André Mendonça conferia os preparativos para o coquetel de inauguração do novo spa quando um tumulto explodiu no saguão. O resort em Búzios estava impecável — luzes quentes refletidas no mármore, garçons deslizando entre os convidados, o mar recortado pelas janelas de vidro. Tudo sob controle até aquele menino enlameado invadir o átrio com os seguranças na cola, gritando e segurando uma foto acima da cabeça.
“Eu preciso do meu pai! Ele está aqui!”
André fechou a cara. Patrocinar eventos de luxo exigia uma imagem limpa, e aquele espetáculo berrando entre executivos não ajudava. O garoto parecia ter uns onze ou doze anos, magro, tênis de marca barata com a costura lateral arrebentada, uma mochila velha pendurada num ombro só. Os seguranças o agarraram pelos braços.
— Isso não é lugar de molecagem — resmungou alguém do grupo ao lado, um empresário de São Paulo que André mal conhecia.
O menino forçou o papel na direção deles. A foto balançava, mas o rosto da mulher estampava-se nítido mesmo com a tremura. Larissa. O coração de André deu uma pancada surda.
— Meu pai está aqui. Ela me disse que eu o encontraria se viesse hoje.
André se aproximou, os joelhos moles. Tomou a fotografia das mãos sujas do garoto. Larissa exatamente como ele lembrava: o cabelo preso meio solto, a blusa florida, o mesmo ângulo da última viagem que fizeram juntos a Paraty, doze anos atrás. Ele engoliu seco.
— De onde você tirou isso?
— Ela era minha mãe. — A voz do garoto saiu espremida. — Pediu que eu procurasse o André Mendonça se alguma coisa acontecesse com ela.
A mão de André apertou a borda da foto. Os seguranças trocaram olhares, esperando. Ele fez um gesto para que o largassem.
— Soltem o menino.
Conduziu o garoto para um canto afastado, junto a um piano de cauda onde ninguém tocava naquele momento. O barulho da festa ia morrendo conforme ele se afastava, ou era só sua cabeça afunilando tudo num zumbido. O menino remexeu a mochila e tirou um envelope pardo, amassado e preso com fita adesiva.
— Você é o André, não é? Ela deixou isso. A vó guardou e, antes de morrer, mês passado, me entregou. Falou que era pra eu procurar o pai se o resto desse errado.
André rompeu o envelope. Lá dentro, vários papéis dobrados, cartas curtas, todas dirigidas a ele e nunca enviadas. Reconheceu a caligrafia miúda de Larissa ainda na primeira linha. Leu a última página primeiro — e a frase final queimou seus olhos: “Sua mãe me disse que nosso filho destruiria seu futuro. Preferi sumir a te ver desistir de tudo por minha causa.”
Levantou o rosto. A mãe dele, dona Eloísa, descia a escadaria do mezanino naquele instante, um vestido preto de renda, um colar de pérolas que devia custar mais que a casa onde André nasceu. Ela pousou os olhos sobre a cena, viu o menino e empalideceu.
André sentiu o pulso martelar no pescoço. A carta vibrava entre seus dedos.
— Mãe. — A palavra saiu com dureza. Ele mostrou a carta. — O que a senhora fez?
Eloísa apertou os lábios. Deu mais um passo, mas parou quando o filho ergueu a mão.
— Eu só protegi você. Aquela moça não tinha berço, não ia te levar a lugar nenhum. E um filho naquela idade… Fiz o que qualquer mãe faria. Você na época concordou em tocar a vida.
— Concordei porque achei que ela tivesse me largado! — A voz de André subiu um tom. Ele apontou para o menino, que assistia a tudo com os olhos arregalados, uma lágrima pregada nos cílios. — A senhora simplesmente acabou com a vida dela. Com a minha. Com a dele.
O garoto, Henrique, como ele diria mais tarde, mantinha os olhos grudados no chão. Na mão ainda segurava o bilhete de embarque do ônibus, todo amassado — R$ 189,90, Juiz de Fora a Búzios, saída às 4h15 da rodoviária — e uma goma de chiclete que uma recepcionista lhe dera enquanto esperava. Tinha uma revista amassada no bolso lateral da mochila, um volume velho de uma publicação de turismo que Larissa guardava havia anos, com a página do resort anunciando a inauguração do spa dobrada na ponta, um círculo de caneta vermelha em volta da data.
— Você é meu pai, não é? — perguntou baixinho, encarando André pela primeira vez sem medo.
André respirou fundo. Dobrou a carta e enfiou no bolso interno do paletó. Ele se agachou diante do menino.
— Sou. E você nunca mais vai precisar me procurar.
Voltou-se para a mãe, que agora tremia de leve, as mãos crispadas na bolsa. Ela tentou articular uma defesa.
— Você vai estragar sua imagem pública por causa de um escândalo desses? Um filho bastardo, aparecendo assim, numa inauguração de gala? Pense no seu lugar no mercado, André.
André olhou para ela com um cansaço antigo.
— A senhora me roubou a pessoa que eu mais amei. Roubou do meu filho a chance de ter um pai. Agora some daqui. A gerência vai devolver suas malas. Não quero a senhora na minha vida, no meu negócio, em lugar nenhum.
— Você vai se arrepender. Dinheiro não segura tudo.
— Foi a senhora que me ensinou isso.
André fez sinal para um segurança e repetiu a ordem. Dona Eloísa abriu a boca, mas ele virou as costas. Um burburinho começava a se formar entre os convidados; alguém desligou a música de fundo. O diretor do resort aproximou-se rápido, mas André o dispensou com um aceno seco. Em menos de cinco minutos, a escada estava vazia e o som dos saltos da mãe desaparecia no andar superior.
Henrique fungou.
— E agora?
André olhou ao redor. O coquetel podia esperar. Pegou a mochila surrada do garoto e ajeitou a alça no ombro.
— Agora a gente vai pra casa. Tá com fome?
Henrique concordou com um movimento de cabeça, rápido. André se lembrou de uma barraquinha de tapioca na praia, a uns trezentos metros dali, onde a manteiga escorria no papel manteiga e o café vinha num copo americano. Sempre que voltava a Búzios, dava um jeito de passar lá antes de retornar a São Paulo. Naquela noite, pediu duas tapiocas de queijo e uma porção extra de doce de leite, só porque o garoto mencionou que nunca tinha provado.
Comeram na varanda do resort, de frente para o mar escuro salpicado de luzes de barco. Henrique falava de Larissa aos pedaços: do dia em que ela comprou um aquário e todos os peixes morreram numa semana, do jeito que ela cantarolava enquanto passava roupa. Ele soubera do resort porque, dois dias depois do enterro, revirando as coisas da mãe atrás de um documento, encontrou a revista de turismo com a página marcada e o nome do pai anotado na margem. A avó, já muito doente, confirmou: “É teu pai, guri. Se quiser ir, vai.” Ela morreu duas semanas depois, e o menino juntou o dinheiro da passagem vendendo latinhas e fazendo entrega para uma banca de jornal, até completar os R$ 189,90.
André ouvia. O garoto tinha o mesmo tom de voz da mãe, uma pressa de contar as coisas antes que elas escapassem. Dali a pouco, um garçom trouxe cobertores e eles ficaram ali até bem mais tarde, o ruído do mar preenchendo o vazio que as palavras não alcançavam.
Pela manhã, André cancelou a reunião das dez, a das onze e a da tarde. Ligou para o advogado e pediu que iniciasse o processo de reconhecimento de paternidade e bloqueasse qualquer acesso da mãe às suas contas pessoais. Depois, levou Henrique a uma loja de roupas do centro, porque o menino só tinha uma muda na mochila e um casaco fino demais para a garoa que costuma cair à noite.
Enquanto o vendedor ajustava as barras da calça nova, Henrique olhou para André e puxou uma última coisa do bolso: um bilhete amarrotado que Larissa escrevera num guardanapo de padaria. “Sei que parece longe, mas o amor não perde o caminho. Um dia ele vai te achar, filho.”
André guardou o guardanapo no bolso da camisa, sobre o peito.
Naquela noite, Henrique dormiu no banco de trás do carro a caminho de São Paulo, enrolado numa manta felpuda, com os pés descalços apoiados numa almofada de viagem. O tênis furado descansava no assoalho, ao lado da mochila agora com etiqueta de loja nova para estrear. André olhou para o retrovisor, viu os pés sujos de areia ainda grudada nos calcanhares, o peito do menino subindo e descendo num ritmo de sono confiado. Reduziu a velocidade, sem pressa de chegar.
