu? Olha isso. — Ele enfiou o celular na frente do rosto da esposa. A tela mostrava um vídeo granuloso, filmado por Ana Luísa. Na gravação, Faruk, o gato que em casa ignorava solenemente o sachê de salmão importado, estava deitado de barriga para cima no tapete da sala da filha. Ele atacava uma tira de linguiça toscana defumada como se fosse a última criatura viva do planeta. Seus olhos verdes brilhavam de gula. — Em casa ele não come isso. Aqui, se eu ofereço um pedaço, ele me olha como se eu tivesse oferecido veneno.
— Talvez o Gustavo tempere melhor — provocou Clara, voltando para seus afazeres, completamente alheia à crise existencial do marido.
Rodrigo bufou. Não era só a comida. Era o comportamento. Faruk, um gato de quatro anos que ele resgatara filhote, coberto de sarna, embaixo de uma caminhonete em um sítio em Atibaia, sempre fora seu companheiro. Nos momentos de tristeza, o gato se aninhava em seu colo. Mas agora? Agora Faruk passava as tardes inteiras na varanda da Ana Luísa. Ele brincava com uma pena pendurada num cordão, um brinquedo idiota que Rodrigo já tentara replicar mil vezes sem sucesso. Ele atendia por apelidos ridículos que o Gustavo inventava. Seu Faruk, seu parceiro, seu xodó, se entregara de bandeja para os vizinhos.
Tinha alguma coisa errada. Não era só migalha de linguiça no chão. Havia uma coceira na mente de Rodrigo, uma sensação de que o gato estava tentando lhe dizer algo. Faruk nunca abandonava a Cleópatra, a gata siamesa que morava com eles. Os dois eram unha e carne. Ver Faruk abrir mão da companhia da siamesa para ficar babando no tapete do Gustavo era como ver a lei da gravidade falhar. Não fazia sentido.
A resposta veio numa terça-feira, às três horas da manhã.
Rodrigo acordou com um som que gelou o sangue na espinha. Não era um miado. Era um urro gutural, profundo, um lamento que parecia vir das entranhas da noite. Faruk estava plantado no meio da cama, as pupilas dilatadas como poços negros, todo o pelo do dorso eriçado. Ele soltou outro uivo, um som tão primitivo que fez Cleópatra acordar num salto e correr em círculos, miando fino e desesperado.
Clara estava de plantão aquela noite no hospital. Rodrigo estava sozinho.
— Que isso, Faruk? O que foi, filho? — Ele sentou-se, desnorteado, o coração batendo na garganta. Ainda grogue, procurou os chinelos, não achou, saiu descalço pelo corredor. Um cheiro de queimado? Não, nenhum. Inundação? A parede estava seca. O gato não parava de uivar. Ele correu para a sala e então, como um raio, Faruk disparou em direção à porta que dava para a varanda.
Rodrigo o seguiu. O ar frio da madrugada bateu em seu rosto. Faruk pulou na jardineira, olhou para trás, os olhos como duas lanternas verdes na escuridão, e urrou de novo. Era um comando. Vem.
Rodrigo passou uma perna sobre o parapeito, raspou o joelho num vaso, xingou, mas continuou. A varanda da casa de Ana Luísa estava escura. A luz da lua entrava pela cortina fina, desenhando sombras trêmulas no chão de cerâmica.
Ele a viu. Ana Luísa estava caída no chão, a poucos passos da cama. O braço esticado, os dedos rígidos tentando alcançar a malinha de insumos médicos na prateleira baixa. Um som horrível, um chiado seco, saía de sua garganta. Na cama, a silhueta de Gustavo parecia uma montanha adormecida. Ele ressonava tranquilamente, sem ouvir o chiado, sem ouvir o gato uivando na sua própria janela.
— Ana! — Rodrigo cambaleou até a filha, o desespero dando um soco em seu estômago. Crise de diabetes. Ele conhecia os sinais; Clara, como médica, já o instruíra dezenas de vezes, por precaução.
Num movimento bruto, ele acendeu a luz e chacoalhou Gustavo pelo ombro.
— Acorda! Acorda, moleque! Hipoglicemia!
Gustavo caiu da cama mais do que levantou, os olhos arregalados, sem entender nada. Rodrigo já estava com Ana Luísa nos braços, tentando sentá-la. A maleta foi aberta com dedos trêmulos. O glucagon. O medidor. As mãos de Rodrigo falharam na primeira tentativa de puxar o êmbolo da seringa. Ele xingou. Gustavo, ainda zonzo, conseguiu segurar a cabeça da namorada enquanto Rodrigo aplicava a injeção. Foram segundos de um silêncio fúnebre antes que o chiado começasse a ceder. A cor foi voltando ao rosto pálido da filha, do mesmo jeito que um papel branco molhado começa a ganhar transparência.
Uma ambulância rasgou o silêncio da rua minutos depois. Enquanto os paramédicos ajeitavam Ana Luísa na maca, sua voz saiu fraca, mas viva.
— O Faruk?
Rodrigo olhou para a varanda. O gato preto estava sentado, imóvel, na jardineira. Ele lambia a pata com uma serenidade absurda, como se não tivesse acabado de arrancar uma vida das garras da morte. Cleópatra, do outro lado do canteiro, observava tudo com os olhos azuis semicerrados.
Depois daquele dia, Rodrigo nunca mais reclamou. Ana Luísa voltou para casa na tarde seguinte, ainda fraca, mas com um brilho novo no olhar. Ela sabia. Gustavo também sabia. Ele agora olhava para o gato preto com uma reverência quase religiosa.
Faruk, por sua vez, voltou à rotina. Mas era uma rotina diferente. Dez, doze vezes por dia, ele saltava a jardineira. Vinha para casa, dava uma cabeçada no nariz de Cleópatra, lambia sua orelha, e então, como se cumprisse um protocolo inegociável, provocava uma briga. A siamesa revirava os olhos — sim, juro que revirava —, dava um tapa no focinho do herói, e os dois saíam numa correria endiabrada, derrubando porta-retratos, arranhando o tapete, fazendo a casa tremer.
Numa tarde de domingo, com o sol entrando preguiçosamente pela janela, Rodrigo estava sentado no sofá. Faruk dormia no tapete, de barriga para cima. Cleópatra estava enrodilhada no seu peito.
— Presta atenção, Cleópatra — ele sussurrou, alisando a cabeça da gata. — Eu preciso te contar a verdadeira história de como eu consegui esse gato.
A gata abriu um olho.
— Eu dirigi até o fim do mundo. A estrada acabou, e eu continuei dirigindo na terra. Cheguei num castelo sombrio, guardado por urubus gigantes do tamanduá de três metros de altura. Lá dentro, o Faruk estava preso num trono de osso. Eu lutei. Dei voadoras, esquivas, golpes de judô e até usei um chicote de couro. O dinossauro cuspiu fogo, mas eu me protegi com um escudo de tampa de bueiro. Eu arrisquei minha alma, Cleópatra, para trazer o herói para casa.
Faruk abriu um olho verde. Olhou para a gata e soltou um miado curto, como quem diz “viu só, sua besta, com quem você está casada?”. Cleópatra fechou os olhos de novo, com a suprema indiferença de quem divide a casa com uma lenda.
Meio segundo depois, ela se espreguiçou, desceu do colo de Rodrigo e deu uma patada violenta na cabeça de Faruk. O gato preto se levantou num pulo, ofendido, e a perseguição recomeçou. O barulho de correria, miados de guerra e latas caindo no chão da cozinha explodiu pela casa inteira.
Rodrigo se ajeitou no sofá, puxou a almofada e fechou os olhos. Um sorriso quieto ainda brincava nos cantos da sua boca enquanto os heróis da casa destruíam a sala.
