A Avó sem Obrigações

Antonela embalava a Lili no colo, sentindo o cheirinho doce de leite morno e talco que saía da cabecinha suada da filha. O apartamento estava um forno. Em pleno janeiro em Belo Horizonte, o ventilador de teto só fazia espalhar o ar quente, e o barulho do motorzinho girava junto com os pensamentos martelando na cabeça dela.

*Eu fui pedir ajuda pra Dona Sueli. Pra ela. Era mais fácil ter ido na Feira Hippie e pedido pro cara da barraca de pastel segurar a Lili enquanto eu tomava um banho.*

O choro da pequena tinha diminuído para um soluço manhoso depois de quase uma hora no colo. Parecia que Lili sentia o cheiro de gente estranha em casa e ficava elétrica. E Dona Sueli, a sogra, tinha mesmo o talento de sugar toda a energia vital de um cômodo só de entrar nele.

Antonela olhou para o relógio na parede da sala. Quinze para as seis. Daqui a pouco o Henrique chegaria do trabalho, e ela teria que explicar o que aconteceu. A água da panela no fogão já estava fervendo para o purê de batata-doce da Lili. Ela precisava terminar o jantar, dar banho na menina, esterilizar as chupetas e, se desse um milagre, tomar um banho de mais de três minutos antes de desabar na cama. Mas antes de tudo isso, ela precisava respirar.

O problema é que ultimamente nem respirar ela conseguia sem sentir um peso no peito.

A história da família da Antonela nunca foi fácil. Criada só pela avó, Dona Dirce, em um sobradinho geminado no bairro Concórdia, ela aprendeu cedo o que era se virar. A mãe biológica, que ela chamava pelo nome mesmo, Rosana, tinha sumido no mundo quando a menina tinha dois anos. O pai, um caminhoneiro que passava mais tempo na estrada do que em casa, mandava algum dinheiro esporadicamente, daqueles que davam pra comprar o gás e o básico do mês. Mas era só.

Quem segurava as pontas era Dona Dirce. Costureira de mão cheia. O barulho da máquina Singer ecoava noite adentro naquele quartinho dos fundos enquanto a velha ajustava barras de vestidos de festa para as madames do bairro de Lourdes. Foi ela quem ensinou Antonela a cozinhar um frango com quiabo decente, a pregar uma bainha invisível e a nunca, jamais, depender financeiramente de homem nenhum. "Homem a gente ama, minha filha. Não precisa. Precisa, não."

Antonela carregou essa lição a ferro e fogo. Faculdade de Administração na PUC Minas com bolsa de 100%, enquanto trabalhava de garçonete num restaurante de comida mineira na Savassi. Dona Dirce já estava frágil naquela época. Um enfisema pulmonar que foi corroendo a resistência dela aos poucos. Nos últimos dois anos da faculdade, Antonela virou oficialmente a chefe da casa. O dinheiro da bolsa-auxílio e as gorjetas pagavam os remédios caros. A faculdade ia ficando de lado; as noites em claro eram divididas entre os livros de gestão e os lençóis suados de febre da avó.

Ela conheceu Henrique na fila do bandejão do campus. Ele estudava Engenharia Civil. Um garoto alto, de risada alta e sandália de couro, daquelas que entregam que o cara veio de um universo diferente. Ele ficava constrangido quando ela insistia em dividir a conta do motel ou do cinema. "Deixa que eu pago, Tom, você não precisa fazer isso." "Eu sei que eu não preciso", ela respondia, tirando da carteira um punhado de notas amassadas. "É que eu quero."

Dona Dirce morreu numa quarta-feira cinzenta de agosto. Uma semana antes da defesa do TCC da neta. No dia da apresentação, Antonela passou um batom vermelho, o único que tinha na penteadeira, para disfarçar a palidez do rosto. Ela foi a primeira da família a ter diploma de curso superior. Na plateia, nenhum parente. Só o Henrique, batendo palmas como um doido.

Ela se casou com ele um ano depois, ainda com a aliança simples que custou três meses de salário do noivo. E foi aí que Antonela percebeu que tinha casado não só com o Henrique, mas com o fantasma elitista da Dona Sueli.

A sogra era professora aposentada de Literatura Brasileira na UFMG. Uma mulher de sessenta e poucos anos, sempre envolta em blusas de linho caras e colares de prata artesanal. Cheirava a livro velho e a um perfume importado que Antonela não sabia pronunciar o nome. Era o tipo de pessoa que citava Clarice Lispector para justificar um egoísmo e chamava qualquer esforço doméstico de "prisão patriarcal do lar".

Dona Sueli nunca foi agressiva diretamente. Ela era pior. Era condescendente. Olhava para a nora com a mesma ternura distraída que se dedica a um cachorro vira-lata que fez um truque engraçado. Antonela, para ela, era a roceirinha que tinha dado sorte.

"Ah, AntoneLINHA (ela fazia questão de esticar o diminutivo como se falasse com uma criança), que milagre você ter cozinhado uma moqueca tão honesta sem nunca ter ido à Bahia!" Ou então: "Não precisa se desculpar por não conhecer Machado. A literatura de qualidade exige uma bagagem, né? Não é pra qualquer um."

Era sutil. Afiada. E sempre com um sorriso doce no rosto.

Quando Lili nasceu, com aqueles olhos enormes de jabuticaba, Antonela sentiu o mundo desabar e se reconstruir ao mesmo tempo. O parto foi uma violência, a recuperação foi pior. Os pontos inflamaram, o leite demorou a descer, e a coluna parecia uma pilha de cacos de vidro toda vez que ela se abaixava para dar banho na banheirinha.

Ela não dormia há quatro meses. Não dormia de verdade. Dormia em intervalos de quarenta minutos, sempre com um olho aberto, sempre com o monitor de bebê chiando ao lado. O cabelo, que antes era um black power volumoso e cheio de vida, agora vivia escondido debaixo de uma touca de cetim surrada. Ela não lembrava a última vez que tinha feito as unhas dos pés.

Henrique ajudava. Claro que ajudava. Mas ajudar, na cabeça dele, era segurar a menina por vinte minutos enquanto a esposa corria para lavar as fraldas de pano. Ele não percebia que a pia estava cheia, que o lixo do banheiro precisava ser tirado ou que a ração do gato tinha acabado. Ele era um bom moço, mas foi criado num apartamento onde a empregada passava todos os dias e a mãe só aparecia para jantar, sempre com um livro debaixo do braço.

E foi por puro cansaço que Antonela pediu ajuda.

Naquela tarde, enquanto Lili finalmente dormia no carrinho ao lado da mesa de jantar, Dona Sueli apareceu de surpresa. Ela nunca avisava. Dizia que era "um hábito europeu de fazer visitas espontâneas". Trazia um bolo de fubá da Mercearia do Lourdes dizendo que era um "agrado caseiro", mas Antonela sabia que ela tinha comprado pronto e tirado do plástico.

A sogra estava impecável. Calça de alfaiataria, sandália plataforma, os cabelos grisalhos presos num coque impecável. Antonela, ao lado dela, era um fantasma. Shorts de malha puídos e uma blusa da Amaro manchada de papinha nos ombros.

— Ah, AntoneLINHA… — a velha cantarolou, depositando o bolo na mesa como se fosse um troféu. — Você está com uma cara horrível hoje, hein?

Antonela sentiu a contração no estômago, mas respirou fundo.

— É que a Lili teve cólica de madrugada, Dona Sueli. Acho que dormi umas duas horas só.

— Nossa, que absurdo! — a sogra levou a mão ao peito, no crucifixo que balançava no colar. — Você tem que descansar, minha filha. A pele agradece. Mas olha, vim correndo porque estou sem tempo.

Antonela ofereceu um café frio. A mulher fez uma careta e pediu água com gás. Sentou na poltrona da sala, a sacra poltrona de veludo verde que havia sido presente de casamento dela mesma para o filho, e cruzou as pernas.

Começou a falar da viagem que faria para Capitólio na próxima semana, das amigas do clube do livro, da nova edição comentada de "Grande Sertão: Veredas" que ela estava organizando para uma editora de São Paulo. Falou por quase meia hora sem parar. Em nenhum momento se ofereceu para pegar Lili no colo.

No fundo do sofá, perto do braço da velha, estava o exemplar de "A Hora da Estrela" que ela havia dado de presente para Antonela quando a menina nasceu. Um presente passivo-agressivo. "Pra você ir se cultivando enquanto ela dorme." O livro estava no mesmo lugar há meses, com o marcador ainda na página nove. Dona Sueli pegou o livro, suspirou fundo, um suspiro de mártir, e o recolocou na mesinha de centro como quem deposita flores num túmulo.

Antonela olhou para aquele livro. Sentiu a raiva subindo do estômago até a garganta, ácida.

— Dona Sueli… a senhora não quer segurar ela um pouquinho? Só pra eu poder tomar um banho rápido? — a voz saiu mais frágil do que ela gostaria.

A sogra arregalou os olhos, puxando a manga da blusa de linho, como se a neta fosse uma substância corrosiva.

— Ai, querida, hoje não dá. Eu não posso me sujar. Minha manicure chega no salão em meia hora, eu vim só dar um beijinho. Mas você precisa se organizar melhor. Criança sente quando a mãe está nervosa. Se você lesse um pouco de Freud…

Foi a gota d'água. Não a gota da raiva, mas a gota do cansaço. Antonela não gritou. Ela não tinha energia para gritar. Ela apenas pegou a menina no colo, sentindo o peso quente do corpo minúsculo contra o seu peito.

— Tá bom. A senhora vai lá então. Boa manicure.

— Você está brava? — Sueli parou, segurando a alça da bolsa cara, um ar de incredulidade no rosto. — Por que? Porque eu não posso ser babá? Antonela, olha só, se eu quisesse criar filho de novo, eu teria tido outro. Em vez disso, eu fiz o Henrique. Aliás, eu fiz o Henrique e deleguei a criação. Sabe por quê? Porque eu tenho um doutorado. Eu não nasci pra ser coadjuvante de fralda suja.

— Eu também não nasci.

— O quê?

— Eu também não nasci pra ser coadjuvante. Mas a Lili é a minha protagonista agora. E eu não tô pedindo pra senhora ser babá. Só tô pedindo ajuda. Coisa que a minha avó faria sem eu nem pedir. Por humanidade.

O termo pairou no ar como um tapa silencioso. Dona Sueli estreitou os olhos. Ela não se ofendia com grosserias. Ela se ofendia com verdades.

— Eu não vou me prestar a esse papel, Antonela. Ser avó não é ser escrava. E você, com essa idade, ainda acreditando nessa ladainha de "família unida", isso é muito provinciano.

Ela foi embora batendo a porta, deixando um rastro de perfume chique e desprezo.

Agora, com o apartamento em silêncio e o sol se pondo atrás dos prédios da Contorno, Antonela se sentou no chão frio da sala, encostada no sofá. Lili dormia no tapete de EVA, cercada de almofadas. Ela pegou o celular e encarou a tela.

A vontade era de chorar. De se arrastar para o quarto e nunca mais sair. Mas embaixo do cansaço, uma centelha teimosa acendeu. A voz da Dona Dirce sussurrou lá no fundo, num chiado que parecia o som da velha Singer: *Homem a gente ama. Precisa, não. Isso vale pra sogra também, minha filha.*

Ela não precisava de Dona Sueli. Ela nunca tinha precisado. O que ela precisava era de um parceiro. E se o Henrique não entendesse isso agora, ele nunca entenderia.

Quando a chave girou na fechadura, sete da noite, Henrique entrou carregando uma mochila e com a expressão de quem já sabia da encrenca. A mãe, obviamente, já tinha ligado. Ele caminhou até a sala com o andar pesado de quem tem medo da briga.

— Tom?

— Senta aqui. Preciso falar uma coisa e você vai ouvir até o fim.

Ele obedeceu, sentando no sofá. Antonela continuou no chão. Ela não ia levantar. Ela precisava estar ali, com os pés no chão, literalmente, para falar.

— Sua mãe veio aqui. Não, não foi por falta de educação que ela me tratou mal. Foi por excesso de sinceridade. Ela deixou claro que não vai fazer nada pela neta. Não é "não pode". É "não quer". E eu aceito. Não vou obrigar ninguém a amar a minha filha.

— Tom, olha… eu sei que ela é difícil…

— Não me interrompe. O buraco é mais embaixo, Henrique. Eu casei com você. Eu amo você. Mas eu não casei pra viver sozinha com a nossa filha enquanto você tem uma vida normal e eu me desintegro aqui dentro. Sua mãe não vai ajudar. Tá certo. E você? Até quando você vai se esconder atrás da sombra dela?

O silêncio dele foi a pior resposta possível nos primeiros três segundos. Ele coçou a nuca, olhou para as próprias sandálias. A noite caiu lá fora, deixando o céu roxo como hematoma.

— Eu achei que eu tava ajudando — ele murmurou, por fim. — Eu levo o lixo pra fora.

— Tirar o lixo e dar comida pro gato não é ajudar a criar um filho. É ser um adolescente prestativo. Eu não dormi de novo. Minha gengiva tá sangrando de estresse. Eu não lembro a última vez que eu senti o gosto da comida. Eu amo a Lili, mas eu não vou sobreviver a esse primeiro ano desse jeito.

Ela esperou a defesa. A explosão. Mas ele não explodiu. Ele franziu a testa. A luz do abajur cortava as maçãs do rosto dele, e pela primeira vez em meses, ele não desviou o olhar.

— O que você quer fazer? — ele perguntou.

— Dinheiro.

— Hein?

— Nós dois trabalhamos. Se a sua mãe acha que cuidar de criança é subemprego, ótimo. Vamos pagar alguém que não acha. A Luísa, que trabalhou com a mãe da Bia, tá livre. Quatrocentos reais por semana, de manhã. Isso me dá tempo de ir ao dentista, de cozinhar com calma, de respirar.

— Eu não queria colocar uma estranha dentro de casa…

— Mas você queria deixar sua mãe me humilhar? Não, Henrique. A estranha vai ser paga para me ajudar. Sua mãe não faz isso nem de graça.

Ele respirou fundo, e então fez algo que ela não esperava. Ele escorregou do sofá e sentou no chão ao lado dela. Pegou a mão dela. A mão áspera, com cutículas levantadas e uma unha lascada.

— Você tem razão… Eu liguei pra ela no carro, quando ela me contou a versão dela. Eu disse que ela nunca mais pisa aqui sem ser convidada. Disse pra ela que a minha família agora é você e a Lili. E que se ela não consegue gostar de você, ela que finja pelo menos pela neta.

Antonela piscou. O cansaço era tanto que demorou alguns segundos para aquelas palavras fazerem sinapse.

— Você falou isso? Com a boca?

— Falei. E ela quase infartou. Disse que eu era um mal-agradecido. Que a lavadeira já tinha me enfeitiçado. Sabe como é. Mas eu desliguei. E vim pra casa.

Antonela soltou uma risada. Uma risada fraca, trêmula, que se transformou num choro que ela nem sabia que estava represado. Encostou a cabeça no ombro do marido, sentindo que ele estava sólido.

Lili acordou com o barulho e soltou um gorjeio alegre, como se soubesse que a guerra tinha acabado.

Era só um começo. Dona Sueli não mudaria da noite para o dia. Na semana seguinte, no almoço de família, ela fez questão de ignorar Antonela e servir apenas o filho. Mas a nora não se importou mais. Porque quando voltaram para casa, quem estava lá era a Luísa, com um sorriso largo e a paciência dos anjos.

Enquanto Antonela tomava um banho de vinte minutos, sem interrupções, com o vapor soltando a tensão das costas, ela ouviu ao longe o som da televisão na sala. Henrique estava mostrando um desenho para a filha, que batia palmas gordas no ar.

Ninguém falou em Clarice Lispector. Ninguém falou em Hegel. Só o barulho do chuveiro e a certeza tranquila de que, dali pra frente, a família era ela quem ia ditar as regras.

Ela fechou os olhos sob a água quente e, por um segundo, sentiu o cheiro de bolo de fubá da Dona Dirce. Não de um bolo comprado na mercearia, mas de um bolo feito em casa, daqueles que levam erva-doce e afeto. Sorriu sozinha, esfregando os cabelos.

Amanhã, pensou, vou sair da dieta e fazer bolo. Só pelo gosto.

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