— Achas mesmo que, só porque se casaram, eu sou obrigada a servir-te o pequeno-almoço enquanto ficas a ver o telemóvel?
Eu estava à porta da cozinha, com um pano nas mãos, a olhar para Júlia. Ela estava sentada à mesa, de robe, com um auricular no ouvido, a mexer no telemóvel e à espera de café por entrega.
No meu apartamento.
O apartamento que eu e o meu marido pagámos durante dez anos.
— Vera Ivanovna, bom dia, — disse ela, sem tirar o auricular. — Estou a preparar-me para um seminário. E Valentim disse que podia fazer os ovos sozinho.
— Valentim trabalha desde as oito. Tu levantas-te perto do meio-dia.
Pousei à frente dela a conta das despesas.
— Este mês não contribuíste com nada. Mas pediste comida três vezes e deixaste as caixas na cozinha até cheirarem mal.
Júlia sorriu.
— Foram vocês que nos convidaram a viver aqui. Não é culpa minha se a sua hospitalidade tem condições.
Nesse momento Valentim entrou.
— Mãe, o que se passa?
Júlia encostou-se logo a ele.
— A tua mãe está outra vez a humilhar-me. Quer que eu deixe os estudos e vire empregada da casa.
— Eu não disse isso.
Valentim franziu a testa.
— Mãe, combinámos não interferir na vida uns dos outros.
Na vida uns dos outros.
Na minha cozinha. Com a minha loiça. As minhas contas. A minha máquina de lavar cheia da roupa deles.
Meia hora depois voltei com uma pasta.
— Já que se consideram hóspedes, vamos fazer um acordo de residência.
Júlia sentou-se direita.
— Que acordo?
— Simples. A partir do próximo mês pagam um terço das despesas. Compram a vossa comida. Lavam a vossa roupa. Limpam a cozinha depois de usar. Uma vez por semana limpam as zonas comuns. Eu não sou cozinheira, lavadeira nem hotel gratuito.
Valentim ficou pálido.
— Mãe, isso é exagero.
— Não. Exagero foi eu calar-me até agora.
Júlia riu-se.
— Isto é controlo tóxico.
— Não, Júlia. Tóxico é viver na casa dos outros sem respeito e chamar agressão a um pedido para lavar um prato.
Esperei que Valentim a defendesse. Mas ele pegou no papel, leu e disse:
— A mãe tem razão.
Júlia olhou para ele.
— Como assim?
— Casámos. A minha mãe não nos adotou. Eu também me habituei: camisas limpas, pequeno-almoço, frigorífico cheio. Mas isso não aparece sozinho.
Pela primeira vez, vi o meu filho perceber.
Júlia chorou.
— Então estão a expulsar-me?
— Não. Estou a dar-vos uma escolha. Viver aqui como adultos ou procurar casa.
Três semanas depois alugaram um estúdio pequeno. Longe, simples, com cozinha apertada. Mas deles.
Valentim veio depois do primeiro mês.
— Mãe, desculpa. Eu não percebia quanto fazias.
— Percebias. Só chamavas isso de normal.
Júlia veio mais tarde, sem auriculares, trazendo uma salada.
— Vera Ivanovna, fui arrogante. Pensei que limites eram só os meus.
Não nos tornámos próximas de imediato. Mas aceitei o pedido de desculpa.
Agora vêm ao domingo. Como visitas. Trazem algo, ajudam a pôr a mesa, lavam a loiça.
E eu voltei a sentir-me dona da minha casa.
Porque ajudar os filhos é amor.
Mas ser empregada gratuita de adultos não é amor.
É uma fronteira que precisa de ser lembrada.
🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.
