O retorno do Caramelo

Seu Antônio mal conseguia subir os três degraus da varanda, mas fez questão de recusar a mão da filha. O joelho ainda doía da cirurgia, e o coração batia meio frouxo no peito — como se tudo nele tivesse ficado mais arrastado. A primeira palavra que ele pronunciou, antes mesmo de passar a porta, foi:

— Caramelo!

Nenhum som veio de dentro. Nem as unhas do cachorro no piso, nem o rabo batendo na parede, nem aquele meio-latido rouco que ele dava toda manhã.

— Cadê o cachorro? — ele repetiu, já com outro tom.

Roberta surgiu da cozinha com um saco de lixo azul na mão. A camiseta branca manchada de gordura. Ela não ergueu o rosto para o pai.

— Fugiu, pai. Aproveitou o portão aberto e sumiu.

— Fugiu… — Antônio se apoiou no batente e sentiu a tontura. — Mas o Caramelo não ouve mais direito, nem enxerga longe. Como que ele ia fugir?

— Foi o que aconteceu. Nós procuramos por tudo quanto é lugar.

Antônio examinou a sala. Sobre a mesa de centro, sacolas de grife com roupas novas que ele não reconhecia. A velha poltrona de couro onde ele lia o jornal estava coberta com um plástico preto, como se estivesse à venda. No canto, o cobertor xadrez que era do Caramelo desde filhote não estava mais no lugar.

Ele entrou na cozinha e notou que a vasilha de água, aquela velha tigela de ágata com o nome do cachorro pintado à mão pela esposa, já não estava perto da geladeira.

— E a tigela?

— A gente aposentou. Tava triste de ver o negócio lá vazio — respondeu Roberta, cutucando com o pé o saco de lixo. — É melhor você descansar, pai. A médica mandou evitar estresse.

Antônio não respondeu. Foi até o quarto e abriu o guarda-roupa. Parte das suas camisas estava dobrada dentro de caixas de papelão. As fotos da falecida esposa no criado-mudo tinham sumido, e os livros de medicina que ele colecionava haviam sido empilhados no corredor, como se fossem tralha.

Quando voltou para a sala, o filho Marcelo chegara. Trazia um café na mão e falava ao celular sobre uma proposta de compra de imóvel. Desligou rápido ao ver o pai.

— Que proposta é essa? — Antônio perguntou.

— Depois a gente conversa. Você tá pálido.

— Eu tô pálido porque vocês sumiram com o cachorro. E eu quero saber onde ele tá.

A filha cutucou o irmão com o cotovelo, num gesto nervoso. Antônio conhecia aquele jeito de esconder coisa errada — era o mesmo das crianças quando aprontavam algo na garagem.

— Tá numa clínica — murmurou Marcelo.

— Que clínica?

— De resgate, pai. Um abrigo bom, fora da cidade. A gente achou que você não ia dar conta do bicho depois da cirurgia. Ele tá velho, sofre das patas, precisa de cuidados especiais…

Antônio sentiu o sangue fervendo, mas a voz saiu baixa, quase um fio:

— Vocês levaram meu cachorro para o abrigo enquanto eu tava no hospital?

— Foi pro bem dele. E pro seu também.

— Com que direito? Ele tem dono. Tem casa. Tem nome.

— Tem nome e tem treze anos de muito pelo no sofá. O veterinário já tinha dito que a artrose ia piorar…

— A artrose dele eu tratava todo santo dia. Vocês nunca deram um comprimido pra ele.

Roberta jogou o saco de lixo no chão com violência e a costura arrebentou. De dentro escorregou o cobertor xadrez — limpo, dobrado, cheirando a amaciante. Antônio se abaixou com dificuldade, pegou o cobertor e o levou ao nariz. Ainda havia um tufo de pelo amarelo preso na trama.

— Se ele fugiu — a voz do velho tremeu — por que vocês lavaram e enfiaram o cobertor no lixo?

Ninguém respondeu. Lá fora, um carro de propaganda de gás passou berrando o preço do bujão, e o galo do seu Agenor cantou no quintal vizinho. Antônio apertou o cobertor contra o peito e decidiu:

— Eu vou achar ele. Se for a última coisa que eu fizer.

Nos dias seguintes, ele ligou para todos os abrigos e ONGs que encontrou na lista telefônica. Sem o número do chip do Caramelo, ninguém conseguia localizar o animal. Marcelo repetia que era melhor deixar o bicho ir, que agora podiam vender a casa e comprar um apartamento menor. Roberta concordava e evitava encarar o pai.

Uma semana depois, Antônio acordou com um barulhinho de unhas arranhando a porta da frente. O coração disparou. Foi abrir e, quando viu aquele corpo magro, sujo, com um pedaço de guia azul pendurada no pescoço, as pernas dele bambearam.

Caramelo deu dois passos e desabou nos pés do dono, a cabeça entre as patas. Ao lado do cachorro, uma mulher baixinha, de jaqueta amarela fosforescente e uma prancheta na mão, fez uma careta de desculpas.

— Ele percorreu uns vinte quilômetros, seu Antônio. Achamos perto da rodovia, quase na entrada de Jundiaí. Tava desidratado, mas o chip salvou. O endereço veio certinho.

Antônio se ajoelhou — a perna estalou, mas ele nem ligou. Passou a mão trêmula no pelo ensebado do cachorro.

— Meus filhos levaram ele pra um abrigo.

— Eu sei — a mulher mostrou a primeira página da prancheta. — Só que na ficha eles escreveram que o proprietário era falecido e que o imóvel estava em processo de venda. Aí a gente estranhou. Porque o senhor não só tá vivo como o seu filho, o Marcelo, entrou com um pedido de interdição naquele mesmo dia.

Antônio fixou os olhos na mulher da jaqueta, depois no oficial que descia do carro, e a ficha caiu de vez.

— Interdição?

— Sim. É um processo judicial pra declarar uma pessoa incapaz de cuidar dos próprios bens. Ele anexou um laudo médico da sua internação. A gente só ficou sabendo porque o oficial de justiça ia inspecionar a casa e eu vim junto.

Nisso, um homem de terno, com uma pasta preta, se dirigiu à varanda. Roberta, que observava pela janela, segurou o braço do irmão — a cor da pele dela foi de branca a cinza em três segundos.

Tudo se encaixou como gavetas de um velho armário: os móveis cobertos, as roupas nas caixas, a pressa de vender a casa, o cachorro eliminado como um estorvo. Não era apenas crueldade com o bicho. Era um plano meticuloso para tomar tudo o que ele havia construído com a falecida esposa.

O oficial pediu licença e entrou, enquanto Marcelo tentava gaguejar explicações. Roberta já choramingava, mas Antônio não ouvia mais nada. Sentou na soleira, puxou Caramelo para perto e apoiou a testa no focinho quente do cão.

O cachorro, mesmo arreado, levantou a pata e arranhou de leve o braço do dono — o mesmo gesto de sempre, quando pedia biscoito.

— Você andou vinte quilômetros, né, bicho? — murmurou Antônio, com um meio riso cansado. — Trouxe a verdade nas costas.

Caramelo abanou o rabo, batendo no cimento da varanda, enquanto o sol da manhã esquentava as telhas. Lá dentro, o oficial pedia documentos e Roberta repetia que era tudo um mal-entendido.

Mas na soleira, um homem e seu cachorro já tinham resolvido tudo. Nenhum dos dois ia largar o outro de novo.

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